Instituto dos Museus e da Conservação promove circuitos de obras de arte relacionadas com 'Paixão de Cristo'. Palácio de Queluz e Museu Machado de Castro organizam concertos.
A Fundação Calouste Gulbenkian vai estar fechada no domingo de Páscoa, mas os museus tutelados pelo Estado mantêm a sua actividade normal, ao contrário do que sucedeu entre 1990 e 2006 - com a convocação de greves dos funcionários que garantem a vigilância, num fim-de-semana tradicionalmente marcado pela grande afluência de turistas às principais cidades do País (ver caixa).
"Entre 8 e 12 de Abril, visite os museus do Instituto dos Museus e da Conservação (IMC) e fique a conhecer melhor algumas obras de arte relacionadas com esta época e com o ciclo da 'Paixão de Cristo', símbolos de renovação, tal como a Primavera", assegurava ontem o IMC, em comunicado.
Convidando o visitante a "traçar o percurso a seu bel-prazer", o IMC destaca, em Lisboa, obras como Primavera (Casa-Museu Dr. Anastácio Gonçalves), Adão e Eva (Museu do Chiado), A Deposição de Cristo no Túmulo (Museu Nacional de Arte Antiga), Panorama de Jerusalém (Museu Nacional de Azulejo) ou Ressurreição de Cristo (Palácio Nacional de Sintra).
Na Região Norte, o IMC sugere visita às obras Cristo Morto no Regaço de sua Mãe (Museu Abade do Baçal, Bragança), Macieira em Flor (Museu Nacional Soares dos Reis, Porto), Pietá (Museu Grão Vasco, Viseu) ou Cordeiro Pascal (Paço dos Duques, Guimarães).
Nestas férias da Páscoa, as actividades do IMC destinadas às famílias e ao público infanto-juvenil decorreram, sobretudo, de 2 a 8 de Abril. Mas o Museu Alberto Sampaio, em Guimarães, promove hoje o curso Cientista e Historiador no Museu (12 a 16 anos). E amanhã, no Panteão Nacional, uma oficina dará a conhecer a história da bandeira portuguesa a crianças dos seis aos 12 anos (10.00 às 13.00).
No Museu D. Diogo de Sousa, em Braga, há um atelier de joalharia romana no dia 17. O Soares dos Reis, no Porto, promove uma oficina de representação sobre Henrique Pousão, dia 19. E O Museu Nacional do Teatro, em Lisboa, organiza um jogo de enigmas sobre Shakespeare, a 23 de Abril.
Para o público adulto, o Museu Machado de Castro, em Coimbra, oferece hoje, às 18.00, um recital pelo grupo vocal Ad Libitum; e o Palácio Nacional de Queluz acolhe amanhã, às 17.00, um concerto com a flautista Lídia Serejo.
Quem visitar este fim-de-semana os museus e palácios estatais poderá contar com as exposições patentes, cujo programa está disponível em www.imc-ip.pt.
Porto. O maior festival de expressão artística contemporânea em Portugal, com 80 actividades durante 40 horas, transforma o perímetro de Serralves num ponto de encontro de gente de todas as idades e condições sociais. Uma festa que acompanhámos em http/40horasemserralves.blogs.sapo.pt/
Multidão a deambular pelos jardins adere às iniciativas propostas
Serralves em Festa, 40 horas nonstop em que uma multidão diversificada adere às mais diversas propostas, que vão da música à dança, às exposições, ao teatro e performance, sem esquecer o novo circo, o vídeo, o cinema.
De portões escancarados, o museu e o parque abrem-se a todo o género de públicos, novos e velhos, conhecidos e desconhecidos, entendidos ou pouco dados à cultura. Uma mescla de gentes que, aos milhares, deambula livremente pelo museu, calcorreia o parque frondoso, deita-se nos relvados, respira nas áreas de plantas aromáticas, contorna o lago, belíssimo, convive com árvores de grande porte, tentando adivinhar-lhe o nome.
As crianças brincam, riem e correm, aprendem a tecer, sobem e descem os degraus de uma cascata natural. Os adultos, muitos empurrando os carrinhos de bebé, assistem a um espectáculo de jazz, deslumbram-se com a descoberta de grafonolas, escutam-lhe o som fanhoso, ora rouco, tacteiam os velhos discos de 78 rotações. Depois, apreciam a clareira das bétulas, das azinheiras, o pátio do ulmeiro, o roseiral, a alameda dos castanheiros e dos liquidâmbares, as cameleiras, a mata, o prado, a quinta.
Despreocupada, feliz, a multidão visita a obra de Siza Vieira, refresca-se com cerveja ou gelados, tritura pipocas acabadinhas de fritar, adquire objectos do museu. Discreta, a segurança, a presença das ambulâncias e do corpo clínico. É a desmistificação do museu, de todo o perímetro de Serralves, então para muitos locais reservados a elites onde o mofo e o abstracto e a reverência pontificam. É a festa da convivência, da socialização, do contacto natural com acontecimentos culturais.
Estrangeiros, muitos. Maravilhados, interessados, cruzam-se com a ex-ministra da Cultura, Isabel Pires de Lima. E já um magote de curiosos se empenha num concurso fotográfico ou galhofam face a uma bizarra bicicleta. Dia de sol, de arte e natureza, dia de harmonia em que muitos fizeram questão de ali estar.
O presidente da Câmara de Tomar, Corvelo de Sousa, prometeu hoje que o novo museu do brinquedo deverá estar aberto até final do ano, com a oferta de um espólio de milhares de peças.
O espaço museológico vai estar instalado numa das alas do Convento de São Francisco, junto ao actual Museu dos Fósforos, e deverá incluir também uma cafetaria e uma sala de reparação de brinquedos, explicou Corvelo de Sousa, à margem das cerimónias de inauguração da primeira edição do TomarLego.
A iniciativa constitui o ponto alto das comemorações do Dia da Criança em Tomar, mas o presidente da Câmara quer que a cidade seja também uma referência junto dos mais novos, pelo que as obras de adaptação para o futuro museu do brinquedo terão lugar nos próximos meses.
Para tal, a autarquia conta com a oferta de "uma colecção de brinquedos espectacular", com milhares de comboios, carros e bonecos vários, que foram adquiridos, ao longo dos anos, por Batista da Conceição, engenheiro civil que nasceu no concelho mas que vive em Lisboa.
Sem filhos a quem doar aquele espólio, que inclui também centenas de máquinas fotográficas, Batista da Conceição chegou a acordo com a autarquia para ceder os brinquedos de modo a que as novas gerações possam também apreciar.
"Primeiro comecei por comprar máquinas fotográficas na Feira da Ladra" e depois foi a vez dos comboios, datados dos anos 1950 e 1960, recordou Batista da Conceição, que não fala em números concretos, mas confessa ter milhares de peças.
"Eu sempre gostei de brincar, mexer e arranjar", explicou o idoso, 84 anos, que tem a casa repleta de brinquedos.
"Há janelas que não se podem abrir" por causa dos brinquedos espalhados pela casa, exemplificou a sua mulher, Hilda da Conceição, entre sorrisos.
Presente na cerimónia, esteve também a mulher mais velha da Europa, Maria de Jesus, 114 anos, mas a idosa nada disse, limitando-se a apreciar as peças expostas, que incluíam uma grua com mais de três metros ou vários comboios.
"Ela já está surda e como não ouve pouco diz", explicou Maria Madalena, a filha que levou a idosa ao evento, a convite da autarquia local.
Nos últimos meses, Maria de Jesus tem apresentado saúde e vitalidade que levam a filha a estar optimista em relação à comemorações dos 115 anos, em Setembro.
"Ela está bem e vai tudo correr bem, se Deus quiser", resumiu Maria Madalena.
Diário Digital / Lusa
sábado, 31 de maio de 2008
A obra do arquitecto português Álvaro Siza Vieira «vai marcar toda a América Latina nos próximos anos», considerou sexta-feira, em Porto Alegre, o ministro da Cultura do Brasil, Gilberto Gil, na cerimónia de inauguração do Museu Iberê Camargo, escreve a Lusa.
«O Porto português de Álvaro Siza Vieira, com a sua magnífica Serralves veio desaguar aqui e intensificar a sua actualidade no Porto Alegre brasileiro, desenhando novo horizontes para a luso-tropicalidade», sublinhou Gilberto Gil.
Em representação do Presidente do Brasil, Lula da Silva, o ministro afirmou que «o trabalho de Siza Vieira é intensamente transcontinental e marcadamente atlântico, dando lições aos arquitectos brasileiros».
«Acho que o projecto do Museu Iberê Camargo é a melhor forma para comemorarmos o Ano Ibero-americano de Museus que está a acontecer em 2008», vincou.
Primeira obra de Siza na América do Sul
Primeira obra de Siza Vieira na América do Sul, O Museu Iberê Camargo levou o arquitecto a vencer, em Setembro de 2002, o Prémio de Ouro da Bienal de Arquitectura, em Veneza.
Siza Vieira foi o vencedor de um concurso realizado por uma fundação, criada em 1995 para divulgar a obra do pintor expressionista brasileiro Iberê Camargo (1914-1994), nascido no Rio Grande do Sul.
O trabalho de Siza Vieira mereceu ainda elogios de outras individualidades presentes na cerimónia.
O ministro da Defesa do Brasil, Nelson Jobim, manifestou-se encantado com a obra do arquitecto português, considerando que o edifício «parece uma escultura».
Presidente do museu deliciado
Jorge Gerdau Johannpeter, presidente do museu, declarou que a obra projectada por Siza Vieira «consegue unir a tecnologia de um grande projecto arquitectónico moderno e a relevância da obra do pintor Iberê Camargo».
«Depois da inauguração desta obra de arte, criada por um dos arquitectos mais famosos da actualidade, tenho a certeza que a cidade de Porto Alegre vai ganhar um outro fôlego cultural e artístico«, afirmou por seu lado José Fogaça, presidente do município de Porto Alegre.
«A partir de hoje a cidade de Porto Alegre não é mais a mesma e o próprio rio Guaíba ganha mais vida», disse a governadora do Rio Grande do Sul, Yeda Crusius.
O Museu Nacional de Arte Antiga, está localizado em Lisboa, Portugal. O museu está instalado num palácio do século XVII construído para os condes de Alvor. Este edifício é também chamado de Palácio de Alvor-Pombal.
Em 1770, o marquês de Pombal adquiriu-o ficando na posse da sua família por mais de um século.
Inaugurado em 1884, com a designação de Museu Nacional de Belas-Artes e Arqueologia, sendo o Dr. José de Figueiredo responsável pela sua organização e mais tarde nomeado seu primeiro director.
Actualmente o museu é conhecido por Museu das Janelas Verdes, pois é essa a cor das suas janelas. Em 1940 foi construído um anexo, que inclui a fachada principal. Este ocupou o lugar do Convento Carmelita de Santo Alberto, destruído pelo terramoto de 1755. A única coisa que resistiu foi a capela, agora integrada no museu.
As pinturas de artistas europeus dos séculos XIV ao XIX estão dispostas cronologicamente, no rés-do-chão. Quase todas as peças foram doadas por coleccionadores privados, o que contribuiu para a sua grande diversidade. As primeiras salas, dedicadas aos séculos XIV e XV, marcam a transição entre o gosto gótico medieval e a estética do Renascimento. Os pintores mais bem representados são os alemães e flamengos do século XVI, como Hans Baldung Grien. As obras mais notáveis são o São Jerónimo de Albrecht Dürer, Salomé de Lucas Cranach, o Velho, a Virgem e o Menino, de Hans Memling, e as Tentações de Santo Antão pelo grande mestre flamengo Hieronymus Bosch. Entre o pequeno número de obras italianas a melhor é o Santo Agostinho, do pintor Piero della Francesca do Renascimento, e um gracioso painel de altar que representa a Ressurreição, de Rafael.
Muitas das obras de arte mais antigas são de pintores portugueses influenciados pelos pormenores realistas dos artistas flamengos. Existiram sempre fortes laços comerciais entre Portugal e a Flandres, e nos séculos XV e XVI foram vários os pintores de origem flamenga, como Frei Carlos de Évora que se instalaram em Portugal.
Contudo o lugar de honra cabe ao políptico de São Vicente de Fora, a mais importante pintura portuguesa do século XV, que se tornou no símbolo de orgulho nacional na época dos descobrimentos. Considerado em geral como sendo de Nuno Gonçalves e pintado cerca de 1467 - 1470, a obra representa a Adoração de São Vicente, padroeiro de Portugal, rodeado por dignitários, cavaleiros, monges, pescadores e mendigos. A representação precisa de figuras contemporâneas torna-o num valioso documento histórico e social.
A colecção de esculturas inclui muitas imagens de Cristo, da Virgem e de Santos, em pedra e madeira, policromas e também imagens do século XVII.
Cerâmica Portuguesa e Chinesa
Vaso da Dinastia Ming
A extensa colecção de cerâmica, permite acompanhar a evolução da porcelana chinesa e da faiança portuguesa, bem como ver a influência dos desenhos orientais nas peças portuguesas e vice-versa. A partir do século XVI, a cerâmica portuguesa revela marcada influência Ming, enquanto as peças chinesas ostentam motivos portugueses, como os brasões de armas. No século XVIII, os oleiros desenvolveram estilo europeu cada vez mais personalizado, com desenhos rústicos e populares. A colecção inclui peças da Itália, Países Baixos e Espanha.
Arte Oriental e Africana
A colecção de marfins e móveis com motivos europeus ilustra as influências recíprocas entre Portugal e as suas colónias. No século XVI, a predilecção pelo exótico deu lugar a uma grande procura de artigos como as trompas de marfim esculpido da África. Os fascinantes biombos Namban mostram os portugueses a negociar no Japão. Os japoneses chamavam-lhes Naban-jin, bárbaros do sul.
Ouro, Prata e Joalharia
Entre a bela colecção de tesouros eclesiásticos encontra-se a cruz de ouro do rei D. Sancho I e a custódia de Belém. Também em exibição está o relicário da Madre de Deus, do século XVI, que alegadamente contém um espinho da coroa de Cristo. Destaca-se na colecção de peças estrangeiras um sumptuoso serviço de mesa do século XVIII, de prata encomendado por D. José I. Após a destruição, aquando do terramoto que assolou Lisboa em 1 de Novembro de 1755, das pratas da casa real que anteriormente haviam sido produzidas pela oficina parisiense de Thomas Germain, D. José I, procedeu á encomenda, à mesma oficina, na altura dirigida por François-Thomas Germain, filho e sucessor de Thomas Germain, de uma baixela em prata,num total superior a 1200 peças, das quais uma selecção representativa se encontra no Museu Nacional de Arte Antiga. Incluem-se 6 das 8 terrinas (4 ovais e 4 redondas, estas últimas também designadas olhas), molheiras, saleiros com representações de Índios, e os pratos cobertos (peças raras e de grande originalidade) entre muitas outras peças, todas intrincadamente decoradas. A rica colecção de jóias proveio dos conventos a que foram oferecidas quando os membros da nobreza e a burguesia rica entravam nas ordens religiosas.
Artes Aplicadas
Entre os muitos objectos expostos estão tapetes, móveis, têxteis, paramentos litúrgicos e mitras de bispos. Da colecção de móveis fazem parte muitos exemplares, bem como objectos barrocos e neoclássicos dos reinados de D. João V, D. José I e D. Maria I.
A parte dos têxteis mostra cobertas de cama do século XVII, tapeçarias, muitas delas flamengas, como o Baptismo de Cristo do século XVI, tapetes bordados e de Arraiolos
Com apenas 12 anos Malhoa entrou para a escola de Belas Artes, onde todos os anos ganhou o primeiro prémio, devido às suas enormes faculdades e qualidade artísticas.
O Museu é um elo fundamental entre a história, os indivíduos e os grupos. A sua vocação é sempre a do encontro do homem consigo próprio, não só na dimensão da sua memória e dos comportamentos, mas numa perspectiva de futuro.
O Museu José Malhoa é esse lugar de encontro com a pintura de Malhoa e com uma época da nossa cultura, um museu do Naturalismo português permitindo suscitar esta memória duma forma dinâmica, enquanto motiva a reflexão da actualidade e equaciona a projecção no futuro.
À figura tutelar do patrono da instituição, outras se juntam na importância dos acervos que as representam, como Francisco Franco e Leopoldo de Almeida, testemunhos de uma “idade de ouro” da escultura portuguesa, ou Rafael Bordalo Pinheiro, com o conjunto ímpar e único das 60 esculturas em terracota da “Paixão de Cristo”.
Também o edifício que alberga a colecção se revela um exemplar único da história da nossa arquitectura de influência modernista, quer pela importância particular de que se reveste na concepção para museu, quer por se tratar do primeiro em Portugal projectado e construído de raiz para esse fim.
São estes pedaços de cultura e de história que o Museu José Malhoa convida a reconhecer neste sítio, que se espera seja um lugar de descoberta e de prazer e motivador também para a visita ao vivo, a qual, introduzida no belo jardim envolvente pela colecção de Escultura ao Ar Livre que aí se distribui, poderá culminar numa agradável participação nas actividades que o Museu oferece com regularidade.
O museu é um espaço de preservação e de estudo, de criação de cultura e de vocação transdisciplinar, mas também de interrogação de conceitos e de articulação com o tecido institucional e social envolvente, e, por isso, aberto a múltiplas propostas e leituras.
Entrevista com Carlos Schwarz, líder da ONG Acção para o Desenvolvimento
In DN de 13 Abril 2008
Em que quadro resolveu realizar o simpósio de Guiledje?
É importante sublinhar, antes, que os povos guineense e português têm, agora, a oportunidade de estabelecer um novo processo de cumplicidade. Algo que transforme os desencontros de ontem em memórias e iniciativas conjuntas e que ultrapassem os actos meramente oficiais, fixando-se e aprofundando-se em organizações associativas, escolas, câmaras e ONG.
O simpósio foi já algo desse tipo?
Sem dúvida e representa um primeiro marco no reencontro daqueles que, um dia, se combateram, guineenses, cabo-verdianos, cubanos e portugueses.
Não foi difícil acertar este primeiro reencontro?
Não. Tenho muitas dificuldades em imaginar um encontro assim, noutros espaços do mundo, juntando antigos colonizados e colonizadores e realizado num espírito de profunda amizade e de completa tranquilidade na procura da verdade histórica. Não estou a ver a Argélia e a França, ou o Quénia e a Inglaterra, ou mesmo o Vietname e os Estados Unidos a promoverem um encontro deste tipo. E não conheço um museu histórico de guerra como o que está a ser criado em Guiledje, que não pertencerá a país nenhum mas apenas aos que por lá passaram e combateram. Procuramos fazer desse pedaço da história luso-guineense um património comum, mesmo quando vista com olhares diferentes e eventualmente discordantes. Tenho a certeza de que o comandante guineense Buota Na Batcha, o comandante cabo-verdiano Julinho de Carvalho e o comandante português Alexandre Coutinho e Lima, reconhecerão que é o seu museu quando nele entrarem.
A acção coincidiu com os trabalhos de levantamento de ossadas portuguesas em Guidaje. De que forma olham os guineenses para a recuperação de restos de militares portugueses mortos em combate?
É um direito das famílias conseguir o regresso dos restos mortais de entes que lhes são queridos e nada pode justificar que isso lhes seja impedido, como alguns parecem fazer crer, transmitindo uma certa ideia de que estamos perante "despojos de guerra" ou uma espécie de património histórico nacional.
Esse seu olhar é abrangente? Isto é, centra-se nos portugueses e nos guineenses?
Claro. Nestes últimos 35 anos, como já acontecia na época colonial, continuou a haver portugueses de primeira e de segunda. Os naturais da Guiné que lutaram pela bandeira portuguesa e que sobreviveram, muitos mutilados, continuam esquecidos na valeta da História, abandonados, empurrados. Sentem-se, naturalmente, injustiçados.
E quanto aos guineenses caídos na luta pela independência?
Também nós, aqui, nos fomos esquecendo dos nossos mortos mas, sobretudo, dos nossos vivos. Gente que permaneceu anónima na epopeia em que participou e que foi mais do que uma luta armada, porque o objectivo era o da criação de um Estado moderno, cujos primeiros sinais irromperam com a própria luta - educação, os hospitais de tabanca, o comércio, a agricultura. Mesmo que esse projecto de sociedade se tenha escondido ou perdido nos recantos de Bissau. - S.B.