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quarta-feira, 17 de junho de 2009

Cartas da Patagónia III

Segundo o correspondente da Rádio Pinguim, o clima político na Sócralândia está cada vez mais instável. Diz ele que, hoje, a direita – excluindo o PS pinocrático que também pertence a essa ala política – apresentou uma moção de censura ao governo. Chumbada pela tal maioria que ninguém sabe aonde e a quem pertence. A esquerda, como não quer meter-se em caldeiradas, absteve-se.

Rádio Pinguim chamou a atenção para um facto indesmentível e notório, da última vez em que os eleitores da Sócralândia foram chamados às urnas: o Pinócrates levou um cabaz cheio de negas. Já ninguém acredita nele nem nos capatazes da Justiça, Educação, Finanças, Agricultura, Segurança Interna, Defesa, Obras Públicas, Segurança Social, Economia, etc.

O mais interessante e sintomático é que as negas foram distribuídas equitativamente pela esquerda, o centro e a direita. E resta-nos tirar uma conclusão: se ganharam o centro, a direita e esquerda, e só perdeu o PS do Pinócrates, em que área política se situa a criatura?

Tanto quanto e se vai tornando claro, à medida que abre a boca, na zona de onde nunca saiu: o seu umbigo. E continuando a fazer as habilidades circenses do costume. De “animal feroz” com capatazes a confessarem que gostam de malhar, prometeu que se ia travestir em modesto, humilde e “jamé” arrogante. Mas sem perder tempo, anuncia que”vai manter o rumo”. E nisso acredito! O facto é que a criatura nunca teve algo parecido com rumo.

Governou durante quatro anos ao sabor dos ditames do capital financeiro e do grande patronato. Para isso, desacreditou a Justiça, abocanhou a Educação e o Serviço Nacional de Saúde, saudou o tal tratado de Lisboa com um “porreiro pá” e obrigou o Vital ventríloquo a apoiar a reeleição do mordomo da cimeira criminosa das Lages, na presidência da comissão europeia.

Tudo, tudo, sempre tudo, à custa de impostos escandalosos pagos por quem sustentava este país: a classe média e as pequenas e médias empresas. Daí as inevitáveis consequências: mais de dois milhões de novos pobres e a falência diária das empresas que garantiam o sustento de quem trabalha, com o inevitável aumento desenfreado do desemprego.

Mas o mais fantástico de tudo isto é que a tal criatura – segundo consta nos mentideros bem informados – prepara-se para fazer uma “remodelação” governamental…

Não há dúvidas de que, depois do passado dia 7 de Junho, o Pinócrates mudou. Cada vez que abre a boca, cresce-lhe o nariz. Podem deitar fora as caricaturas porque o original tem um nariz imbatível.

Compreendam que vá passar uns dias mais a Sul, junto dos leões marinhos e aonde não chega a Rádio Pinguim. Não sei quanto tempo por lá ficarei. Mas será o necessário e suficiente para me livrar da fronha do Pinócrates.

Entretanto, passem bem e desliguem a rádio e televisão. Talvez vos faça bem.

Adeus, e até ao meu hipotético regresso.

PS no pós-eleições...

E agora?
Agora, Sócrates deveria arrepiar caminho, mas não faz o seu feitio – não reconhece, nem muda. Louçã vai acelerar, claro. Jerónimo consolida e pressiona. Portas não pode parar.
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E Manuela, suave, suavemente, continuará a capitalizar erros socráticos e a apostar na ideia nuclear de que a crise exige confiança, esta exige verdade (e segurança) e de que uma e outra se identificam com PSD e a sua liderança. Três meses intensos!
Marcelo Rebelo de Sousa
in Sol

segunda-feira, 15 de junho de 2009

Política com aritmética...

De repente o cartão laranja a Sócrates, dado pelos eleitores que se deslocaram no passado dia 7 de Junho às urnas a pretexto das eleições europeias, voltou a colocar na agenda política a questão da governabilidade do País.
Está tudo em aberto para as legislativas, mas dificilmente algum partido conseguirá maioria absoluta.
É com base nesta premissa que voltam a colocar-se exercícios de aritmética política, que são sempre mais complicados à esquerda do PS do que à direita.
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É natural que a ala mais à esquerda do hemiciclo de S. Bento ganhe espaço na próxima legislatura, mas dificilmente PCP e Bloco aceitam viabilizar um Governo de Sócrates. O próximo Executivo vai ter de resolver a pesada herança da crise que obrigará os portugueses a mais sacrifícios, porque a situação financeira do Estado encontra-se à beira do abismo.
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Com o endividamento em 80% do PIB, um défice real na casa dos 6%, o próximo Governo vai ter de cortar despesas que inevitavelmente atingirão funcionários públicos e reformados.
Tal como já aconteceu em Espanha, mais tarde ou mais cedo, haverá nova subida de impostos.
O País, que viveu os últimos sete anos em tempo de vacas magras vai passar pelo tempo de vacas realmente esqueléticas, e isso torna ainda mais difícil entendimentos políticos de governabilidade com Bloco e PCP.
Armando Esteves Pereira
in CM

terça-feira, 26 de maio de 2009

Urge defender e lutar pela cidadania

A petição que se encontra online em:

http://www.peticaopublica.com/PeticaoVer.aspx?pi=P2009N37

é o primeiro passo que explica as razões do descontentamento à Assembleia da República.

Também neste blogue já foi publicado:

Basta de partidocracia.

Após a eleição dos “deputados” europeus – nas inevitáveis listas elaboradas pelos aparelhos partidários – e sem criar os habituais tabus – convidarei os nossos leitores a exigirem o seguinte:

- que os deputados à Assembleia da República sejam eleitos em círculo uninominal, isto é: que cada eleitor vote no nome do deputado que pretende eleger, e não na lista (que desconhece) e em que se limita a pôr uma cruzinha no símbolo do partido. Assim, as listas devem conter os nomes de todos os candidatos e cada eleitor vota no candidato em que confia, e não no símbolo do partido que aparece no boletim de voto.

- que seja permitido, à semelhança das candidaturas à Presidência da República e às Autarquias, que se possam candidatar cidadãos sem dependerem de listas propostas pelos partidos.

Só assim conseguiremos devolver a soberania aos cidadãos.

Enquanto não o conseguirmos, a Democracia é uma ilusão.

Vivemos em partidocracia e isso interessa a todos os partidos. Nunca serão eles a fazer a indispensável revisão constitucional e da lei eleitoral.

Só um amplo “MOVIMENTO DE DESCONTENTAMENTO” – subscrevendo a petição :

http://www.peticaopublica.com/PeticaoVer.aspx?pi=P2009N37

seguida do voto em branco nas próximas eleições, conseguirá obrigar a partidocracia a devolver a soberania devida aos cidadão e só aos cidadãos.

quarta-feira, 13 de maio de 2009

Não é a crise que nos destrói. É o dinheiro...

Nada no mundo me faria revelar o nome de quem relatou este episódio. É oportuno divulgá-lo agora porque o parlamento abriu as comportas do dinheiro vivo para o financiamento dos partidos.O que vou descrever foi-me contado na primeira pessoa.
Passou-se na década de oitenta. Estando a haver grande dificuldade na aprovação de um projecto, foi sugerido a uma empresária que um donativo partidário resolveria a situação. O que a surpreendeu foi a frontalidade da proposta e o montante pedido.
Ela tinha tentado mover influências entre os seus conhecimentos para desbloquear uma tramitação emperrada num labirinto burocrático e foi-lhe dito sem rodeios que se desse um donativo de cem mil Contos "ao partido" o projecto seria aprovado.O proponente desta troca de favores tinha enorme influência na vida nacional.Seguiu-se uma fase de regateio que durou alguns dias.
Sem avançar nenhuma contraproposta, a empresária disse que por esse dinheiro o projecto deixaria de ser rentável e ela seria forçada a desistir. Aí o montante exigido começou a baixar muito rapidamente.Chegou aos quinze mil Contos, com uma irritada referência de que era "pegar ou largar".
Para apressar as coisas e numa manifestação de poder, nas últimas fases da negociação o político facilitador surpreendeu novamente a empresária trazendo consigo aos encontros um colega de partido, pessoa muito conhecida e bem colocada no aparelho do Estado.
Este segundo elemento mostrou estar a par de tudo. Acertado o preço foram dadas à empresária instruções muito específicas.O donativo para o partido seria feito em dinheiro vivo com os quinze mil Contos em notas de mil Escudos divididos em três lotes de cinco mil. Tudo numa pasta. A entrega foi feita dentro do carro da empresária. Um dos políticos estava sentado no banco do passageiro, o outro no banco de trás.
O da frente recebeu a pasta, abriu-a, tirou um dos maços de cinco mil Contos e passou-a para trás dizendo que cinco mil seriam para cada um deles e cinco mil seriam entregues ao partido.O projecto foi aprovado nessa semana. Cumpria-se a velha tradição de extorsão que se tornou norma em Portugal e que nesses idos de oitenta abrangia todo o aparelho de Estado.
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Rui Mateus no seu livro, Memórias de um PS desconhecido (D. Quixote 1996), descreve extensivamente os mecanismos de financiamento partidário, incluindo o uso de contas em off shore (por exemplo na Compagnie Financière Espírito Santo da Suíça - pags. 276, 277) para onde eram remetidas avultadas entregas em dinheiro vivo.Estamos portanto face a uma cultura de impunidade que se entranhou na nossa vida pública e que o aparelho político não está interessado em extirpar. Pelo contrario.
Sub-repticiamente, no meio do Freeport e do BPN, sem debate parlamentar, através de um mero entendimento à porta fechada entre representantes de todos os partidos, o país político deu cobertura legal a estes dinheiros vivos elevados a quantitativos sem precedentes.
Face ao clamor público e à coragem do voto contra de António José Seguro do PS, o bloco central de interesses afirma-se agora disposto a rever a legislação que aprovou. É tarde.
Com esta lei do financiamento partidário, o parlamento, todo, leiloou o que restava de ética num convite aberto à troca de favores por dinheiro. Em fase pré eleitoral e com falta de dinheiro, o parlamento decidiu pura e simplesmente privatizar a democracia.
Mário Crespo
in JN

sexta-feira, 8 de maio de 2009

O título do dia

PS mantém animais no circo

Especialmente nos plenários da Assembleia da República

segunda-feira, 20 de abril de 2009

Tiro no pé



"Recados" de Cavaco tiveram resposta do primeiro-ministro


por J.P.H., P.V. E P.S.

Analistas políticos dizem que as "farpas" que Cavaco enviou ao Governo tiveram resposta de Sócrates, que disse que o País não precisa da política do "recado" e do "remoque". Quem ganha com a subida da temperatura?

Quem perde sei eu: Sócrates e o PS.
Mas, por arrastamento, talvez ganhem todos os portugueses. Para isso, basta votarem em consciência e sem medo do papão.

Em ano de todas as eleições (e da famigerada crise) , só a arrogância e narcisismo do primeiro-ministro explicam que entre em braços-de-ferro com a Presidência da República.

Cavaco Silva afirmou, por exemplo, que seria "um erro muito grave, intolerável mesmo, que na ânsia de obter estatísticas económicas mais favoráveis e ocultar a realidade se optasse por estratégias de combate à crise que perpetuassem os desequilíbrios já existentes".

Mais um tiro em cheio no pé de Sócrates.

quarta-feira, 15 de abril de 2009

Manuela e a cabeça


Foto in "Primeiro de Janeiro"

Para concorrer às eleições, já só lhe falta tronco e membros.

sábado, 11 de abril de 2009

histórias da História


Aveiro: «Elevação a cidade não se justificava»

Historiador considera que foi acto político

Aveiro não justificava ser cidade e foi-o por razões políticas, defende o historiador Amaro Neves no dia em que se comemoram 250 anos sobre a assinatura, por D. José I, da elevação a cidade, refere a Lusa.

Amaro Neves descreve Aveiro de há 250 anos como uma pequena vila muralhada, de feição medieval, ainda que de carácter burguês, devido às actividades salineiras, piscatórias e mercantis, mas que se encontrava decadente devido ao assoreamento da Ria.

A elevação a cidade, sustenta, «foi justificada por um pseudo-atentado contra o rei, já que não há provas seguras de que o atentado tenha existido», de que seria tido como principal responsável o duque de Aveiro.

Cortada a cabeça do duque, havia que granjear a simpatia das pessoas tuteladas pelo duque de Aveiro. Entendeu o rei que essa seria uma forma de compensação, mas diria mais. Foi também uma atitude delimitadora da Diocese de Coimbra, porque para Aveiro ser cidade passaria também a ser sede de diocese, como veio a sê-lo.

«A maior parte do território da nova diocese foi retirado à de Coimbra e era a parte mais rica», conclui.

Aveiro ascende à categoria de cidade num período de acentuado decréscimo demográfico, em que a barra natural de ligação do Rio Vouga ao Oceano se assoreava e deambulava para sul, dificultando a passagem das embarcações mercantis.

Emigração em massa para Brasil

A Ria, sem saída franca das águas para o mar, tornava-se num enorme charco, propício às epidemias e definhando as actividades económicas. «As pessoas fugiram em grande número, nomeadamente para o Brasil. Por algum sal, por alguma pesca, a zona da beira-mar, fora de muralhas, ainda conseguia ter alguma prosperidade, mas todo o casario do coração da vila, que é hoje o centro da cidade, ficou ao abandono durante quase 100 anos», descreve o historiador.

Amaro Neves explica assim o facto de poucas edificações de há 250 anos ainda hoje subsistirem, mais do que com a pobreza dos materiais, numa zona onde a pedra vinha de fora.

«Quando se dá o retorno da população com a abertura da barra, a maior parte dos edifícios eram escombros e as muralhas estavam decadentes. Havia construções nobres de boa qualidade arquitectónica, como o Palácio dos Tavares, que depois foi o Paço Episcopal, ou o Palácio de D. Brites Lara, mas não eram muitas, até porque havia desde tempos remotos a proibição de que os nobres fizessem a sua casa-sede em Aveiro», explica.

Contrariando a tendência de empobrecimento da vila, assiste-se ao enriquecimento de várias casas religiosas, visível nas talhas barrocas das suas igrejas, fosse por legados e heranças, a que não será alheio o declínio demográfico, fosse pela gestão empreendida.

Amaro Neves salienta que as casas conventuais «tinham todo o interesse em serem boas administradoras do património herdado» e «quase todas possuíam marinhas e ligações à actividade da pesca, pelo que se pode dizer que tinham uma empresa bem montada».

Relembrar Aveiro desse tempo e assinalar a elevação a cidade é o que pretende a Câmara Municipal, através de um conjunto de iniciativas que tem este sábado um dos seus principais momentos numa sessão solene.

Durante a cerimónia será feita uma alocução histórica sobre «Aveiro: Identidade e Memória» por Inês Amorim e apresentado o projecto do «Memorial da Fundação da Cidade. Porta do Sol», pelo arquitecto Siza Vieira.

In Portugal DiárioAveiro não justificava ser cidade e foi-o por razões políticas, defende o historiador Amaro Neves no dia em que se comemoram 250 anos sobre a assinatura, por D. José I, da elevação a cidade, refere a Lusa.

Amaro Neves descreve Aveiro de há 250 anos como uma pequena vila muralhada, de feição medieval, ainda que de carácter burguês, devido às actividades salineiras, piscatórias e mercantis, mas que se encontrava decadente devido ao assoreamento da Ria.

A elevação a cidade, sustenta, «foi justificada por um pseudo-atentado contra o rei, já que não há provas seguras de que o atentado tenha existido», de que seria tido como principal responsável o duque de Aveiro.

Cortada a cabeça do duque, havia que granjear a simpatia das pessoas tuteladas pelo duque de Aveiro. Entendeu o rei que essa seria uma forma de compensação, mas diria mais. Foi também uma atitude delimitadora da Diocese de Coimbra, porque para Aveiro ser cidade passaria também a ser sede de diocese, como veio a sê-lo.

«A maior parte do território da nova diocese foi retirado à de Coimbra e era a parte mais rica», conclui.

Aveiro ascende à categoria de cidade num período de acentuado decréscimo demográfico, em que a barra natural de ligação do Rio Vouga ao Oceano se assoreava e deambulava para sul, dificultando a passagem das embarcações mercantis.

Emigração em massa para Brasil

A Ria, sem saída franca das águas para o mar, tornava-se num enorme charco, propício às epidemias e definhando as actividades económicas. «As pessoas fugiram em grande número, nomeadamente para o Brasil. Por algum sal, por alguma pesca, a zona da beira-mar, fora de muralhas, ainda conseguia ter alguma prosperidade, mas todo o casario do coração da vila, que é hoje o centro da cidade, ficou ao abandono durante quase 100 anos», descreve o historiador.

Amaro Neves explica assim o facto de poucas edificações de há 250 anos ainda hoje subsistirem, mais do que com a pobreza dos materiais, numa zona onde a pedra vinha de fora.

«Quando se dá o retorno da população com a abertura da barra, a maior parte dos edifícios eram escombros e as muralhas estavam decadentes. Havia construções nobres de boa qualidade arquitectónica, como o Palácio dos Tavares, que depois foi o Paço Episcopal, ou o Palácio de D. Brites Lara, mas não eram muitas, até porque havia desde tempos remotos a proibição de que os nobres fizessem a sua casa-sede em Aveiro», explica.

Contrariando a tendência de empobrecimento da vila, assiste-se ao enriquecimento de várias casas religiosas, visível nas talhas barrocas das suas igrejas, fosse por legados e heranças, a que não será alheio o declínio demográfico, fosse pela gestão empreendida.

Amaro Neves salienta que as casas conventuais «tinham todo o interesse em serem boas administradoras do património herdado» e «quase todas possuíam marinhas e ligações à actividade da pesca, pelo que se pode dizer que tinham uma empresa bem montada».

Relembrar Aveiro desse tempo e assinalar a elevação a cidade é o que pretende a Câmara Municipal, através de um conjunto de iniciativas que tem este sábado um dos seus principais momentos numa sessão solene.

Durante a cerimónia será feita uma alocução histórica sobre «Aveiro: Identidade e Memória» por Inês Amorim e apresentado o projecto do «Memorial da Fundação da Cidade. Porta do Sol», pelo arquitecto Siza Vieira.

In Portugal Diário

segunda-feira, 16 de março de 2009

Reflexões pelo Professor Medina Carreira


Nota: O Professor Medina Carreira, um dos mais capacitados economistas portugueses, sempre que fala, deixa o País a reflectir, estupefacto. Aqui deixamos a síntese de uma das últimas entrevistas que concedeu e, a não perder.

"Vocês, comunicação social o que dão é esta conversa de «inflação menos 1 ponto», o «crescimento 0,1 em vez de 0,6»....Se as pessoas soubessem o que é 0,1 de crescimento, que é um café por português de 3 em 3 dias... Portanto andamos a discutir um café de 3 em 3 dias...mas é sem açúcar..."

"Eu não sou candidato a nada, e por conseguinte não quero ser popular. Eu não quero é enganar os portugueses. Nem digo mal por prazer, nem quero ser «popularucho» porque não dependo do aparelho político!"

"Ainda há dias eu estava num supermercado, numa bicha para pagar, e estava uma rapariga de umbigo de fora com umas garrafas, e em vez de multiplicar «6x3=18», contava com os dedos: 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9... Isto é ensino...é falta de ensino, é uma treta! É o futuro que está em causa!"

"Os números são fatais. Dos números ninguém se livra, mesmo que não goste. Uma economia que em cada 3 anos dos últimos 27, cresceu 1% em 2...esta economia não resiste num país europeu."

"Quem anda a viver da política para tratar da sua vida, não se pode esperar coisa nenhuma. A causa pública exige entrega e desinteresse."

"Se nós já estamos ultra-endividados, faz algum sentido ir gastar este dinheiro todo em coisas que não são estritamente indispensáveis? P'ra gente ir para o Porto ou para Badajoz mais depressa 20 minutos? Acha que sim? A aviação está a sofrer uma reconversão, vamos agora fazer um aeroporto, se calhar não era melhor aproveitar a Portela? Quer dizer, isto está tudo louco!"

"Eu por mim estou convencido que não se faz nada para pôr a Justiça a funcionar porque a classe política tem medo de ser apanhada na rede da Justiça. É uma desconfiança que eu tenho. E então, quanto mais complicado aquilo for..."

"Nós tivemos nos últimos 10-12 anos 4 Primeiros-Ministros:

-Um desapareceu;

-O outro arranjou um melhor emprego em Bruxelas, foi-se embora;

-O outro foi mandado embora pelo Presidente da República;

-E este coitado, anda a ver se consegue chegar ao fim e fazer alguma coisa..."

"O João Cravinho tentou resolver o problema da corrupção em Portugal. Tentou. Foi "exilado" para Londres. O Carrilho também falava um bocado, foi para Paris. O Alegre depois não sei para onde ele irá... Em Portugal quem fala contra a corrupção ou é mandado para um "exílio dourado", ou então é entupido e cercado."

"Mas você acredita nesse «considerado bem»? Então, o meu amigo encomenda aí uma ponte que é orçamentada para 100 e depois custa 400? Não há uma obra que não custe 3 ou 4 vezes mais? Não acha que isto é um saque dos dinheiros públicos? E não vejo intervenção da polícia... Há-de acreditar que há muita gente que fica com a grande parte da diferença!"

"De acordo com as circunstâncias previstas, nós por volta de 2020 somos o país mais pobre da União Europeia. É claro que vamos ter o nome de Lisboa na estratégia, e vamos ter, eventualmente, o nome de Lisboa no tratado. É, mas não passa disso. É só para entreter a gente..."

"Isto é um circo. É uma palhaçada. Nas eleições, uns não sabem o que estão a prometer, e outros são declaradamente uns mentirosos: -Prometem aquilo que sabem que não podem."

"A educação em Portugal é um crime de «lesa-juventude»: Com a fantasia do ensino dito «inclusivo», têm lá uma data de gente que não quer estudar, que não faz nada, não fará nada, nem deixa ninguém estudar. Para que é que serve estar lá gente que não quer estudar? Claro que o pessoal que não quer estudar está lá a atrapalhar a vida aqueles que querem estudar. Mas é inclusiva.... O que é inclusiva? É para formar tontos? Analfabetos?"

"Os exames são uma vergonha. Você acredita que num ano a média de Matemática é 10, e no outro ano é 14? Acha que o pessoal melhorou desta maneira? Por conseguinte a única coisa que posso dizer é que é mentira! Está-se a levar a juventude para um beco sem saída. Esta juventude vai ser completamente desgraçada! "

"A minha opinião desde há muito tempo é TGV- Não! Para um país com este tamanho é uma tontice. O aeroporto depende. Eu acho que é de pensar duas vezes esse problema. Ainda mais agora com o problema do petróleo. "Bragança não pode ficar fora da rede de auto-estradas? Não? Quer dizer, Bragança fica dentro da rede de auto-estradas e nós ficamos encalacrados no estrangeiro? Eu nem comento essa afirmação que é para não ir mais longe... Bragança com uma boa estrada fica muito bem ligada. Quem tem interesse que se façam estas obras é o Governo Português, são os partidos do poder, são os bancos, são os construtores, são os vendedores de maquinaria... Esses é que têm interesse, não é o Português!"

"Nós em Portugal sabemos é resolver o problema dos outros: A guerra do Iraque, do Afeganistão, se o Presidente havia de ter sido o Bush, mas não sabemos resolver os nossos. As nossas grandes personalidades em Portugal falam de tudo no estrangeiro: criticam, promovem, conferenciam, discutem, mas se lhes perguntar o que é que se devia fazer em Portugal nenhum sabe. Somos um país de papagaios... Receber os prisioneiros de Guantanamo? «Isso fica bem e a alimentação não deve ser cara...» Saibamos olhar para os nossos problemas e resolvê-los e deixemos lá os outros... Isso é um sintoma de inferioridade que a gente tem, estar sempre a olhar para os outros. Olhemos para nós!"

"A crise internacional é realmente um problema grave, para 1-2 anos. Quando passar lá fora, a crise passará cá. Mas quando essa crise passar cá, nós ficamos outra vez com os nossos problemas, com a nossa crise. Portanto é importante não embebedar o pessoal com a ideia de que isto é a maldita crise. Não é!"

"Nós estamos com um endividamento diário nos últimos 3 anos correspondente a 48 milhões de euros por dia: Por hora são 2 milhões! Portanto, quando acabarmos este programa Portugal deve mais 2 milhões! Quem é que vai pagar?"

"Isso era o que deveríamos ter em grande quantidade. Era vender sapatos. Mas nós não estamos a falar de vender sapatos. Nós estamos a falar de pedir dinheiro emprestado lá fora, pô-lo a circular, o pessoal come e bebe, e depois ele sai logo a seguir..."

"Ouça, eu não ligo importância a esses documentos aprovados na Assembleia...Não me fale da Assembleia, isso é uma provocação... Poupe-me a esse espectáculo...."

"Isto da avaliação dos professores não é começar por lado nenhum. Eu já disse à Ministra uma vez «A senhora tem uma agenda errada"» Porque sem pôr disciplina na escola, não lhe interessa os professores. Quer grandes professores? Eu também, agora, para quê? Chegam lá os meninos fazem o que lhes dá na cabeça, insultam, batem, partem a carteira e não acontece coisa nenhuma. Vale a pena ter lá o grande professor? Ele não está para aturar aquilo... Portanto tem que haver uma agenda para a Educação. Eu sou contra a autonomia das escolas. Isso é descentralizar a «bandalheira»."

"Há dias circulava na Internet uma notícia sobre um atleta olímpico que andou numa "nova oportunidade" uns meses, fez o 12ºano e agora vai seguir Medicina... Quer dizer, o homem andava aí distraído, disseram «meta-se nas novas oportunidades» e agora entra em Medicina... Bem, quando ele acabar o curso já eu não devo cá andar felizmente, mas quem vai apanhar esse atleta olímpico com este tipo de preparação... Quer dizer, isto é tudo uma trafulhice..."

"É preciso que alguém diga aos portugueses o caminho que este país está a levar. Um país que empobrece, que se torna cada vez mais desigual, em que as desigualdades não têm fundamento, a maior parte delas são desigualdades ilegítimas para não dizer mais, numa sociedade onde uns empobrecem sem justificação e outros se tornam multi-milionários sem justificação, é um caldo de cultura que pode acabar muito mal. Eu receio mesmo que acabe."

"Até há cerca de um ano eu pensava que íamos ficar irremediavelmente mais pobres, mas aqui quentinhos, pacíficos, amiguinhos, a passar a mão uns pelos outros... Começo a pensar que vamos empobrecer, mas com barulho... Hoje, acrescento-lhe só o «muito». Digo-lhe que a gente vai empobrecer, provavelmente com muito barulho... Eu achava que não havia «barulho», depois achava que ia haver «barulho», e agora acho que vai haver «muito barulho». Os portugueses que interpretem o que quiserem..."

"Quando sobe a linha de desenvolvimento da União Europeia sobe a linha de Portugal. Por conseguinte quando os Governos dizem que estão a fazer coisas e que a economia está a responder, é mentira! Portanto, nós na conjuntura de médio prazo e curto prazo não fazemos coisa nenhuma. Os governos não fazem nada que seja útil ou que seja excessivamente útil. É só conversa e portanto, não acreditem... No longo prazo, também não fizemos nada para o resolver e esta é que é a angústia da economia portuguesa."

"Tudo se resume a sacar dinheiro de qualquer sítio. Esta inter-penetração do político com o económico, das empresas que vão buscar os políticos, dos políticos que vão buscar as empresas... Isto não é um problema de regras, é um problema das pessoas em si... Porque é que se vai buscar políticos para as empresas? É o sistema, é a (des)educação que a gente tem para a vida política... Um político é um político. E um empresário é um empresário. E não deve haver confusões entre uma coisa e outra. Cada um no seu sítio. Esta coisa de ser político, depois ministro, depois sai, vai para ali, tira-se de acolá, volta-se para ministro...é tudo uma sujeira que não dá saúde nenhuma à sociedade."

"Este país não vai de habilidades nem de espectáculos. Este país vai de seriedade. Enquanto tivermos ministros a verificar preços e a distribuir computadores, eles não são ministros! Eles não são pagos nem escolhidos para isso! Eles têm outras competências e têm que perceber quais os grandes problemas do país!"

"Se aparece aqui uma pessoa para falar verdade, os vossos comentadores dizem «este tipo é chato, é pessimista».... Se vem aqui outro trafulha a dizer umas aldrabices fica tudo satisfeito... Vocês têm que arranjar um programa onde as pessoas venham à vontade, sem estarem a ser pressionadas, sossegadamente dizer aquilo que pensam. E os portugueses se quiserem ouvir, ouvem. E eles vão ouvir, porque no dia em que começarem a ouvir gente séria e que não diz aldrabices, param para ouvir.

O Português está farto de ser enganado!

Todos os dias tem a sensação que é enganado!"