quinta-feira, 29 de maio de 2008

SENTIDO OBRIGATÓRIO

A iniciativa é apartidária. Juntará pessoas com militância e outras sem, há muito afastadas. Mas a tarefa organizativa pertenceu, no essencial, ao Bloco de Esquerda. No próximo dia 3 de Junho, no Teatro Trindade, Manuel Alegre, José Soeiro (deputado do Bloco de Esquerda) e Isabel Allegro Magalhães, discursarão no mesmo palco, num comício-festa, para celebrar Abril "agora aqui". Os promotores apresentam a iniciativa como inédita.

"Não é uma coisa partidária, juntam-se pessoas de várias esquerdas", disse ontem ao DN Manuel Alegre. "É um sinal, há outra gente e outras inquietudes - e há esquerda."

Segundo acrescentou, a iniciativa foi convocada porque várias pessoas, originárias das mais variadas esquerdas - por exemplo, de sectores em tempos afectos a Maria de Lurdes Pintasilgo - consideram que "há que reflectir sobre políticas alternativas" para fazer face "à crise global do neoliberalismo".

Francisco Louçã, também ouvido pelo DN, sublinhou igualmente que o comício-festa "não é partidário". "Quer mostrar que há um diálogo político aberto na esquerda."

E terá futuro? Louçã diz que "não há nada planeado", nomeadamente para transformar o movimento em algo orgânico. Mas "pode haver algumas iniciativas futuras". "Não estão fechadas as portas para reflexões futuras", explicou.

O comício-festa terá por base um documento que, entretanto, já recolheu assinaturas de personalidades como o próprio Louçã, Camilo Mortágua, Cláudio Torres, Edmundo Pedro, José Manuel Mendes - ou seja, personalidades que vão do PS, ao Bloco e a dissidentes do PCP.

No documento lê-se que "trinta e quatro anos volvidos [sobre o 25 de Abril], apesar do muito que Portugal mudou, o ambiente não é propriamente de festa".

"A corrupção e a promiscuidade entre diferentes poderes criaram no país um clima de suspeição que mina a confiança no Estado democrático. Numa democracia moderna, os direitos políticos são inseparáveis dos direitos sociais. Se estes recuam, a democracia fica diminuída. O grande défice português é o défice social, um défice de confiança e de esperança", lê-se ainda.

Por isso, importa não resignar "perante as dificuldades". "Como escreveu Miguel Torga, 'Temos o poder nas mãos/o terrível poder de recusar'." "É tempo de buscar os diálogos abertos e o sentido de responsabilidade democrática que têm de se impor contra o pensamento único, a injustiça e a desigualdade."

Alegre defende Soares

Nas mesmas declarações ao DN, Manuel Alegre manifestou-se espantado com a maneira como o ministro Mário Lino respondeu a um artigo de Mário Soares, anteontem, no DN, sugerindo ao PS que dê a máxima atenção à crescente pobreza em Portugal. "O Governo não está a dormir à espera que o dr. Soares faça um aviso para nos darmos conta do problema", reagiu Lino - comentário que Alegre considerou "insólito". "Ele [Soares] é quem é, é o número um do PS", comentou ainda o seu ex-adversário nas últimas eleições presidenciais.

In DN

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