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sexta-feira, 20 de junho de 2008

Textos de Filosofia Política (7)


AS SOMBRAS TECNOCRÁTICAS MODERNAS E PÓS MODERNAS DO POSITIVISMO COMTEANO

A filosofia positiva é uma construção dogmática que interpreta a existência humana como fruto de um determinismo intelectual implacável cuja fonte parece residir na dialéctica que o cérebro humano estabelece com a experiência histórica. Decifrei o seu núcleo duro como um monismo científico que contém os elementos cruciais do ideário tecnocrático
Depurada de componentes ambíguos e periféricos a sua proposta de uma condição humana subjugada pelas directivas colhidas dos saberes positivos parece cristalina. A filosofia de Comte responde ao paradigma dos sistemas acabados, monolíticos e estratificados conduzidos por uma elite intelectual que Platão arquitectou classicamente há mais de dois milénios. Só que os sábios governantes comteanos não querem saber do mundo das formas e da alma que o discípulo de Sócrates representava como a realidade e objecto do verdadeiro saber ao alcance da razão. Ao invés, o filósofo positivo trata esse mundo como uma fantasmagoria do imaginário metafísico, considera que a realidade vive cá fora ao alcance dos sentidos e que os seus sábios são talentos ocupados na produção de conhecimentos e práticas refractárias a tudo quanto seja estranho aos domínios da tecnociência. Assim, descontados os frémitos religiosos e virtudistas, o discurso lógico do positivismo e muitos dos ideais que encerra perfilam-se muito claramente como a antecâmara filosófica de um modo de pensar, viver e governar que muitos consideram dominante nas sociedades pós-industriais.
De facto, o domínio da racionalidade instrumental de filiação clássica e positivista gerou o culto do útil, do efémero e do conservadorismo abúlico em ambiente social polarizado no consumo. Obliterando os espíritos através de uma série de efeitos alienadores, pulverizando as saídas revolucionárias clássicas pela sua assimilação a utopias fora de moda, anulando os efeitos de distanciação da arte e os seus atributos corrosivos da ordem, estandardizando a linguagem, transformando a sensualidade em sexualidade pública, pornografizada e liberalizada, insinuando que os objectivos realmente humanos estão definidos e sob a alçada exclusiva da ciência e da técnica, a tecnocracia sustentada pelo enormíssimo poder formatador dos media, incrustou o positivismo comteano nos pluralismos ocidentais e tornou-o terrivelmente eficiente.
Despojado dos componentes totalitários, das ideias ultrapassadas e das nuances ridicularizáveis a filosofia positiva vai asfixiando as sociedades sem o ónus da unicidade ideológica. Na verdade, alimenta-se de saídas existenciais falsas protagonizadas por adversários políticos formalmente apresentados como alternativas reais. Sob rótulos e promessas diferentes as elites políticas circulam no aparelho de Estado para reproduzir o mesmo sistema de vida. O jogo social das escolhas ocorre em ambientes sociais pragmáticos e economicistas onde o pluralismo político é mais uma forma-máscara do que um espaço alternativo de projectos qualitativamente diferenciados.
Libertos de clericalismos e absolutismos monárquicos pela razão enciclopédica que descodificou as perversas irracionalidades dos poderes sacralizados do «ancien regime» e criou os fundamentos racionais da Grande Revolução, os sistemas sociais emancipados pela razão especulativa foram-se deixando algemar pela razão instrumental que mantém o formalismo dos regimes plurais livres e democráticos mas construiu uma cultura maquínica e consumista que neutralizou as possibilidades do pensamento alternativo. A secagem das fontes do criticismo e a absorção dos contrários pelo sistema que os domesticou mesmo quando os «deixa» apresentarem-se como adversários, eliminaram a alma criadora e o poder de choque dos cidadãos.
Nesta atmosfera pós-moderna, o sentimento de impasse não parece dissipar-se com soluções e promessas de soluções técnicas, não encontra remédio nas ideologias clássicas e não consegue definir pensamentos e estratégias de saída.
Nesta perspectiva, reflectir sobre a tecnocracia é pensar o mundo contemporâneo como a derrota do futuro idílico que o nosso passado iluminista imaginou resultar do exercício da razão nos campos da filosofia, da ciência e da técnica em sociedades construídas sob o lema da tríade de ouro demoliberal: liberdade, igualdade e fraternidade.
Afigura-se-me incontestável diante da análise do «tipo ideal» comteano de sociedade que nele figura a substância teórica e ideológica dos pressupostos e das aspirações do «tipo ideal» tecnocrático que, como sistema real de poder e de cultura tem sido obrigado a mitigar-se na armadura politica e intelectualmente pluralista das democracias de tipo ocidental. Mesmo assim, comprimidos por lógicas democráticas e confrontados com modos de conhecimento baseados na fé e na especulação que subsistem no ocidente sem poder determinante, os grupos tecnoburocráticos nacionais e internacionais parecem assenhorear-se progressivamente das alavancas decisórias a partir do uso instrumental de saberes positivos pluridisciplinares na gestão dos assuntos públicos e privados.
Desenvolvendo-se e reproduzindo-se num contexto de sentido culturalmente construído por uma razão que se fixa acrítica e obsessivamente na função instrumental e abdica da geração de alternativas próprias dos processos «realmente» críticos e emancipatórios, as sociedades desenvolvidas organizadas por este tipo de racionalidade são a expressão presente e possível da utopia comteana: sombras do radicalismo cientifista fixado pela filosofia positiva.

Valter Guerreiro

terça-feira, 17 de junho de 2008

Textos de Filosofia Política (4)

A TECNOCRACIA REAL

A tecnocracia real em acção no concreto é uma purificação do ideário tecnocrático que lhe revela os elementos substantivos e compõe o «tipo ideal». É um retrato abstracto que figura o tecnocrata puro animado por uma espécie de panteísmo científico que põe o saber positivo no lugar do divino spinozista. É uma descritiva de traça weberiana que permite comparar a tecnocracia desejada com a tecnocracia realizada.

É a tecnocracia plenificada dos escritos comteanos em cotejo com a tecnocracia constrangida das sociedades: da herança comteana a tecnocracia recebeu o núcleo duro, que é monolítico e cientificista mas não o pode praticar nas culturas pluralistas de que é filha.

Em todo o caso, a tecnocracia vai-se afirmando no ocaso das ideologias e na intrusão cada vez mais intensa dos símbolos de uma cultura materialista e empirista.

A tecnocracia resgatou a substância da utopia positivista e adaptou-a às circunstâncias móveis das sociedades do século XX sem lograr aproximar-se da hegemonia social, cultural e política prevista do ideal comteano. Na versão capitalista a tecnocracia tem que conviver com o pluralismo e na versão socialista teve que sujeitar-se aos ditames do partido comunista formalmente entrincheirado no marxismo-leninismo.

Neste sentido, o discurso do positivismo e das suas expressões gerencialistas encerram os mitos fundadores do imaginário tecnocrático que na linguagem sainsimoniana se projectam na substituição do «governo dos homens» pela «administração das coisas» e no pensamento comteano se polarizam num «governo de sociólogos».

Dentro da matriz positivista o contributo central para a pertence às reflexões comteanas que seguiram Condorcet na visão

que emerge nos seus escritos como uma necessidade histórica destinada a eliminar a metafísica dominante e a substitui-la definitivamente na construção do modelo político das sociedades industriais e na definição das responsabilidades de gestão na economia, na ciência e na religião.

onde os sábios da sociologia serão os estrategos e os coodenadores da acção governativa que buscará alcançar os objectivos que a novel ciência das sociedades traçou. O contributo central das reflexões comteanas para a construção do ideário tecnocrático foi antecedido pelas intuições do seu mestre a quem se devem os primeiros alicerces do discurso fundador construídos em torno da ideia

Com efeito, o discurso fundacional da tecnocracia iniciou-se no pensamento de S.Simon e foi o discípulo, A. Comte, quem teorizou sistematicamente a ideia de uma política baseada na ciência com relevo especial para os saberes sociológicos que teriam competência para definir e coordenar os objectivos das sociedades industriais. O peso de Platão na construção do ideário tecnocrático é incomparavelmente menor e não vai além do facto do «governo de sábios» ter sido desenhado como um centro monolítico de decisão encarregado de aplicar os princípios coerentes com a sua filosofia das ideias. A anexação do espiritualismo platónico ao património genético da tecnocracia tem a aparência de um paradoxo e, por esta via, pode sugerir a existência de concordâncias significativas com o positivismo de Comte que constitui a referência teórica central dos que concebem o poder ideal como um exclusivo de tecnocientistas mas nada é mais distante da ontologia e da epistemologia platónicas do que a redução popsitivista do ser a uma estrutura de regularidades fenoménicas empiracamente observáveis.

Valter Guerreiro

Recebido do autor por email

segunda-feira, 16 de junho de 2008

Textos de Filosofia Política (3)

O ENCOLHIMENTO TECNOCRÁTICO E OS TIPOS IDEAIS

Como foi dito, a dissimetria entre os discursos e as práticas é um fenómeno geral muito visível no plano do poder onde a dimensão dos interesses envolvidos e os vários constrangimentos sociais tendem a distanciar significativamente a acção da teoria. Nestas condições, as medidas concretas dos governantes tendem a ser manifestações mitigadas e algumas vezes perversas das filosofias seminais subjacentes aos exercícios dos sujeitos políticos que ocupam o comando. Muito mais favorável à radicalidade expressiva da pureza das doutrinas originais, o espaço da oposição nem sempre pode colar-se à autenticidade e há formações ideológicas que recuam e moderam programadamente o verbo político.

Isto significa que motivações e objectivos imanentes aos ideários políticos podem permanecer ocultos à espreita do momento favorável para emergirem à luz do dia, mormente os projectos políticos hostis às exigências substantivas e formais de uma dada cultura política: parece ser este o caso da tecnocracia. O ideário dos tecnocratas está a insinuar-se progressivamente na psicologia colectiva e a ganhar terreno nas práticas sociais dos mais variados níveis mas ainda não desfez nem substituiu os imaginários políticos vinculados a valores estéticos, éticos, sociais e económicos de raiz ideológica subjectivista e vocacionados para o pluralismo. Por isso, a tacnocracia continua a cobrir-se de nebulosas discursivas cuja dissipação requer um retorno às fontes que desnude o modelo político ideal em que a teoria se reconhece: só assim decifraremos os conteúdos exactos da racionalidade e dos objectivos que o discurso político tecnocrático esconde.

Isto significa que é preciso determinar as lógicas inibidas de um ideário político para antecipar a sociedade-modelo que lhe é imanente independentemente das percepções, das expressões e das práticas dos seus actores políticos individuais e colectivos.

Um modo de diagnósticar os valores, as concepções e os propósitos plenos de uma doutrina política é usar a metodologia ideal-típica para construir o tipo ideal de cidade inerente ao sistema teórico que a filia. Nesta perspectiva, é o discurso filosófico comteano que deve ser inquirido para estabelecer o «tipo ideal» da tecnocracia e reflectir sobre os valores, os sentidos, as práticas e as instituições que lhe são inerentes.

Todos os discursos políticos envolvem um conjunto de sentidos e de práticas potenciais que se pudessem ser integralmente cumpridos criariam mundos significativamente diferentes dos resultantes das suas execuções concretas. Esta dissemelhança é proporcional às dimensões oniricas ou utópicas do discurso que busca realizar modelos cuja construção ilude os dados da realidade humana seja ela qual for.

No caso da tecnocracia podemos efinir cenários futuristas de uma cultura cientificista total se operarmos uma libertação teórica radical dos traços típicos da cidade positivista e se os articularmos especulativamente a outras fontes inspiradores posteriores. Esta abstracção conduz à definição de um «tipo ideal» de tecnocracia que nos mostra como seria a sociedade dos tecnocratas se eles levassem até às últimas consequências a lógica do seu ideário político e da cultura conexa.

Da aplicação da metodologia ideal-típica weberiana resulta um tipo ideal tecnocrático que retém a essência da utopia positivista de Comte e das teses managerialistas que substituíram os empresários e os sociólogos positivistas por gestores profissionais na condução da coisa privada e pública.

Valter Guerreiro

Recebido do autor por email

sexta-feira, 13 de junho de 2008

Textos de Filosofia Política (2)


O POSITIVISMO E A GRANDE REVOLUÇÃO

Franceses, os apóstolos políticos da ciência elaboraram teses sobre o sentido da história tomando em conta a Grande Revolução uma vez que os acontecimentos de 89 e as suas sequências na sociedade francesa foram interpretados como o prelúdio da era positiva: os filósofos das Luzes são os grandes actores da metafísica e semearam as ideias revolucionárias em nome de uma Razão antagonista das culturas ancoradas na fé.

Pode dizer-se que a Revolução Francesa é interpretada pelo positivismo como a manifestação dramática da lei de bronze da caminhada do espírito no decurso da qual os enciclopedistas desarmaram os alicerces religiosos da cultura aristocrática sem perceberem que estavam a abrir as portas da história à implantação da cultura humana derradeira formatada pela razão empírica que viria quando a poeira revolucionária assentasse.

No discurso comteano, a tradução concreta da relação entre a evolução do espírito e as sociedades globais é ilustrada no facto da eminência metafísica haver posto os legistas no poder e ter colocado os filósofos no topo da intelectualidade, subtraindo força política à aristocracia e influência moral ao clero. A sociedade francesa passava a ser o palco da presença contraditória das forças aristocráticas, clericais e militares em perda de hegemonia diante dos poderes emergentes da burguesia e dos metafísicos cujo racionalismo pôde acolher sem unanimidade a ideia de Deus mas foi naturalmente anti-místico. O domínio burguês teria por sua vez os dias contados e Comte daria uma ajuda.

Como em qualquer outro determinismo sociológico, no sistema positivista os actores são guiados por leis necessárias cuja existência ignoram ou tendem a desconhecer. Nestas circunstâncias, a liberdade dos homens é puramente imaginária e o comteanismo viu nos intelectuais pré-positivistas o que o marxismo viu na burguesia: coveiros de si próprios. Iludidos por uma fé ilimitada no poder da razão, os metafísicos reinterpretaram os fenómenos humanos à luz de um racionalismo optimista e acabaram por preparar, involuntariamente, a teorização positiva do social que os negaria como elite intelectual e liquidaria o modelo social que continuavam a inspirar.

No entendimento do positivismo, os agentes sociais são títeres da história do Espírito que marcha a ritmos conformes aos tempos e aos povos, numa viagem contínua e sem retorno do simples para o complexo e das ilusões fetichistico-religiosas para as certezas da ciência. Neste circuito plano do espírito iniciado no começo dos tempos, coube aos homens da Enciclopédia o encargo de demolir os deuses e abrir as portas ao cientismo sem darem conta de que o racionalismo era um momento transitório do caminho da razão que culminaria num modelo sócio-político bastante diferente da sociedade legista saída da revolução.

Na prospectiva comteana a tríade de ouro do racionalismo revolucionário e bandeira universal das sociedades demo-liberais - «liberdade, igualdade e fraternidade - acabará por ser apeada pela consigna da sociedade positivista: «ordem e o progresso».

Esta visão das coisas sociais e políticas permitiu ao positismo ler a revolução francesa como uma decapitação dos valores, das práticas e das instituições associados à crença no sobrenatural que substanciava a cultura do Ancien Regime e oferecia a mística necessária à legitimação da monarquia. Nesta missão histórica os enciclopedistas difundiram abstracções que removeram os deuses da consciência colectiva mas que não contribuiram para instalar as capacidades necessásrias à descodificação e à organização do mundo capitalista.

Pelo contrário, o positivismo comteano atribui-lhe males sociais relevantes que se exprimem basicamente na desordem social e na degradação das instituições ligadas à natureza liberal das ideias revolucionárias fundadas numa metafísica cuja subjectividade tende a gerar pluralismos ideológicos nos quais os mesmos objectos são tratados de modos díspares e até antinómicos.

Substituindo os dogmas da fé, as verdades reveladas e as apostas no além por conceitos humanizados e pela fé na capacidade da razão especulativa, os filósofos transformaram a política num exercício de conceitos desrealizados e em conflito partidário permanente sem lograrem perceber que o sentido da históra exigiria a transformação positivista das instituições sociais em coerência com a hegemonia intelectual da ciência num ambiente político monocolor instaurado e gerido pelos saberes empírico-experimentais dominados por sábios governantes.

Na prospectiva comteana a tríade de ouro do racionalismo revolucionário e bandeira universal das sociedades demo-liberais - «liberdade, igualdade e fraternidade - acabará por ser apeada pela consigna da sociedade positivista: «ordem e o progresso».

Esta visão das coisas sociais e políticas permitiu ao positismo ler a revolução francesa como uma decapitação dos valores, das práticas e das instituições associados à crença no sobrenatural que substanciava a cultura do Ancien Regime e oferecia a mística necessária à legitimação da monarquia. Nesta missão histórica os enciclopedistas difundiram abstracções que removeram os deuses da consciência colectiva mas que não contribuiram para instalar as capacidades necessásrias à descodificação e à organização do mundo capitalista.

Pelo contrário, o positivismo comteano atribui-lhe males sociais relevantes que se exprimem basicamente na desordem social e na degradação das instituições ligadas à natureza liberal das ideias revolucionárias fundadas numa metafísica cuja subjectividade tende a gerar pluralismos ideológicos nos quais os mesmos objectos são tratados de modos díspares e até antinómicos.

Substituindo os dogmas da fé, as verdades reveladas e as apostas no além por conceitos humanizados e pela fé na capacidade da razão especulativa, os filósofos transformaram a política num exercício de conceitos desrealizados e em conflito partidário permanente sem lograrem perceber que o sentido da históra exigiria a transformação positivista das instituições sociais em coerência com a hegemonia intelectual da ciência num ambiente político monocolor instaurado e gerido pelos saberes empírico-experimentais dominados por sábios governantes.

Valter Guerreiro

Recebido do autor por email

quinta-feira, 12 de junho de 2008

Textos de filosofia política


A IDEOLOGIA POSITIVISTA

As ideias tecnocráticas emergem no século XX para disputarem as funções políticas tradicionalmente reservadas às ideologias e inscrevem-se numa lógica cientificista que o positivismo de oitocentos desenvolveu radicalmente no seio da sociedade francesa. Exaltando as prestações das ciências da natureza e procurando afeiçoar os seus métodos à análise da história, o positivismo reivindicou o monopólio do conhecimento em todas as áreas e julgou-se com legitimidade intelectual para definir o «ser» e o «dever ser» sociais.

Na escatologia comteana o positivismo contém a sugestão de um «governo de sociólogos» destinado a liderar até ao fim dos tempos e há quem vislumbre nesta fórmula ecos do «governo de sábios» platónico que também procurou colocar o «verdadeiro» conhecimento - a teoria das formas - ao leme da sociedade. De facto, definir e justificar um escol intelectual apto a desenvolver políticas desideologizadas foi um problema central na filosofia positiva e a ideia de um comando político monopolizado por elites científicas foi a solução lógica.

O positivismo oitocentista não se limitou a conhecer os factos sociais interrogando a história. Foi mais longe, e assumiu-se como ciência normativa: partiu do «ser» para o «dever ser». As normas colhidas do entendimento que deu aos factos serviram para determinar instituições, sentimentos, objectivos sociais, atitudes morais e modelos de governação política conformes à sociedade industrial.

Insinuando-se em fragmentos dispersos nas controvérsias epistemológicas e nos discursos sobre as problemáticas sociais, as ideias da filosofia positiva adquiriram explicitude e sistematicidade na obra de Comte sob a forma de um determinismo idealista que interpretou a evolução como uma necessidade e viu na época positivista o «fim da história».

Segundo o comteanismo, o espírito e a prática do positivismo ter-se-iam entrincheirado gradualmente nos diferentes campos do conhecimento sem que tal determinasse a subversão da hegemonia sucessiva dos modos teológico e metafísico de interpretar-modelar o mundo. Foi preciso que o método positivo estivesse habilitado a decifrar a natureza do social, a determinar as causas da sua evolução e a definir as fases sequenciais da maturação do espírito para que os fenómenos sociais ficassem na alçada da ciência como já ocorrera nas matérias físicas, biológicas e psicológicas.

Apesar de ter sido Comte o autor da teoria sistemática que fundamenta o positivismo não é ele o pioneiro do pensamento positista nem sequer o predecessor mais original da idiossincrasia tecnocrática cuja criação é imputada a Saint Simon que concebeu a ideia de uma pilotagem social reduzida à gestão técnica e a resumiu em figuras de estilo extremamente sugestivas da substância política da sociedade tecnicizada e da estrutura social correspondente: a substituição do «governo dos homens» pela «administração das coisas» foi a fórmula célebre que usou para afirmar o primado da técnica e da economia sobre a política nas sociedades industriais.

A leitura radical que o conde fazia do impacto da tecnociência na definição do tecido social é por vezes trazida numa linguagem condensada, impressionista e criativa que hoje legenda as incursões teóricas na tecnocracia. Quem, no circulo das ciências humanas, não leu e releu a parábola obrigatória contra a permanência das componentes do Ancien Regime na estrutura da sociedade francesa pós-revolucionária»? Parábola escrita com cruel simplicidade para afirmar a disfuncionalidade parasitária da aristocracia e do clero na sociedade industrial onde o primado da produção e o ocaso dos saberes reclamariam a passagem do poder para os «industriais», entendidos como a totalidade dos agentes da economia.

Para o mestre de Comte os industriais constituiam a classe decisiva para organizar, gerir e trabalhar nas sociedades centradas na produção de mercadorias e dominadas pelo valor teórico-prático da ciência, alargada à leitura do social.

Foi a ideia sainsimoniana da despolitização cientificista do mundo industrial que Comte absorveu, redefiniu e monumentalizou num quadro intelectual onde o empirismo e o historicismo espiritualista de Condorcet já tinha contribuído para definir as bases epistemológicas e filosóficas das concepções positivistas. Nestas condições, o comteanismo construiu uma narrativa histórica de traça enciclopédica baseada na evolução fásica do pensamento humano até à realização integral do espírito positivo e usou a «Lei dos Três Estados» e a «Classificação das Ciências» para combinar o percurso geral e especializado da Razão que a sua razão fechou na sociologia e os seus sentimentos prolongaram até à moral.

Na lógica do comteanismo, a sociologia desferia o último golpe na metafísica: desalojava-a do reduto social onde ainda mantinha competências para produzir ensinamentos de facto e definir normas de acção. A sociologia estaria em condições de remover as falsificações metafísicas sobre o «ser» e o «dever ser» sociais e de as trocar por proposições fundadas na aplicação da metodologia científica que serviriam de base à governação positivista após o período político dominado pelas ideias metafísicas e pela actividade legislativa.

A hipertrofia do campo de aplicação da ciència e a hipervalorização dos seus conteúdos significaram a menorização da teologia e da metafísica acusadas de representarem modos obsoletos de interpretar o real. A crítica positivista da metafísica desmultiplica-se no ataque às falsificações resultantes do seu subjectivismo especulativo e na oposição à sua megalónoma pretensão de fundir a verdade com a substância das coisas. Foi em conformidade com a noção da lógica evolutiva da inteligência que a sociologia nasceu no seio da filosofia positiva para apear de vez a ambição de aceder à «verdade» ontológica que procura atingir a essência do «ser» e mostrar que o conhecimento possível, genuíno e necessário se queda na superfície das coisas. O único saber viável reduzir-se-ia, no comteanismo, à apreensão dos fenómenos que emergem regularmente dentro de cadeias específicas de antecedentes-consequentes tal como haviam mostrado os empiristas encabeçados por David Hume.

Admitindo que todas as disciplinas passavam pela sua fase teológica, metafísica e positiva, o «pai da sociologia» entendeu que a esfera dos fenómenos da natureza e da mente já se havia tornado positiva faltando cumprir a ciência no discurso sobre o social. Foi esta a tarefa que o comteanismo realizou quando inventou a sociologia e, nesse instante, instaurou as condições intelectuais de passagem da fase metafísica à fase terminal da história humana: o estado positivo. Nas reflexões do positivismo, a sociologia era o elo em falta na cadeia científica e gerava dois efeitos indissociáveis:

1) A cobertura científica integral dos domínios possíveis do saber.

2) A conversão progressiva da humanidade ao monolitismo, ao laicismo e ao pacífismo sob os auspícios de princípios científicos necessariamente universias, dessobrenaturalizantes e eficazes.

Para trás, ficavam a busca do transcendente e os devaneios ontológicos reflectidos nas teologias e nas metafísicas que correspondiam a modelos monárquicos e parlamentares prestes a serem enterrados pelas projecções sociais totais da mentalidade positivista.

Expressa num governo de sábios, numa economia de mercado, numa igreja sem deuses, numa visão ecuménica das solidariedades e numa cultura de saberes modestos, rigorosos e eficazes, a utopia comteana antecipa e modela radicalmente a idiossincrasia e os projectos políticos da tecnocracia: o modelo ideal-típico da cidadela positivista é o sonho tecnocrático.

Contra as ficções produzidas pela fé e pela especulação abstracta, o positivismo ergueu o facho da verdade científica. Contra as estruturas sociais compatíveis com a teologia e a metafísica, o positivismo redesenhou a sociedade em bases científicas. Contra os figurinos políticos de fundamento hereditário ou de raiz metafísica, o positivismo proclamou o monolitismo dos saberes sociais fundados em metodologias com provas dadas na esfera da ciência.

Na obra comteana, as teses positivistas formulam-se de modo explícito, unitário e sistemático para fundamentar a transformação do conhecimento científico em poder político adequado às singularidades das sociedades industriais onde o governo positivista encerraria o ciclo das transformações fásicas da história. No estado positivo teríamos uma humanidade monolítica comandada por sábios avessos à dogmática da fé, à retórica metafísica e aos modelos políticos plurais.

Valter Guerreiro

Recebido do autor por email