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domingo, 12 de abril de 2009

Entrevista com Francisco Fadul


"ONU devia fazer da Guiné protectorado por dez anos"

por C DAVID BORGESHoje

Francisco Fadul foi, na Guiné-Bissau e num dado momento, uma figura de esperança. Acabada a guerra que se seguiu ao 7 de Junho de 1998, liderou um governo de salvação e projectou-se então uma ideia de futuro para o país, que parecia pronto para se levantar do chão. Porém, rupturas consecutivas e de todo o tipo, num ambiente de desvario e de violência, levaram a Guiné-Bissau para a beira do abismo. Fadul falou com o DN em Lisboa, onde está a recuperar após ter sido agredido por militares na sua casa em Bissau.


O que é que correu mal depois de 1998?

Ficou activa muita gente do tempo antigo e as eleições levaram Kumba Ialá e o seu partido, o PRS, ao poder.

De forma legítima…

A legitimação vem do voto popular e do que se faz com esse voto.

Então o problema resulta não das eleições mas da prática do poder…

Há um jogo diabólico no exercício do poder mas antes disso há o que posso chamar de "corrupção eleitoral".

Que é?

O condicionamento de uma população muito pobre, através de ofertas directas ou dos chamados "homens grandes", que são autoridades tradicionais ou religiosas com muito poder nas comunidades.

Dito assim, parece não haver solução para o país...

A solução existe, se a parte guineense tiver espírito de serviço e a comunidade Internacional actuar contra a má governação, a corrupção e o atropelo dos direitos humanos.

Como?

Fazendo da Guiné-Bissau um protectorado, como aconteceu com Timor-Leste, pondo a funcionar, num prazo de, por exemplo, dez anos, o Estado guineense.

E os guineenses aceitam?

Os que se aproveitam da actual situação, não. O povo, que ao fim de dois meses começaria a ver sinais de regeneração, sim.

E a CPLP?

Cheguei a sugerir um pacto de defesa, no âmbito da CPLP, quando, como primeiro-ministro, falei com o meu homólogo português de então, António Guterres.

Porque não pede a Guiné-Bissau essa ajuda externa?

Porque o país está sequestrado por poderes complementares e coniventes, com uma lógica de salve-se quem puder e quem tem a mão na massa já está salvo…

O que é a Guiné-Bissau hoje? Um Estado falhado? Um narco-Estado? Um país com rupturas étnicas?

É tudo isso. O Estado, ao falhar, abriu brechas e o tráfico entrou e instalou-se. E há sinais preocupantes de divisão étnica, por acção oportunista de políticos. Já Amílcar Cabral dizia queum político oportunista, é um tribalista…

Há quem negue a ideia de um narco-Estado.

Há episódios conhecidos e quem é que não sabe que o tráfico está instalado no arquipélago dos Bijagós? Estão lá as bases…

E quem garante essa instalação do tráfico na Guiné-Bissau?

O poder militar é que tem as armas e escapa à regulação de um poder civil, que não actua.

A morte do presidente Nino Vieira e do general Tagme Na Waie mudou alguma coisa?

O mal nunca construiu o bem e o crime jamais criou a paz. Há na Guiné-Bissau uma espécie de poder paralelo, que se congela ou descongela de acordo com os seus próprios interesses. Quando descongela actua de forma bárbara, como se viu comigo, como se viu com outros…

Sempre sem explicações e sem culpados?

Nunca há explicações e não quero crer que não se consiga chegar aos culpados.

Mas há indicações, pelo menos, de estarem identificados os autores da morte do presidente Nino e do general Tagme. ..

Mas quem mandou matar os dois? Esta é a pergunta central e o país quer saber.

O novo chefe do Estado Maior General das Forças Armadas guineenses, Zamora Induta, explicou que o presidente mandou matar Tagme e que forças leais a este retaliaram matando o presidente…

Disse-o logo a seguir a estas duas mortes, revelando grande poder de adivinhação….

Não admite que seja verdade?

O cenário foi o de um golpe de Estado. De onde surgiram Zamora Induta e o seu poder? O substituto natural do general Tagme Na Waie era o chefe do Estado Maior do Exército. Mas quem aparece é Zamora Induta, que logo garante a segurança do primeiro-ministro [Carlos Gomes Júnior] mas não a do Presidente...

Sugere uma ligação golpista entre o primeiro-ministro, Carlos Gomes Júnior, e Zamora Induta?

Eram ambos inimigos do presidente...E Zamora Induta torna-se imediatamente interlocutor do governo. Terá sido porque o primeiro-ministro lhe ofereceu um jipe? E porque é que lho ofereceu?

Não vai ter novos problemas quando regressar à Guiné-Bissau [de onde saiu para Lisboa após ter sido agredido em sua casa]?...

Não sou eu quem tem de justificar a legitimidade de situações que ocorreram e responder às questões que todos colocam. E quanto ao regresso, Deus fez-me nascer guineense e tenho de viver na minha terra…

In DN

segunda-feira, 2 de março de 2009

Portugal e a situação na Guiné-Bissau

O Governo português acaba de anunciar que está pronto a apoiar a Guiné-Bissau em tudo o que seja necessário para manter a”ordem pública” naquele país, sem que – ao que se saiba – as autoridades guineenses o tenham pedido. Simultaneamente, também foi anunciado que, a comunidade portuguesa residente em Bissau, não esteve envolvida nem foi afectada pelos acontecimentos que levaram aos assassinatos do Chefe do Estado Maior das Forças Armadas e do Presidente da República. O primeiro, através de uma atentado à bomba, pelas 20H00 de ontem e, o segundo, pelas 4 horas da madrugada de hoje, quando a residência de Nino Vieira foi atacada por forças do exército guineense.

Sabendo-se que ainda nenhuma organização internacional – da Organização de Unidade Africana, à ONU, passando pela CPLP – ainda não levantou essa hipótese, estranha-se o voluntarismo do governo português.

Nesse comunicado, o Governo português indica que vai convocar nas próximas horas uma reunião de emergência da Comunidade Portuguesa de Língua Portuguesa (CPLP) para debater os acontecimentos na Guiné-Bissau.

Também esta “convocação” nos parece estranha, na medida em que o Secretário-Geral da CPLP já se pronunciou sobre a questão, como, oportunamente foi publicado neste blogue.

Entretanto, notei que Antoni – veterano autor de O Cacimbo – acrescentou ao meu comentário a ideia de que ninguém lhe prestaria atenção, salvo se fosse publicado como post. Pois bem, aqui fica:

Bloggerzigoto disse...

Mais do que uma surpresa, a morte de Nino Vieira faz-me lembrar a "Crónica de uma morte anunciada".
Embora, após a independência, Nino Vieira tenha assumido a presidência da República, era um militar (e não um político) que comandou no terreno a guerrilha do PAIGC como, aliás, aconteceu noutros países africanos, designadamente em Moçambique aonde Samora Machel teve o mesmo percurso.
A instabilidade política e a violência têm sido uma constante naquele país, onde existem oito etnias e diversos credos religiosos.
Nos últimos anos, a Guiné-Bissau tornou-se uma placa giratória do tráfico de droga, o que veio acrescentar mais problemas graves aos que já existiam.
Tudo isto criou condições que faziam prever os acontecimentos desta madrugada em Bissau.
Acresce que o sobre-dimensionado exército guineense tem relações estreitas - que já vêm da luta pela independência - com os militares da vizinha Guiné Conakry e, neste país, reina actualmente uma junta militar.
O futuro próximo da Guiné-Bissau é uma incógnita mas não me surpreenderia que seguisse o mesmo caminho.
Em África - ao contrário do que acontece na Europa - as Forças Armadas não se subordinam ao poder político: ou o partilham ou o exercem ditatorialmente.
Em breve se saberá qual o desenlace de mais esta crise - que tanto pode passar por mais uma guerra civil como pela tomada pura e simples do Poder pelos militares que mataram o presidente e o chefe do Estado-Maior.

2 de Março de 2009 13:39
Do autor e companheiro deste blogue Antoni 115, recebi a seguinte sugestão a este comentário:
Li com muita atenção o comentário acima e parece-me uma visao realista do que se passa na Guiné...
Em vez de um comentário "escondido", que talvez poucos leiam, parece-me que deveria "ter honras" de Post..
Pensa nisso, caro Zigoto...

2 de Março de 2009 22:10

Resta-me acrescentar que a ideia peregrina de prestar auxílio para manter a ordem pública (leia-se enviar tropa para o território, à revelia das instâncias internacionais competentes para o efeito, e acima referidas) me parece um completo disparate, bazófia ou pretensão de um governo que ainda não percebeu o seguinte: a Guiné-Bissau, pese a situação caótica em que se encontra, já não é uma colónia portuguesa. É um Estado soberano. As questões que afectam a comunidade dos países de língua portuguesa devem ser tratados pela CPLP . O Direito Internacional deve ser respeitado e, quando necessário, arbitrado pelo conselho de Segurança da ONU. Por tudo isso, a que título surge esta patética declaração de intenções do governo português? Neste caso, e até como Comandante Supremo das Forças Armadas, espera-se que o Presidente Cavaco Silva clarifique e corrija afirmações avulsas e gratuitas como as que têm vindo a público nas últimas horas.

Para completar a súmula do que O Cacimbo tem publicado, a posição da CPLP é, por enquanto, a seguinte:

Reacção da CPLP à situação na Guiné-Bissau

Lisboa, 02 Mar (Lusa) - O secretário-geral da CPLP (Comunidade dos Países de Língua Portuguesa), Domingos Simões Pereira, considerou hoje "infelizes" e "graves" os últimos acontecimentos na Guiné Bissau, que disse não o terem surpreendido, face ao que recentemente viu no país.

"Não deixa de ser infeliz mais este registo verdadeiramente grave para a situação da Guiné-Bissau", disse à Lusa Domingos Simões Pereira, reagindo ao atentado à bomba que vitimou o chefe de Estado-Maior General das Forças Armadas da Guiné-Bissau, general Tagmé Na Waié, e ao ataque à residência do Presidente guineense, Nino Vieira.

Domingos Simões Pereira recordou que recentemente esteve no país para aferir junto das autoridades as condições de segurança em que viviam as diversas entidades.

O secretário-geral da CPLP referiu ainda que se vive no país uma "situação difícil" que vem desde o último atentado a casa do presidente, em 23 de Novembro.

Domingos Simões Pereira referiu ainda que a Guiné-Bissau continua a viver um momento de "fragilidade" que vai merecer o acompanhamento da situação.