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sábado, 28 de março de 2009

A LANCET QUER QUE O PAPA SE RETRACTE DAS DECLARAÇÕES SOBRE O PRESERVATIVO

Imagem da campanha alemã: «O esquecimento é contagioso».
Clique na imagem para ampliar.
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Mais um comentário sobre as polémicas declarações do Papa sobre o uso do preservativo. O que motiva o meu regresso ao assunto é o artigo publicado ontem na revista «Lancet» sobre o mesmo tema.
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É necessário lembrar, para que regressar ao mesmo assunto não pareça insistência especulativa , que as declarações do Papa sobre o preservativo não resumem toda a sua viagem a África. Houve outras declarações importantes como as exortações de luta dos angolanos contra a corrupção, contra a descriminação de género no trabalho e no salário (esta também é aplicável a quase todos os países europeus), contra os abusos do poder e a favor de igualdade de oportunidades e de generalização do saber e da escolaridade, para mencionar apenas estes exemplos. Mas estas declarações não são polémicas.
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A novidade, neste momento, é o artigo que a revista «Lancet» dedica ao mesmo assunto. A revista britânica «Lancet», uma das mais conceituadas publicações médicas do mundo, exigiu que Bento XVI se retracte das polémicas declarações proferidas durante a visita que fez a África na semana passada sobre o uso do preservativo na luta contra a SIDA (Síndrome da Imunodeficiência Adquirida).
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A «Lancet» acusa o Papa de ter distorcido «publicamente os dados científicos com o propósito de promover a doutrina da Igreja sobre este assunto» [...]. «Não é claro se o erro do Papa se deveu à ignorância ou a uma tentativa deliberada de manipular a ciência para apoiar a ideologia católica», lê-se na prestigiada revista, que acusou ainda o Vaticano de ter «alterado ainda mais a verdade» quando referiu as declarações de Bento XVI. «Quando uma pessoa com tal influência, seja uma figura religiosa ou política, faz uma declaração científica falsa que pode ter consequências devastadoras, deve retractar-se ou corrigir publicamente aquilo que foi dito. Menos do que isso vindo do Papa seria um péssimo serviço ao público».
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Note-se que, segundo informação recente veiculada pelos meios de comunicação social, o Vaticano teria pedido um estudo sobre o uso do preservativo para prevenir infecções pelo VIH (Vírus da Imunodeficiência Humana) pouco depois de Bento XVI ter assumido a sua actual posição de líder da Igreja Católica. O estudo foi terminado e entregue em dois meses, mas as conclusões nunca foram divulgadas porque seriam contrárias à «doutrina» oficial da Igreja.
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Ao iniciar a visita ao continente africano, Bento XVI afirmou que «a tragédia [da SIDA] não pode ser vencida apenas com dinheiro, nem pode ser vencida com a distribuição de preservativos que podem até aumentar o problema».
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A SIDA já causou 25 milhões de mortos em todo o mundo. Cerca de 33 milhões vivem actualmente infectados e, apesar de a esperança de vida ter aumentado com a medicação mais recente, não há perspectiva de cura em futuro próximo. De acordo com o programa da ONU sobre a SIDA, o UNAIDS, só em 2007 foram infectados 1,7 milhões e pessoas na África subsariana, onde vivem com VIH mais de 22 milhões de pessoas.
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Por cá, o grupo de risco é constituído por todos os jovens e os homens com mais de 55 anos de idade, pois é nestes dois grupos etários que as estatísticas indicam maiores aumentos de novos infectados.
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Os formadores que percorrem as escolas até ao nível do ensino secundário para fazer palestras sobre a prevenção e defesa contra a SIDA constatam que, dez anos depois da primeira palestra, as dúvidas continuam as mesmas. Em grande parte, tal não deve causar estranheza dado que a população escolar se renova constantemente: cada geração é substituída por outra, mais jovem, porque é essa a própria essência e razão de ser das escolas.
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Mas há um outro aspecto preocupante: num país onde a educação sexual ainda não chegou a todos, os jovens ainda perguntam "como se transmite o vírus".
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No anfiteatro da Escola Secundária de Vila Nova de Santo André, perto de Sines, o ar despreocupado dos finalistas ali reunidos dá lugar a expressões de choque. Acabaram de ouvir que fazem parte do grupo etário de alto risco responsável por cerca de metade dos novos casos de infecção de VIH em Portugal. A informação apanha-os de surpresa e exprimem-na através de uma torrente de perguntas que se atropelam umas às outras: "Se for detectado no início pode ser tratado?"; "Como é que nos podemos proteger?"; “Onde é que podemos fazer um teste para saber se estamos infectados?".
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Os técnicos da associação Abraço têm uma colecção de perguntas que demonstra claramente que os procedimentos de defesa e prevenção estão longe de terem sido interiorizados pelos jovens, 10 anos depois de terem sido iniciadas estas visitas a escolas para informar a juventude contra os perigos de contágio pela SIDA. As perguntas "O que é que significa VIH?" e "Como se transmite o vírus?" são as mais frequentes, como no primeiro dia das visitas há dez anos. Perguntas difíceis de aceitar numa altura em que Portugal assinala precisamente 25 anos da detecção do primeiro caso de SIDA no país. "Ao contrário dos estudos e relatórios que vão sendo divulgados sobre o conhecimento desta matéria, todos os dias respondo às mesmas perguntas e dúvidas que respondia há dez anos", diz um dos técnicos.
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A experiência do técnico é confirmada pelas estatísticas que revelam um paradoxo aparente: a geração que nasceu num mundo com VIH, que tem acesso à Internet e a uma vasta informação sobre sexualidade e doenças sexualmente transmissíveis, é também uma das mais atingidas pelo vírus. E é também responsável por Portugal estar em segundo lugar na tabela dos países europeus com a maior taxa de mães adolescentes.
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"Acredito que se todas as escolas tivessem programas de educação sexual consistentes, a situação seria muito melhor", defende Duarte Vilar, director da Associação para o Planeamento da Família, que promove educação sexual há mais de 30 anos.»
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Contudo, as ideias fundamentais da mensagem anti-SIDA podem ser resumidas em frases curtas, facilmente assimiláveis. Vejamos o essencial dessas ideias que qualquer adulto pode passar para os jovens:
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O vírus da SIDA transmite-se através:
- de sangue infectado;
- de fluídos sexuais (esperma e fluidos vaginais);
- da via placentária (da grávida para o filho);
- do leite materno.
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Mais do que isto é inventar, mas menos é correr riscos.
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Os preservativos são muito efectivos a impedir o contágio por via sexual - SÓ OS PRESERVATIVOS CORRECTAMENTE USADOS PREVINEM A INFECÇÃO E NÃO OUTRAS COISAS.
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O sexo oral não está isento de riscos e não deve ser praticado com desconhecidos(as) em encontros casuais. Não é raro sermos portadores de aftas, infecções orais, infecções na laringe, amigdalites ou outros ferimentos, por insignificantes que sejam. Quantos de nós já não se magoaram, por exemplo, a lavar os dentes? Quantos de nós não mordeu a própria língua por acidente durante a mastigação de alimentos?
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O preservativo existe e deve ser usado EM TODOS OS TIPOS DE ACTOS SEXUAIS.
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As seringas e objectos cortantes NÃO SÃO PARA PARTILHAR. Como é óbvio, uma injecção com uma seringa previamente usada tem altíssima probabilidade de causar infecção. O mesmo se aplica a lâminas de barbear, agulhas de tatuagem (que devem ser descartáveis ou esterilizadas), aparelhos para fazer piercings, etc.
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A informação é fácil de conseguir através da internet, nas escolas ou através das instituições de saúde.
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COMO NÃO SE TRANSMITE O VÍRUS?
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NÃO SE CONTAGIA:
- através de beijos;
- através de suor ou lágrimas;
- através da picada de insectos (a SIDA não é a malária!!);
- através de contacto corporal (aperto de mão, abraço, carícias...);
- através da partilha de copos e talheres (desde que não se esfaqueiem mutuamente, claro);
- através do uso da mesma roupa, da mesma toalha, do mesmo sabonete, dos mesmos lençóis;
- através do uso do mesmo espaço (A SIDA NÃO SE TRANSMITE NO AR, POR ESPIRROS OU TOSSE);
- através da masturbação (SIM podem brincar à vontade sozinhos);
- através da preparação de alimentos (deixem que o vosso familiar ou amigo(a) seropositivo(a) vos prepare o jantar e não reajam como pessoas do Terceiro Mundo).
BBC News, Público,

A Fisga

O coordenador nacional para a infecção VIH/Sida, Henrique Barros, mostrou-se, este sábado, «muito feliz» com as declarações do bispo de Viseu sobre o uso do preservativo, por considerar que escolher aquele método é também optar «pela vida».

«Fico sinceramente muito feliz que responsáveis da Igreja apoiem e percebam que, entre a vida e a morte, o preservativo é uma barreira», afirmou o responsável, à margem da Conferência VIH Portugal 2009, que decorria desde sexta-feira no Centro Cultural de Belém.

Na página da diocese de Viseu na Internet, D. Ilídio Leandro defende que «quando a pessoa infectada não prescinde das relações e induz o parceiro (conhecedor ou não da doença) à relação, há obrigação moral» de usar preservativo.

«Aqui, o preservativo não somente é aconselhável como poderá ser eticamente obrigatório», afirma o bispo, alegando, no entanto, que o Papa tem defendido a sua doutrina e que é natural que não afirme que «banaliza o valor, o sentido e a vivência da sexualidade».

O Papa Bento XVI disse na semana passada, numa viagem oficial ao continente africano, que a Sida não se combate só com dinheiro «nem com a distribuição de preservativos que, ao contrário, aumentam o problema».

Dias depois, o bispo das Forças Armadas, D. Januário Torgal Ferreira, defendeu que «proibir o preservativo é consentir na morte de muitas pessoas» e que as pessoas que aconselham o Papa deviam ser «mais cultas».
In Portugal Diário

quarta-feira, 25 de março de 2009

Ribeiro Soares, a SIDA, o preservativo e um doutor de Harvard

Do Coronel Alberto Ribeiro Soares, que já é conhecido (a seu pedido) neste blogue, recebi o seguinte email:

“Se tiveres coragem publica isto no teu blog.

Abraço

RS”

“Isto”, é o seguinte texto:

“Do Director do Projecto de Estudos sobre Prevenção do S.I.D.A. de Harvard: Afirmações do Papa acerca da distribuição do preservativo tornar a epidemia de S.I.D.A. pior estão correctas

Por John –Henry Westen - 19 de Março de 2009 –

Edward C. Green, Director do Projecto de Estudos sobre a Prevenção do S.I.D.A. do Centro de Estudos sobre População e Desenvolvimento de Harvard, afirmou que a evidência corrobora as afirmações do Papa ao declarar que a distribuição de preservativos piora o problema do S.I.D.A.

“O Papa está certo”, afirmou Green ao National Review Online na passada Quarta-feira,”ou, melhor dizendo, as nossas melhores conclusões vão ao encontro dos comentários do Papa.”

“Existe”, acrescentou Green, “ um paralelo consistente que mostram os nossos estudos, incluindo a “Demographic Health Surveys”, fundada pelos Estados Unidos, entre uma maior disponibilidade e uso de preservativos e uma maior – não menor – incidência de infecções pelo vírus HIV. Isto pode dar-se devido ao fenómeno conhecido por “compensação de risco”, significando que quando a população utiliza uma tecnologia de redução de risco como o preservativo, muitas vezes essa mesma população perde o benefício da redução desse risco ao “compensar”, arriscando-se mais do que faria sem essa tecnologia. (Ver a entrevista completa com Green em http://article.nationalreview.com/?q=MTNINDc1MmMwNDMoOTEzMjQ4NDcoCGUyOWYxNmEzN2E=)

A Pagina Electrónica do Projecto do S.I.D.A. sobre Green menciona o seu livro “Repensar a Prevenção do S.I.D.A.: Aprendendo com os Sucesso de Países em Desenvolvimento”. Nele Green revela que “ As soluções, na sua maioria médicas, fundadas pelos grandes doadores tiveram pouco impacto em África. Em compensação, mudanças de comportamento relativamente simples e de baixo custo – como insistindo numa crescente monogamia e no adiamento da actividade sexual para os mais novos – têm tido maior sucesso na luta contra a doença e na sua prevenção.”

O texto completo da troca de impressões entre o Papa Bento XVI e o repórter, texto esse que lançou uma tempestade na imprensa mundial, foi divulgado agora pela imprensa do Vaticano.

O Papa foi confrontado com a seguinte questão: “ Santo Padre, um dos maiores flagelos de África é o problema da epidemia de S.I.D.A.. A posição da Igreja Católica na luta contra este mal tem sido frequentemente considerada irrealista e ineficaz.”

Bento XVI respondeu: “ Eu diria o contrário.

“Estou convencido de que a presença mais efectiva na frente de batalha contra o HIV/S.I.D.A. são, precisamente, a Igreja Católica e as suas instituições. Penso por exemplo na Comunidade de Santo Egídio, que tanto faz e tão visivelmente na luta contra o S.I.D.A; ou nas Camillianas, só para mencionar algumas das freiras que estão ao serviço dos doentes.

Penso que este problema, o S.I.D.A., não pode ser vencido com slogans de propaganda. Se falta a alma, se os Africanos não se entre ajudarem, o flagelo não pode ser resolvido com a distribuição do preservativo; pelo contrário, arriscamo-nos a piorar a situação. A solução só pode advir de um compromisso duplo: primeiro, na humanização da sexualidade, ou por outras palavras, num renovamento espiritual e humano que traga consigo uma nova forma de proceder uns para com os outros. E em segundo lugar, num amor autêntico para com os que sofrem, numa prontidão – mesmo à custa de sacrifício pessoal - para estar presente aos que padecem. São estes os factores que podem trazer o progresso, real e visível.

Assim, eu diria que o nosso esforço deve ser o de renovar a pessoa humana por dentro, o de dar-lhe força espiritual e humana para uma forma de comportamento justa para com o seu corpo e o corpo do outro; e ainda o de ajudá-la a ser capaz de sofrer com os que sofrem e de estar presente nas situações difíceis.

Acredito que é esta a primeira resposta ao problema do S.I.D.A., que é esta a resposta da Igreja e que, deste modo, a sua contribuição é uma grande contribuição. E estamos gratos a todos os que assim contribuem.”

Veja as credenciais impressionantes e a lista de publicações do Dr. Green em http://www.harvardaidsprp.org/faculty-staff/edward-c-green-bio.html”


O meu comentário:


Caro Alberto, escusavas de ter apelado à minha coragem, para publicar este texto. Como tens obrigação de saber, foi coisa que nunca me faltou para enfrentar adversidades e opiniões contrárias às que frontalmente sempre defendi, defendo e defenderei quando for caso disso.

Como administrador de O Cacimbo nunca procedi nem procederei de outra maneira.


Mas noto alguma confusão na insistência dos teus argumentos. Nunca, neste blogue foi escrita uma linha contra a doutrina social da Igreja. Pelo contrário - e se te deres ao trabalho de leres todos os postais aqui publicados - notarás que, eu próprio, já referi que, entre essa doutrina e o marxismo, não noto grande diferença.

Por isso mesmo, aplaudo o papel que as missões católicas têm em África no tratamento às populações doentes e infectadas pelas mais variadas epidemias, quando o podem e têm recursos para isso.


Outra coisa são os dogmas e a infalibilidade do Papa, qualquer que ele seja.

Como também tens obrigação de saber, este Bento XVI é o segundo Papa alemão. O outro, ocupou o trono se São Pedro na Idade Média...

E o Cardeal Ratzinger, desde sempre revelou preferir ideias medievais do que aceitar o Concílio Vaticano II.


Como também sabes, cada vez que abre a boca para o mundo, é raro não estabelecer polémica e ser criticado por católicos, governantes e cientistas. Talvez de aqui a umas década - o tempo agora corre mais depressa - estará a Igrja Católica a pedir desculpa pelos erro deste Papa...


Portanto, o tal "doutor" que te serve de bengala leva-me a chamar-te a tenção para o seguinte:

Afinal não é somente em Portugal que "um burro carregado de livros é doutor"; pelos vistos em Harvard também existe essa espécie.


Álvaro Fernandes


sexta-feira, 20 de março de 2009

Bento XVI e a Sida em Áfirca



De um prezado Camarada de Armas, e Amigo desde que estivemos na Frente Leste de 1970 em Angola e, depois, em muitas e variadas ocasiões (nem sempre de acordo) - mas que até me visitou quando recentemente estive internado no Hospital Militar -, tive o prazer de receber um email a propósito do postal publicado em O Cacimbo, sob o título:
Um Papa mais do que controverso
Em que em suma, exprimiu estas opiniões:

“Divulgas umas coisas muito giras.
Mas às vezes metes-te noutras em que não te deves meter.
1.ª - Deixa o Papa em paz! Ele fala para os católicos. É um problema de disciplina religiosa, só aplicável nos crentes que aceitam a jurisdição do Papa. Como acho que não és desse rebanho, não é nada contigo - passa adiante!
2.ª - O preservativo não deixa passar líquidos. Mas, como é poroso, deixa passar humores (do dicionário, qualquer fluido contido num corpo organizado, produto mórbido e líquido de um corpo orgânico, humidade) que podem transportar células e, consequentemente, espermatozóides ou vírus. Logo - já foi denunciado por cientistas - o preservativo não é 100% seguro. Por isso, mesmo no plano científico, o alerta do Papa não é assim tão descabido...”


Por enquanto, limitei-me a responder aquilo a que directamente me disse respeito.
Se O Cacimbo fosse um blogue unipessoal e, ou os postais publicados a respeito das AFIRMAÇÕES PÚBLICAS do Papa Bento XVI se limitassem a ser uma opinião pessoal minha… talvez não sentisse necessidade de publicar este postal.

Mas é claro que não! Já muita gente e até Estados se pronunciaram, Tenho-me limitado a dar conhecimento do que Bento XVI propaga aos quatro ventos e a exprimir o que penso acerca disso. Além disso, limito-me a ser administrador deste blogue que, felizmente, também pertence a outros autores.

Para melhor elucidação – e com integral respeito pelo anonimato desse meu Amigo, e assumpção da minha identidade - sinto-me obrigado a publicar a nossa troca de impressões. Faço-o para que os outros autores, e os nossos leitores, saibam que há quem discorde... mas não usa a faculdade de o exprimir livremente a sua opinião. Será por medo da censura que por aí já vai andando? Não sei. Só quem discorda mas não tem coragem de o fazer publicamente saberá com que linhas se cose. Aqui fica a minha resposta:

“Como sabes, O Cacimbo permite todo o tipo de comentários sem qualquer filtro ou censura.
Já que é essa a tua opinião, preferia que a publicasses naquilo que tu consideras “coisas muito giras” e mais: “mas às vezes metes-te noutras em que não te deves meter”.
Não sei se devo considerar isso um aviso “amigo” - de quem sabe que já andam a pau com a liberdade de expressão que o ordenamento jurídico e constitucional ainda me garante, e pretendem impedir-me que a utilize, ou uma ameaça (e cito) “mas às vezes metes-te noutras em que não te deves meter” (sic).

Bem.
Na primeira hipótese, cá estarei para responder a quem ache – e já te deves ter apercebido que abundam por aí os “achistas” (normalmente muito bem pagos) a fazer propaganda e ameaçar quem divulga a sua opinião, isto é: a pensar pela sua cabeça, a dizer o que pensa e a pensar (n)o que diz. Conhece-mo-nos suficientemente bem para tu saberes que nunca abdiquei, não abdico nem abdicarei de cumprir e exercer os meus direitos de cidadania.
Aproveito – em nome da nossa velha amizade, com os altos e baixos a que nenhum de nós é alheio – para te pedir que repares no seguinte:
- O Papa não é um ignoto cidadão que palra para revistas cor-de-rosa ou tablóides; é o Chefe da Igreja Católica; é também o Chefe de Estado do Vaticano
- Tudo o que diz – excepto a missa que reza para os católicos – é ouvido, interfere e diz respeito a todo o mundo;
- Portanto, cabe a todo e qualquer cidadão consciente ouvir e pronunciar-se livremente acerca das opiniões PÚBLICAS E DIFUNDIDAS MUNDIALMENTE por que Papa seja, incluindo este Bento XVI.

Respeito a tua discordância, com uma diferença, acho que tens todo o direito de te “meteres” naquilo que por bem entenderes, desde que não o faças anónima e cobardemente.
Do que de ti conheço, estou certo que serás capaz de publicar a tua discordância no blogue O Cacimbo.

Uma abraço amigo

Álvaro Fernandes”

quinta-feira, 19 de março de 2009

SÓ O SABER LIBERTA

O Papa disse que o “preservativo não pode ser uma panaceia”. Mas não explica porquê.
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No dicionário ilustrado da Lello Editores lemos: panaceia – Remédio universal contra todos os males físicos e morais.
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Se o preservativo não deve ser panaceia contra a SIDA, então onde está, ou qual é, a panaceia?
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Os “preservativos podem aumentar o problema da SIDA”, disse também o Papa. Mas também não explica porquê. É pena, porque eu poderia aprender mais qualquer coisa.
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Parece-me que compreendo a ideia do Papa. A panaceia será a abstinência e a prática sexual dentro do casamento, exclusivamente. Mas esse tipo de abstinência quase ninguém pratica, em qualquer o lado, incluindo em África. As relações sexuais são praticadas antes, durante e depois do casamento, dentro e fora do casamento. Portanto, poucos seguem a obcecação da igreja católica pelo sexo exclusivamente praticado dentro do casamento. Sendo assim, o preservativo é necessário e torna-se indispensável, mesmo que desobedeça aos ditames da igreja que teima em defender dogmas, ou regras, ou ditames, ou princípios (o que lhes queiram chamar) desfasados da época em que vivemos. O preservativo não deve ser evitado mesmo dentro do casamento, a menos que ambos os cônjuges se abstenham de práticas sexuais fora do mútuo compromisso que assumiram.
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Por outras palavras, a igreja teima em manter os velhos conceitos misóginos que sempre a caracterizaram e que são comuns às religiões monoteístas talvez porque todas elas nasceram e cresceram na mesma região do mundo, no seio da mesma cultura. A igreja valoriza os seus sagrados princípios com desprezo pelas pessoas. A igreja católica coloca-se ao mesmo nível das ideologias políticas totalitárias que defendem “princípios” abstractos e que matam pessoas, se necessário for, para salvar os sagrados “princípios” que valorizam acima das pessoas. Como se os dogmas servissem para alguma coisa quando deixasse de existir pessoas. Como se as ideologias tivessem qualquer valor sem pessoas. Como se os “princípios” não fossem inventados pelas pessoas.
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É por isso que o fenómeno religioso não pára de me surpreender.
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O homem, ser ignorante e cruel, apenas dotado do natural instinto de sobrevivência, continua excessivamente dependente do sobrenatural e da “vontade de Deus”, como se Deus solucionasse o que quer que fosse.
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Por mim, confesso que nunca vi que Deus evitasse a explosão de uma estrela, uma infecção pelo vírus da SIDA, ou nascimento de uma criança com o síndroma de Down.
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Nesta era de fortes progressos científicos em que a natureza nos desvenda os grandes “mistérios” da vida e dos fenómenos naturais, ainda existe quem se agarre à religião com a esperança de ver os seus problemas solucionados, talvez porque nem todos tiveram a sorte de nascer em regiões onde a dignidade humana tem direitos inalienáveis, como o direito à educação e à literacia. “A ignorância é a âncora da religião”, disse uma vez Napoleão. E Pascal, num dos seus pensées, afirmou que “onde a ciência avança, a religião recua”. Portanto, podemos concluir que a única salvação do homem é a instrução (ou a literacia) e não a criação de sistemas filosóficos putativamente benéficos para o Homem que depois se convertem em sistemas opressores dos Homens e dos seus seguidores por muita fé que depositem nesses sistemas. Porque as religiões acabam sempre por se transformar em ferramentas de poder político para benefício das classes que as dominam por dentro, que se servem delas para que os seus interesses prevaleçam sobre os dos dominados.
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Por isso afasto-me de todas as religiões, que olho com igual desconfiança e não as recomendo mesmo ao meu pior inimigo. E se alguém quer a sua libertação, o caminho mais seguro é enviá-lo para a escola. Seguramente terá a sua libertação das trevas da ignorância e, por arrastamento, da sinistra influência das religiões.

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. . . . . . . . . .SÓ O SABER LIBERTA.
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Neste exemplo concreto da luta contra a SIDA, o Papa é parte do problema e não da solução. Embora seja o chefe supremo da Igreja católica, a mesma organização que inventou os Tribunais da Inquisição ditos “Sagrados”, que queimava pessoas em público em nome de um Deus “infinitamente misericordioso”.
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Quem acredita nesta hipocrisia?

quarta-feira, 18 de março de 2009

Bento XVI, a Sida e o preservativo

UM PAPA PROTECTOR DOS VIRUS

Bento XVI declarou no início da sua viagem a África que a distribuição de preservativos não só não resolve os problemas do HIV como os aumenta. Ele quer proteger quem? Ou simplesmente não quer que os virus abortem?

Publicado por João Tunes às 16:48
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1 comentário:
De Anónimo a 17 de Março de 2009 às 17:06
Já não é a 1ª vez, que a Igreja promove a morte, não é portanto, lamentavelmente nenhuma admiração
In blogue Água Lisa

Um Papa mais do que controverso

Paris considera que Bento XVI pôs em risco imperativos quanto à protecção da vida humana
França condena declarações do Papa sobre o preservativo
18.03.2009 - 16h05 PÚBLICO, Agências
O Governo francês criticou hoje as declarações do Papa contra o uso do preservativo, mostrando-se “muito preocupada” com a posição defendida por Bento XVI antes de aterrar nos Camarões, onde começou ontem uma visita a África.

As declarações de Bento XVI, feitas aos jornalistas que acompanham a visita, durante a viagem entre Roma e a capital dos Camarões, Yaoundé, referindo que o uso do preservativo não é uma solução e pode agravar o problema da Sida, desencadearam uma tempestade de reacções críticas em todo o mundo. Alguns governos, organizações não governamentais e de combate à doença condenaram estas declarações, às quais o Vaticano reagiu hoje referindo que o Papa queria sublinhar a importância da “educação para a responsabilidade”.

Duas capitais europeias, Paris e Bruxelas, reagiram oficialmente. “A França exprime a sua viva preocupação quanto às consequências das declarações de Bento XVI”, disse hoje um porta-voz do ministro dos Negócios Estrangeiros francês, Eric Chevalier. “O nosso papel não é o de emitir julgamentos sobre as doutrinas da Igreja, mas consideramos que estas observações põem em risco políticas públicas de saúde e os imperativos quanto à protecção da vida humana”, relata a agência Reuters.

Em Bruxelas, a ministra belga da Saúde , Laurette Onkelinx disse que a posição de Bento XVI “reflecte uma visão doutrinária perigosa”, acrescentando que estas “podem demolir anos de prevenção e educação e colocar em risco muitas vidas humanas”, cita o diário "International Herald Tribune".

O porta-voz do Vaticano, Federico Lombardi, defendeu o Papa considerando que “não se deve esperar desta viagem uma mudança na posição da Igreja Católica sobre a questão da Sida”, cita a AFP. De acordo com a mesma agência, a polémica provocada pelas declarações de terça-feira levou Bento XVI a acrescentar ao programa de hoje em Yaoundé um encontro com jovens de uma associação de ajuda aos doentes com Sida, animada pela comunidade de Santo Egídio.



“O Papa vive no século XXI?”



Várias organizações não governamentais, como a camaronesa Mopcat, um movimento para o maior acesso dos doentes aos tratamentos para a sida, reagiram duramente às declarações de Bento XVI. “O Papa vive no século XXI?”, questionou Alain Fogué, daquele movimento. “As pessoas não vão seguir o que o Papa diz. Ele vive no céu, mas nós vivemos na Terra”, acrescentou.

Judith Melby, da organização Christian Aid, criticou o Papa considerando que as suas declarações “enviam uma mensagem confusa a África, um continente onde a Igreja Católica é muito importante”. “A nossa posição é a de que a abstinência [defendida por Bento XVI como o meio para impedir a propagação da doença] é uma parte importante do conjunto das medidas, mas a abstinência por si só não vai impedir a transmissão do vírus HIV”, acrescentou.

Já o director executivo do Fundo Mundial de Luta contra a Sida, a tuberculose e o paludismo, Michael Kazatchine, pediu a Bento XVI que “retire as suas declarações”, que considerou “inaceitáveis”.

“É uma negação da epidemia. E fazer essas declarações no continente onde vivem 70 por cento das pessoas infectadas pela doença é absolutamente inacreditável”.

1,9 milhões de pessoas foram infectadas com o vírus do HIV no ano passado na África subsariana onde vivem 22 milhões de seropositivos

In "Público" on line

Este Papa - que até pertenceu à juventude nazi - revela não merecer o cargo para que os outros cardeais o elegeram.
Cada vez que abre a boca, lança mais achas para a fogueira mais próxima. Ele foi o levantamento da excomunhão a um bispo nazi que nega o holocausto, as provocações aos muçulmanos e, agora, esta patética e inadmissível campanha contra o uso do preservativo como instrumento de luta contra a propagação da Sida.
Se Cristo descesse à Terra, creio que exigiria a renúncia de Bento XVI.
Convém os fiéis católicos pensarem nisso.