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domingo, 7 de dezembro de 2008

POESIA PORTUGUESA ERÓTICA E SATÍRICA - #5

Herberto Helder

Herberto Helder Luís Bernardes de Oliveira nasceu no Funchal no dia 23 de Novembro de 1930.
Entre 1949 e 1952 frequentou o curso de Filologia Românica, na Universidade de Coimbra. Publicou os primeiros poemas por essa altura, na colectânea Arquipélago. De regresso a Lisboa, trabalhou na Caixa Geral de Depósitos e, posteriormente, como angariador de publicidade. De resto, são múltiplos os ofícios que se conhecem ao poeta (meteorologista, delegado de propaganda médica, empregado de cervejaria, cortador de legumes, policopista, encarregado de biblioteca, etc).
Em 1954 deu à estampa três poemas na colectânea Poemas Bestiais. Frequentou o grupo do Café Gelo, no qual pontificou Mário Cesariny, e colaborou com vários jornais e revistas. O seu primeiro livro, O Amor em Visita, publicado por Luiz Pacheco na Contraponto, apareceu em 1958, impondo-o desde logo como um dos casos mais notáveis da poesia portuguesa post-surrealista.
A Colher na Boca, colecção de poemas publicado em 1961, granjeia-lhe definitivamente um lugar ímpar entre os mais jovens poetas portugueses, seguido de Poemacto (1961) e Lugar (1962).
Os Passos em Volta, livro de contos publicado pela primeira vez em 1963, reflectem a vida de andarilho de Herberto Helder. Nos contos que compõem este volume, o autor prolonga, numa prosa que é o estuar da sua imagística, todo o sémen da sua poesia, e o que resulta é um ritual de si em torno da mulher.
Em 1964 co-organizou e colaborou no n.º 1 de Poesia Experimental. Em 1968 participou como actor no filme As Deambulações do Mensageiro Alado, de Edgar Gonçalves Preto, e gravou dois discos de poemas seus. Em 1973, publicou os dois volumes antológicos (1953-66 e 1963-71) de Poesia Toda (Plátano).
Já no final da década de 70, foi editado Photomaton & Vox na Assírio & Alvim, editora que passará a publicar toda a sua obra.
No ano seguinte recusou o Prémio Fernando Pessoa, atribuído pela edição da obra Do Mundo.
Sobre a sua obra, Natália Correia escreveu o seguinte (Antologia da Poesia Portuguesa Erótica e Satírica, 1965): "[...] fecundo, inspirado e romântico poeta que levou alguns observadores a evocar Holderlin, definição que implica a constatação de uma retórica classissista em que se excede a sua obra. A poesia de Herberto Helder, sempre obsessiva, reflecte como que um imenso orgasmo sem fim. Nela, a mulher, o género mais do que o amor individualizado, é a musa universal, receptáculo dos seus excessos e do êxtase que o projecta numa insaciável tensão. [...] O erotismo de Herberto Helder, além de ser a mais pertinente constante da sua inspiração, tem a particularidade de se consubstanciar numa sensualidade homérica e luxuriante como a naturaza mais intrincada e primitiva."
.

HÁ CIDADES COR DE PÉROLA
.
Há cidades cor de pérola onde as mulheres
existem velozmente. Onde
às vezes param, e são morosas
por dentro. Há cidades absolutas,
trabalhadas interiormente pelo pensamento
das mulheres.
Lugares límpidos e depois nocturnos,
vistos ao alto como um fogo antigo,
ou como um fogo juvenil.
Vistos fixamente abaixados nas águas
celestes.
Há lugares de um esplendor virgem,
com mulheres puras cujas mãos
estremecem. Mulheres que imaginam
num supremo silêncio, elevando-se
sobre as pancadas da minha arte interior.
.
Há cidades esquecidas pelas semanas fora.
Emoções onde vivo sem orelhas
nem dedos. Onde consumo
uma amizade bárbara. Um amor
levitante. Zona
que se refere aos meus dons desconhecidos.
Há fervorosas e leves cidades sob os arcos
pensadores. Para que algumas mulheres
sejam cândidas. Para que alguém
bata em mim no alto da noite e me diga
o terror de semanas desaparecidas.
Eu durmo no ar dessas cidades femininas
cujos espinhos e sangues me inspiram
o fundo da vida.
Nelas queimo o mês que me pertence,
o da minha loucura, escada
sobre escada.
.
Mulheres que eu amo com um
desespero fulminante, a quem beijo os pés
supostos entre pensamento e movimento.
Cujo nome belo e sufocante digo com terror,
com alegria. Em que toco levemente
Imente a boca brutal.
Há mulheres que colocam cidades doces
e formidáveis no espaço, dentro
de ténues pérolas.
Que racham a luz de alto a baixo
e criam uma insondável ilusão.
.
Dentro de minha idade, desde
a treva, de crime em crime - espero
a felicidade de loucas delicadas
mulheres.
Uma cidade voltada para dentro
do génio, aberta como uma boca
em cima do som.
Com estrelas secas.
Parada.
.
Subo as mulheres aos degraus.
Seus pedregulhos perante Deus.
É a vida futura tocando o sangue
de um amargo delírio.
Olho de cima a beleza genial
de sua cabeça
ardente: - E as altas cidades desenvolvem-se
no meu pensamento quente.
Lugar
Poesia Toda
Assírio & Alvim, 1979
.
CICLO
.
Escuto a fonte, meu misterioso desígnio
de cantar o amor.
Da tremenda alegria da carne
deve vir o espírito do canto, da vossa
deslumbrante alegria, ó intensas
criaturas solares.
.
Tudo o que é como sinal fecundo
de terra, tudo o que se toca
entre comoção e pensamento
deve participar do vosso cântico, ó
corpos apoteóticos, corpos
reconstruídos sobre o frio ascético dos cadáveres.
.
Vosso é o vinho libertador, a erva
virgem, ó pequenas cabras rituais, a erva
junto à água, junto ao silêncio,
junto à aragem - vosso é o pólen inconspurcado,
o fruto, o dia, a delirante
lua vermelha.
.
Vindes na simples harmonia da fome
e da mesa
com vossos gestos sexuais de uma graça infantil,
com vosso puro impudor
e a generosidade ingénua
do pecado.
.
Eu canto as vossas coxas verdes, o antigo
turbilhonar do instinto
que castamente transportais como um depósito
no sacrário do sexo,
canto o vosso ventre diurno,
a infinita inocência da vossa entrega
milagrosa.
.
Humildemente teço minhas palavras gratas
sobre a bela ferocidade
da vossa carne, ergo minha taça,
oiço o rumorejar oculto da fonte.
Humildemente dissipo a solidão, aceito vosso apelo de esperma,
mereço a poesia.
.
Humildemente repudio a morte
A Colher na Boca
Assírio & Alvim, 1961

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

POESIA PORTUGUESA ERÓTICA E SATÍRICA - #4


ANTÓNIO LEITÃO

Nasceu em Manteigas em 1932. Em 1956 concluiu o curso teológico no seminário do Patriarcado de Lisboa.
A sua origem serrana e a sua formação religiosa são os dois pólos que marcam as suas tendências literárias e lhe dão uma índole neo-romântica, por vezes tocando o misticismo marcado pela contradição entre um Deus infinitamente perfeito e uma humanidade infinitamente imperfeita, embora alegadamente feita à Sua imagem e semelhança.
Dotado de grande sensibilidade estética e humana, desejando intervir num mundo repulsivo povoado por falta de amor e egoísmo, a sua frustração exprime-se por uma ironia ácida que por vezes atinge o sarcasmo mais amargo.
Nascido poeta, escritor, compositor e maestro, a sua obra escrita é multifacetada e está bem representada nos 17 livros publicados, de prosa e de poemas, quase todos esgotados. Entre eles destacam-se “Conta Discorrente” (textos), “Breviário de Sol Denso” (textos), “Breviário de Sol Gris” (textos), “B. I. Vitalício” (poemas), “Chuva-Cântico-Esperança” (poemas), “Esta Voz que Anda Comigo” (poemas), “Não Será como Parede” (crónicas).
.
.
A RENOVAÇÃO DO MUNDO
---(inédito)

Música, maestro!
Música, gulosos!
Poisa na esplanada
cio da cidade!
.
Chegam namorados,
sentam na cadeira
dor de sexo vivo
longe do seu auge;
.
pesa sobre a música
céu de noite cálida;
serve a dor do sexo,
chumbo a refundir.
.
Chumbo que é limalha
chumbo que é varão
chumbo receptáculo
côncavo-estuante.
.
Cio da cidade:
moscas remeladas
sobre a torpe, mole
besta de delíquios
.
longe do seu auge.
Música, maestro!
solta na esplanada,
claro, o som da banda!
.
Céu de noite cálida.
Música, gulosos!
pisa-me no sangue
livre o concentrado
.
seu fulgor de pura.
Música, maestro
varre da esplanada
cio da cidade!
.
Mulheres com flores
(as flores dão fruto)
mulheres num choque
de curto-circuito.
.
Negócio, negócio
com sexo na montra:
nas casa do ócio
o amor não se encontra
.
mulheres com seios
de polpa madura:
são carne, são leite,
primeira fartura?
.
Quem chupa morangos
mordendo mamilos
tem lebres nos olhos,
nos dedos esquilos
.
Negócio, negócio
com sexo na montra:
nas casas do ócio
o amor não se encontra.
.
Mulheres de carne,
mulheres de plástico,
mulheres de cera,
de gesso, de elástico,
.
mulheres vividas,
deitadas, de joelhos,
dançando, chorando,
comendo os espelhos
.
quebrados na pedra
da rua que é nua,
mulheres de pedra
doiradas de lua,
.
mulheres de sonho,
fronteiras-quimera,
mulheres-pureza
de haver primavera,
.
Negócio, negócio
com sexo na montra:
nas casas do ócio
o amor não se encontra.
.
Um anjo lá vem
violando o céu fundo:
mulheres prenhadas
renovam o mundo!
---------Guarda, 1971

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

POESIA PORTUGUESA ERÓTICA E SATÍRICA - #3


MARIA TERESA DE MASCARENHAS HORTA

Nasceu em Lisboa a 20 de Maio de 1937.
Frequentou a Faculdade de Letras, entrou no jornalismo e trabalhou e colaborou em jornais como A Capital, Diário de Lisboa, República, Século, Diário Popular, Expresso, Diário e na revista Mulheres. Ligada ao movimento de renovação da poesia portuguesa dos anos 60, pertenceu ao grupo Poesia 61.

A sua poesia derrubou os últimos tabus do erotismo encarado do ponto de vista feminino, sem fugas nem retóricas parabólicas, mas sempre com deslumbre activo que a faz renunciar a eufemismos para poetisar o sexo e o acto sexual.
Assumidamente feminista, dedicou grande parte da vida à luta das mulheres. Respondeu em tribunal, num processo de grande polémica, pela publicação do livro "Novas Cartas Portuguesas" (1972), de que é co-autora com Maria Isabel Barreno e Maria Velho da Costa.


POEMA DE INSUBORDINAÇÃO

Preto
sem submissão
palavra de relevo agudo
nas ruas

Preto
de água de vento de pássaro
de pénis
de agudamente preto
de demasiado

como um cardo submerso de
som

Preto de saliva na ogiva
dos lábios

Objectos solares
quente interiores marítimos
curvos inseguros
preto

o tempo dos desertos
facetados na boca

lento
por dentro das pedras

a suporar de luz

Preto
em perpendicular
aos ombros das janelas

jamais sinónimo
de noite e nunca mole
em diagonal aos dedos

dedos habitados
pelo útero

dedos rasgados onde o
preto
começa

Húmido

Latejante

Entumescido branco
Preto
sòmente numa praça
a vagina da erva

Da ironia da viagem
do espelho do cuidado
no perder exacto
do Inverno sem seios
sem sombra

Preto
de apertar na mão
e introduzir no sexo

Monge de sedução
a deslizar nos olhos
monge
de planície de pranto
de perante o dia

Preto
anca demasiada na lâmpada

de Ciúme

Preto
oceano

Preto clínico

Preto
missão de apenas a sensação
no vácuo

apenas desequilíbrio
dos cornos das cidades
dos cornos rosados dos
gladíolos abertos

“Tatuagem”, Poesia 61, 1961

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

POESIA PORTUGUESA ERÓTICA E SATÍRICA - #2

JOSÉ CARLOS ARY DOS SANTOS (Lisboa, 1937 – Lisboa, 1984)

É um poeta particularmente hábil no jogo verbal e na sátira individual. Usa com destreza a musicalidade das palavras, construindo uma retórica satirizante, colocando-se com frequência para além do formalismo mas sempre com frescura e originalidade.

LOUVOR
Em louvor e simplificação de
Mário de Cesariny de Vasconcelos

Por quê Mário?
Por quê Cesariny?
Por quê – ó meu Deus, de Vasconcelos?
Não sabes que um polícia de costumes é o agente interino
da moral dos vitelos?

Alarga Mário alarga pássara do canto
e verás que a ilharga da imagem
o deus da vadiagem
fará de ti um santo.

Meu santo minha santa
Filomena tirada dos altares
quando a alma dos outros é pequena
melhor é ir a ares.

Areja Mário a pluma que sobeja
ao teu surrealismo
antes o ar de Londres que o de Beja
antes a bruma do que o sinapismo.

Fornica meu poeta
sem a arnica
dos padrecas da terra.
Antes em Telavive que o tal estar
Aqui
De cu pró ar
A ver quem nos enterra.

A fundo Mário se quiseres
baratinar os chuis.
Nem vinho já sabemos nem mulheres
mas os c*lh*** de teres
os três olhos azuis.

"Antologia de Poesia PortuguesaErótica e Satírica"
"(dos Cancioneiros Medievais à Actualidade)
Selecção, Prefácio e Notas de Natália Correia
F. A. Edições S. A. - Rio de Janeiro, 1965
.
.
A MÁQUINA FOTOGRÁFICA

É na câmara escura dos teus olhos
que se revela a água

água imagem
água nítida e fixa
água paisagem
boa nariz cabelos e cintura
terra sem nome
rosto sem figura
água móvel nos rios
parada nos retratos
água escorrida e pura
água viagem trânsito hiato.

Chego de longe. Venho em férias. Estou cansado.
Já suei o suor de oito séculos de mar
o tempo de onze meses de ordenado;
por isso, meu amor, viajo a nado
não por ser português mal empregado
mas por sofrer dos pés
e estar desidratado.

Chego. Mudo de fato. Calço a idade
que melhor quadra à minha solidão
e saio a procurar-te na cidade
contrastada violenta negativa
tu única sombra murmurada
única rua mal iluminada
única imagem desfocada e viva.

Moras aonde eu sei.
É na distância
onde chego de táxi.
Sou turista
com trinta e seis hipóteses no rolo;
venho ao teu miradoiro ver a vista
trago a minha tristeza a tiracolo.

Enquadro-te regulo-te disparo-te
revelo-te retoco-te repito-te
compro um frasco de tédio e um aparo
nas tuas costas ponho uma estampilha
e escrevo aos meus amigos que estão longe
charmant pays
------------------the sun is shining
-------------------------------------love.

Emendo-te rasuro-te preencho-te
assino-te destino-te comando-te
és o lugar concreto onde procuro
a noite de passagem o abrigo seguro
a hora de acordar que se diz ao porteiro
o tempo que não segue o tempo em que não duro
senão um dia inteiro.

Invento-te desbravo-te desvendo-te
surges letra por letra, película sonora,
do sendo à vogal do tema à consoante
sem presença no espaço sem diferença na hora.
És a rota da Índia o sarcasmo do vento
a cãibra do gajeiro o erro do sextante
o acaso a maré o mapa a descoberta
dum novo continente itinerante.

"Obra Poética"
Lisboa, Edições Avante, 1994

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

POESIA PORTUGUESA ERÓTICA E SATÍRICA - #1

DÓRDIO GUIMARÃES (Porto 1938 - Lisboa 1997)

Nos seus poemas reverberam cintilações que o tornam inconfundível e lhe contornam um pecúlio de singular destaque na sua geração.
O desejo carnal ora é convertido no êxtase espiritual da contemplação, ora é acto puramente contemplativo que aspira a consumar-se no vértice da sensualidade
.

DIAMOR I

É de cravo. Toque de pétala em minha boca
a tua língua redonda. Talo cálido
macio de ponta subtil de tamanho.
Olhos para cima ardendo incessante de cabelos
girassóis gémeos maduros no corpo do meio.
Punhal de luz de permeio
e no cabo de lâmina a pérola do umbigo
algas escorrendo ausência de Tejo nos dedos.
Cabo do mundo dos meus fascínios
dos meus delírios bem fundo que digo?
E o lugar dos joelhos hangares paralelos
insuspeitos de viagens rotuladas.
Ó gulas que as zonas do apetite jogam os dados
com pazes e êxtases estudados.

Outrora disseste rei terei
Ó se minha arte tal fosse
porque leal e amor sou
homoalma inscrever-te no cosmos.
Minha mulher. O teu sexo de colher.
De saber torrencialmente minha.

Beber-te moderno sumo do fruto.
Abundante por espasmos
de enorme segredos menstruados.
Sorver a plenos pulmões teu hálito mais secreto.
Esvair-me de concreto.
Ajoelho-me semeador ante a ternura
do cálice por ti aberto.
Desfoca ao longe a bebida.
de já não vê-la de tão perto …
E o talhe dos teus rins muita de Florença.

Pés de mármore de si rotativos a Sirius.
Ventre que em movimentos flutua.
Fartura de lua.
Nádegas porcelares, carnagens lótus.
Aprumo de haste bambu ao Sol e a Marte.
Sexo de mim cação em teu sexo tubarão …
e o teu clito perdoa que não aparece!

Ó dor! Eis-te amor. Meu amor.
Nem Vénus. Nem de Cnido nem de Milo.
Muito branca muito morena e quente.
Muito querida e nua viva de frente.

DIAMOR II

É nesta indecisão de folhas caindo caindo
decisão de altas artes plantas plantas
a boca me ardendo nas tuas mamas tantas
soltando-se em alces fugindo fugindo

As horas sendo em nossos cabelos.
Uma a uma. Uma um. Do tempo a Tagus.
Meus olhos égides tristezas minhas
que as não desejo aos relâmpagos.

Aqui a solução é não sabermos nadar
me chamas irmã dos espaços morenos.
Entre ondas de carne e unhas seremos
medo, cisma, orgasmo de podermos voar.