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sexta-feira, 4 de julho de 2008

Emídio Santana nasceu há 102 anos


Emídio Santana (Lisboa, 4 de Julho de 1906 — Lisboa, 16 de Outubro de 1988) foi um dos mais importantes militantes portugueses do anarco-sindicalismo. Foi autor de diversos artigos e ensaios sobre o anarco-sindicalismo e o mutualismo.

Biografia

Emídio Santana militou nas Juventudes Sindicalistas e foi membro do Sindicato Nacional dos Metalúrgicos, filiado na antiga Confederação Geral do Trabalho (CGT) portuguesa.

No seguimento do golpe militar fascista de 28 de Maio de 1926, desenvolveu uma actividade de resistência contra a ditadura e actividade sindical clandestina.

Em 1936, representou a CGT portuguesa no congresso da Confederación Nacional del Trabajo de Espanha.

Em 4 de Julho de 1937 foi um dos autores do atentado a Salazar quando este se deslocava à capela particular do seu amigo Josué Trocado, na Avenida Barbosa du Bocage, em Lisboa, para assistir à missa. Na sequência do atentado, Emídio Santana é procurado pela PIDE e foge para o Reino Unido, onde a polícia inglesa o prende e envia para Portugal onde é condenado a 16 anos de prisão.

A partir do fim da ditadura (1974), Emídio Santana retoma a vida militante activa, nomeadamente como director do jornal A Batalha.

Em 1985, Emídio Santana escreveu Memórias de um militante anarco-sindicalista, livro onde recorda momentos importantes da sua vida de militância política.

Emídio Santana nasceu a 4 de Julho de 1906. Dirigente anarco-sindicalista na meia-noite do século XX português, resistiu à vitória do Estado Novo e à instalação da ditadura que sufocaria o país durante décadas. Jogou tudo contra Salazar: no dia dos seus 31 anos, participou no único atentado contra o tirano. Cumpriu 16 anos de prisão. Artigo de Jorge Costa.

Relatada nas suas Memórias, a primeira impressão política de Emídio Santana é a greve ferroviária de Junho de 1919. Para evitar as sabotagens das linhas, o ministro Sá Cardoso manda atrelar vagões abertos à frente dos comboios, tripulados por militares, cheios de grevistas presos. O caso corre o país nas páginas d'A Batalha, o jornal da CGT anarco-sindicalista. O mundo do trabalho no Portugal dos anos 20 é dominado pela violência de classe: o ‘trabalho certo' é privilégio de poucos; em alguns sectores, a jornada de trabalho quase duplica as oito horas legais; noutros, as crianças ocupam até um quarto da mão-de-obra; a esmagadora maioria dos trabalhadores não está abrangido por qualquer sistema de previdência. O anarco-sindicalismo é, desde os alvores da República, a força hegemónica na classe trabalhadora, muito vinculado a sectores profissionais de pequena indústria e serviços, com fortes estruturas sindicais e um imponente sistema de imprensa. A Batalha é dos diários mais lidos da capital.

Aos quinze anos, Emídio Santana inscreve-se no sindicato dos metalúrgicos como aprendiz de carpinteiro de moldes, mais tarde desenhador. Torna-se secretário de propaganda das Juventudes Sindicalistas e membro da CGT. A golpes de polícia, a ditadura militar vai preparando a proibição dos sindicatos livres. Santana conhece a sua primeira prisão (sete meses) logo em 1928, com a ilegalização da CGT na sequência das revoltas democráticas de 1927. Sucedem-se os ataques a instalações e jornais operários. Pouco depois da constituição da Federação Anarquista da Região Portuguesa, Santana é de novo preso e deportado para os Açores, de Fevereiro de 1932 a Agosto de 1934. No seu regresso, o panorama sindical é desolador: ocorrera entretanto o 18 de Janeiro, a última afirmação insurreccional do movimento operário português, e o seu fracasso consuma uma derrota duradoura da oposição operária, com o envio para o campo da morte do Tarrafal de muitos dirigentes sindicalistas, entre os quais o líder anarquista Mário Castelhano e o secretário-geral do PCP, Bento Gonçalves, que ali morrerão. Este é o tempo da formação do PCP como dissidência do anarquismo, uma especificidade nacional face à maioria dos partidos comunistas europeus, saídos da tradição socialista. Pelo seu lado, o anarco-sindicalismo resiste mal à repressão. O seu assembleismo e a horizontalidade federal não se compadecem como secretismo e a compartimentação a que a clandestinidade obriga e a que a disciplina comunista se adapta melhor.

Portugal vive as campanhas de ódio anti-comunista, com sermões na igreja e na rádio. Com o triunfo da Frente Popular nas eleições espanholas de Fevereiro de 1936 e com o pronunciamento militar de Franco, começa a "guerra civil europeia em território espanhol", como lhe chamou o historiador E.H. Carr. Emídio Santana é enviado ao congresso da CNT, o gigante anarco-sindicalista do país vizinho. Ao mesmo tempo que o conflito se adensa em Espanha, torna-se evidente o papel desempenhado por Salazar: em Outubro, Portugal rompe relações com a República espanhola. Enquanto Hitler e Mussolini se empenham com homens, aviões e artilharia, Portugal oferece a preciosa fronteira. A raia torna-se zona de passagem discreta de armamento para os franquistas, enquanto o não-intervencionismo das democracias europeias fecha os olhos. Republicanos em fuga são perseguidos pela GNR e dados à morte aos sediciosos de Franco. O salazarismo é um pulmão logístico e diplomático do fascismo em Espanha.

Em 1937, depois de uma ronda de atentados em Lisboa contra centros de colaboração com o franquismo, Emídio Santana está no centro da preparação do tiranicídio. A figura de Salazar há muito que se afirmou como o elemento central da ditadura, cujos contornos totalitários são cada vez mais evidentes. Contra o ditador, planeiam para Lisboa um acto da guerra civil europeia que abre caminho à guerra mundial: "se Salazar se sentia autorizado a comprometer o país no conflito espanhol, nós, cidadãos portugueses, na legitimidade dos nossos direitos, tínhamos o dever de opor-nos à vilania da agressão e preferimos a lealdade e a solidariedade", in Memórias). A 4 de Julho, há 69 anos, a avenida Barbosa do Bocage estremece com a explosão de uma bomba. Uma enorme cratera abre-se junto ao carro de Salazar, que no entanto escapa ileso. Um erro de posicionamento do petardo desviou a onda de choque e deitou a perder o atentado.

Hitler envia um telegrama felicitando Salazar pelo seu feliz salvamento. As polícias realizam prisões a esmo, torturas e anúncios de sucessos forjados. Em poucos meses, vários inocentes perdem a vida, pela violência ou pelo suicídio. Para ajudar, Mussolini envia uma delegação da sua polícia política. Emídio Santana será preso só em Outubro, em Inglaterra, ao tentar o exílio, e entregue à PVDE de Salazar. Seguir-se-ão 16 anos de prisão. Nas suas Memórias, conta como travou, "nos armazéns do Código Penal", a mais singela das lutas contra a repressão: "sobreviver e ajudar os outros a sobreviver". E como aceitou o convite - não pouco melindroso para um libertário -, para projectar os melhoramentos da cadeia onde está preso, em Coimbra, substituindo a indigna ala das mulheres, traçando o refeitório antes inexistente.

À saída da prisão, Emídio Santana encontra uma sociedade que mudou profundamente e onde o próprio tecido industrial já não corresponde à estrutura de classe e à cultura política em que o anarco-sindicalismo germinou. O meio libertário está desarticulado e, com os prenúncios do marcelismo, Santana colabora com círculos católicos progressistas e democráticos (intervenções em comícios da CEUD e da CDE, em 1969). Com o 25 de Abril, participa na "apoteose de emoção colectiva". A referência libertária de Maio de 68 leva alguns jovens ao grupo que volta a publicar A Batalha: "comentaram, criticaram e ridicularizaram tudo numa literatura mural impressionante". Estes jovens "assumiam todas as rebeldias, sacudiam todos os jugos, mas também todas as obrigações. Criava-se um vácuo entre gerações". A tradição libertária no movimento popular estava interrompida. Até à sua morte, em 1986, Emídio Santana nunca cessou de colaborar n'A Batalha e de debater a história do movimento operário português e da resistência anti-fascista.

Nas suas ‘Memórias de um militante anarco-sindicalista', garante que, mesmo nos períodos mais adversos da sua vida, não perdeu "o sentido do contributo que todos devemos ao futuro". A esquerda que hoje enfrenta a regressão nos direitos civis - desde logo sindicais - e as sombras totalitárias das novas guerras imperiais, não pode esquecer a homenagem que deve à vida de de Emídio Santana. (In Esquerda.net)

Obras

  • Prefácio e anotações a Sousa, Manuel Joaquim de. O sindicalismo em Portugal. Porto, Afrontamento, 1974.
  • História de um atentado: o atentado a Salazar. Mem Martins, Forum, 1976.
  • Memórias de um militante anarco-sindicalista: tempos de luta de adversidade e de esperança. Lisboa, Perspectivas & Realidades, 1987.
  • Onde o homem acaba e a maldição começa: crónicas do mundo dos ex-homens. Lisboa, Assírio e Alvim, 1989.

sábado, 26 de abril de 2008

OS ANARQUISTAS NO 25 DE ABRIL

Manifestação anarquista desfila sem incidentes pela Baixa

Barulhentos mas pacíficos, apesar de alguns parecerem vestidos para um motim, cerca de duzentos manifestantes marcharam ontem entre a Praça da Figueira e o Terreiro do Paço, em Lisboa, em protesto contra o autoritarismo e a repressão policial.

Num dia em que a Baixa foi dominada pelo desfile do 25 de Abril, a manifestação convocada através do blogue «Contra o Capital» decorreu sob vigilância policial discreta, com cerca de dez agentes, alguns dos quais vestidos à civil, que tiraram fotografias aos manifestantes.

A concentração saiu da Praça da Figueira, passou pelo Largo de São Domingos e fez-se notar ao entrar no Rossio, com os tambores, buzinas e coros a inquietarem os membros da Associação 25 de Abril, que fazia naquela altura as suas intervenções num palco montado frente ao Teatro Nacional Dona Maria II.

«Vieram provocar uma manifestação organizada e a polícia sem fazer nada. Eu já fiz um 25 de Abril, agora tenho que fazer outro?», queixou-se um dos elementos da associação, que preferiu não se identificar.

«O Povo unido não precisa de partido» foi uma das palavras de ordem dos manifestantes, a maioria vestidos de negro, botas, com lenços e máscaras a tapar a cara, com afinidades anarquistas, como demonstravam as bandeiras negras, algumas com caveiras e ossos, e o «A» em grafia anarquista que decorava mochilas, camisolas e uma das faixas na frente da manifestação.

A passagem pelo Rossio fez-se sem novidade e os manifestantes anti-repressão saíam da praça rumo à rua Augusta quando soava «Grândola, Vila Morena» no sistema de som da Associação 25 de Abril.

Mas a música da manifestação era outra, pontuada por tambores, megafones e até sirenes policiais e várias palavras de ordem, algumas mais incendiárias - «Hoje és polícia, antes eras homem» - na passagem pela Rua Augusta, interrompida a espaços para evitar as esplanadas e o «homem-estátua» que actuava no meio da via, e que se desviou diligentemente, recebendo aplausos.

Recados à extrema-direita - «Nazis, fascistas, chegou a vossa hora! Os imigrantes ficam e vocês vão embora!» - e contra o capitalismo, o Estado pontuaram também no percurso dos manifestantes.

Entre os manifestantes, ninguém se manifestou disponível para declarações e até os leitores de dois «comunicados» - um no início, outro no fim - foram escudados por vários manifestantes para evitar que fossem abordados, gravados ou fotografados.

«Chibos infames» e «Sangue nas ruas» foram algumas das expressões que se perceberam por entre o discurso abafado, que prometia: «continuamos e continuaremos nas ruas».

No corpo da manifestação, algumas pessoas distribuíam panfletos, um da federação anarco-sindicalista Associação Internacional dos Trabalhadores, lamentando a «repressão sobre as lutas sociais», e outro com «dicas para lidar com a repressão policial», cuja regra número um é «utilizar sempre o bom senso e não entrar em pânico».

A manifestação de hoje decorreu precisamente um ano depois de conflitos entre polícia e manifestantes junto à antiga sede da PIDE, no Chiado.

Lusa/SOL