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quinta-feira, 7 de maio de 2009

quarta-feira, 4 de junho de 2008

MONANGAMBA

Naquela roca grande não tem chuva
é o suor do meu rosto que rega as plantações;

Naquela roca grande tem café maduro
e aquele vermelho-cereja
são gotas do meu sangue feitas seiva.

O café vai ser torrado
pisado, torturado,
vai ficar negro, negro da cor do contratado.

Negro da cor do contratado!

Perguntem as aves que cantam,
aos regatos de alegre serpentear
e ao vento forte do sertão:

Quem se levanta cedo? quem vai a tonga?
Quem traz pela estrada longa
a tipoia ou o cacho de dendém?
Quem capina e em paga recebe desdem
fuba podre, peixe podre,
panos ruins, cinquenta angolares
"porrada se refilares"?

Quem?

Quem faz o milho crescer
e os laranjais florescer
- Quem?
Quem dá dinheiro para o patrão comprar
maquinas, carros, senhoras
e cabeças de pretos para os motores?

Quem faz o branco prosperar,
ter barriga grande - ter dinheiro?
- Quem?

E as aves que cantam,
os regatos de alegre serpentear
e o vento forte do sertão
responderão:
- "Monangambééé..."

Ah! Deixem-me ao menos subir ás palmeiras
Deixem-me beber maruvo, maruvo
e esquecer diluído nas minhas bebedeiras

- "Monangambéé...'"

António Jacinto
(Poemas, 1961)

terça-feira, 3 de junho de 2008

lido de longe, até pode ter graça...

O Conselho Disciplinar abriu um inquérito confidencial, oficialmente designado “Caso do Prelúdio da Madrugada”, cuja evolução transpirou por incúria do chefe da secretaria que, não se fiando na fechadura do liceu, levava o processo consigo para casa.

Numa noite húmida e acalorada, vítima da insónia e da sede tropical, acabou por se esquecer das actas confidenciais, que nunca largava, sobre o frigorífico. E Simplício, ao procurar dessedentar-se com água gelada, a altas horas da noite, encontrou-as e leu-as. Avidamente, é claro.

Alberto Simplício, filho do administrador de Cazombo, junto à fronteira leste, fora confiado pelo pai à hospitalidade vigilante do secretário liceal. Cama, mesa e roupa lavada, com garantia do rapaz escolarizado ao abrigo de um lar respeitável, pela mensalidade de setecentos angolares, era uma lança em África.

O administrador Simplício até costumava dizer frequentemente à mulher: “é um cara direita este secretário”. E sobejavam-lhe motivos para o estimar, pois o secretário nunca se esquecia de rechear a solicitude das encomendas, com desvanecedoras referências ao comportamento de Alberto. Sempre que chegava um embrulho com agulhas de gramofone, pó-de-arroz para dona Miquelina, ou suspensórios elásticos para o senhor administrador, lá vinha uma palavrinha tranquilizadora e lisonjeira: “o pequeno vai de vento em popa e está cada vez mais parecido com o papá, meu ilustre amigo... Saúdo respeitosamente D. Miquelina, permitindo-me parafrasear o vate: ditosa mãe que tal filho tem”.Há lá progenitores que resistam a tanto encanto!

Na volta do correio, o administrador prometia infalivelmente: “creia que a nova lista de artigos, que agradeço procure nas lojas da capital, é a última. Envergonha-me abusar dos seus préstimos, mas, já agora, recomendo-lhe que compare preços em vários estabelecimentos”.

Além disso, também incluía sempre, na última parte das cartas, um post-scriptum, que rezava: “Eduque o Alberto à rédea curta, porque ele está numa idade perigosa. Se descarrilar, descanse que vou a Luanda metê-lo nos eixos. Mas olhe que, na cara do meu rapaz, para se tornar homem, só quem toca sou eu”.

Tal tipo de recomendações impressionava vivamente o destinatário, como modelo didáctico de pedagogia varonil. Ao paternalismo interino do secretário era vedado violar a legitimidade exclusiva da tareia paterna.

Álvaro Fernandes, in “Berços de renda, enxergas de trapo”

sexta-feira, 28 de março de 2008

BRANDOS COSTUMES

BORRACHO COM ARROZ

O patriarca do Toto, senhor de vastas fazendas, produtor de arroz e criador de pombos, tornara-se famoso com a lenda da Baixa dos Dois Teimosos, um troço de aterro na picada para Quimaria. Na época das grandes chuvadas tropicais, viatura que fugisse dos trilhos enterrava-se até aos eixos.
Concebidos noutras paragens mais amenas, os limpa-pára-brisas tornavam-se inoperantes, durante o dilúvio.

Reza a lenda que, certo dia, agarrado ao volante duma velha carripana, ia o Cid Adão a pensar na arca de Noé, quando esbarrou num obstáculo. Passado um momento de perplexidade, percebeu que tinha chocado contra um automóvel imponente, negro e luzidio. Encharcado até aos ossos, o motorista acercou-se, para lhe fazer ver que estava a obstruir a passagem ao novo governador.

-
Quem? Eu?! Ele é que se atravessou no meu caminho! Esta estrada foi aberta pelo Cid Adão Gonçalves e pertence-lhe! - barafustou Cid Adão.
-
Era o que faltava! contrapôs o governador, antes de espirrar. Onde é que já se viu um anónimo cidadão Gonçalves cortar o passo ao governador?
-
Anónimo é o senhor! Na picada do Cid Adão Gonçalves, ninguém circula sem autorização prévia! Nem o governador!
-
Recue imediatamente! - ordenou o governador.
-
O aselha do seu motorista que se desvie ou faça marcha atrás!
-
Isso é que era bom! Onde é que já se viu um governante percorrer itinerários de caranguejo, às arrecuas? Ainda por cima, o senhor pretende que eu dê a primazia a um cidadão anónimo. Nunca!
-
Isto é uma violação do sagrado direito à propriedade privada. E sabe que digo, nestes casos? - perguntou Cid Adão Gonçalves.
Aqui, é o autor obrigado a suspender a narrativa, pois a trovoada não lhe permitiu entender completamente o edificante diálogo que se seguiu, entre as individualidades em litígio. Notou, todavia, pelos semblantes carregados, e um ou outro gesto incontido, que o longo equívoco foi penoso, para as partes envolvidas.

Importa é salientar que o desagradável mal-entendido acabou por sanar-se a contento. O governador fez questão em que Cid Adão tomasse lugar, a seu lado, na viatura oficial, ao que este aquiesceu prazenteiramente.

Recolheram ambos ao Toto, em amena cavaqueira. O governador perorou sobre o desenvolvimento das teorias psico-sociais e explanou o seu ponto de vista.

-
Pauto a minha acção pelo respeito aos princípios de justiça social, consignados no Código Indígena. Através de uma correcta acção psico-social, criarei um verdadeiro homo “afroluso”. De pele negra mas alma branca. É dele que a nossa pátria pluricontinental e multirracial precisa, para derrotar a subversão comunista. Um primo da madrinha de minha mulher, que é chefe de gabinete do secretário do senhor ministro do ultramar, disse-me que sua excelência aprova inteiramente as minhas ideias.
-
Auguro a vossa excelência uma governação repleta de êxito - disse, inclinando cortesmente a cabeça, Cid Adão.
Chegados ao Toto, o governador desejou conhecer a “sua prole de trabalhadores” e Cid Adão viu-se em trabalhos para o distrair, enquanto um diligente capataz se afadigava, no armazém, distribuindo calções e camisas de ganga a trezentos contratados maltrapilhos.

Após visitar as plantações de arroz, “que nem na China há iguais”, e os pombais, onde ensaiou alguns gorjeios que espantaram as pombas, o governador falou aos contratados.

-
Tendes a felicidade de viver numa terra portentosa, que o engenho lusíada tornou exuberante. Trabalhai-a disciplinadamente, para serdes merecedores do sacrifício do vosso patrão, o meu ilustre amigo Cid Adão Gonçalves. Quis Deus, com a sua omnisciência, dar-vos uma pele negra. Aceitai-a, sursum-corda, pois Deus, na sua infinita misericórdia, ainda vos fez criaturas humanas.
Para merecerdes esta condição, tereis, porém, de vos portar como homens honestos e trabalhadores, que ganham a vida e cumprem o seu dever, pagando os impostos ao senhor administrador.

Não vos importeis com o negrume da pele, porque, para vos lavar a alma e a tornar pura e branca, como a dos governantes que o providencial doutor Salazar vos enviou, cá estou eu.
Serei, para vós, um pai severo, mas bondoso. Saberei escutar as vossas reclamações, desde que não abusem, é claro. Não me peçam o Céu, pois não vo-lo poderei dar. Dar-vos-ei, todavia, um conselho: sede mansos e diligentes para o merecerdes, para, após a morte, vos libertardes do fardo negro desta vida.
“Boi-cavalo”, um capataz assim alcunhado pela frequência com que mimoseava os contratados com cabeçadas e pontapés, traduziu a intervenção do governador, dizendo:
- Este branco grande é nosso pai e amigo do patrão. Vocês são pretos, porque Deus é porreiro. Senão seriam macacos. Os macacos não trabalham nem pagam impostos, mas têm rabo. Vocês não têm rabo e, por isso, para agradecer a Deus, têm de trabalhar muito. O dinheiro que o patrão vos dá não é para gastar na farra. É para pagar imposto ao senhor administrador, caso contrário, dou-vos porrada. Quem paga imposto fica lavado. Fica com a alma da cor destes brancos. E vai para o céu, quando morrer. O branco grande disse que vocês podem falar.
Um murmúrio inintelegível cresceu no grupo de contratados, antes de um ancião, de carapinha toda branca, tomar a palavra, no seu português peculiar.
- A gente aprendeu que a alma não tem cor. O branco grande não precisa de ficar preocupado. O imposto, a gente paga sempre. Aqueles que fica doente e não pode trabalhar fica mais anos no contrato, para ganhar o dinheiro do imposto. O branco grande é amigo do patrão. Deve dizer nele que a gente está farto de borracho com arroz. A gente não gosta de borracho com arroz. A gente tem borracho com arroz todos os dias.
O governador afirmou ter registado tudo com agrado e deu por encerrado o encontro.
Ao jantar, sua excelência elogiou a magnanimidade do patrão que “diariamente serve borracho com arroz aos seus empregados. É manjar de reis. É apaparicá-los!”
- Têm o que merecem, excelência - contrapôs o anfitrião.
Passados tantos anos, permanece o narrador na dúvida. Será que o governador não percebeu que o “borracho com arroz” era uma câmara de ar, de borracha, cheia de arroz e atada nos extremos, como chouriço?
Cid Adão mandava aplicá-la nos rins dos indolentes. Substituía vantajosamente o tradicional chicote de cavalo-marinho. Os golpes não deixavam marcas.

Álvaro Fernandes in “Berços de renda, enxergas de trapos”; “Em Marcha”, Lisboa 1980