segunda-feira, 6 de abril de 2009

A CORRUPÇÃO E OS PORTUGUESES

Protestando que não está ainda condenado a nada (recorreu para a Relação), Domingos Névoa renunciou à presidência da Braval, uma empresa de tratamento de resíduos do distrito de Braga, para que tinha sido escolhido por unanimidade. Este acto de abnegação foi o resultado de um processo conjunto do Bloco, do PC, do PSD, do CDS e até (calculem) do PS, de algumas declarações de João Cravinho e de Manuel Alegre e do espanto geral da televisão e da imprensa. A moral da história não é, evidentemente, a reprovação instantânea e pública de Domingos Névoa. Muito pelo contrário. A moral da história é tranquilidade e boa consciência com que o aceitaram seis câmaras de Braga, como se a coisa não saísse de um costume velho e venerável, que a ninguém ocorreu por um momento pôr em causa.
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E, se calhar, não sai. Houve sempre na cultura portuguesa a ideia de que política serve, e deve servir, para enriquecer. A corte de D. João VI roubava por direito e tradição. Depois da guerra civil, em 1834, os liberais roubaram a coroa e a igreja como quiseram. Os “cabralistas” roubaram tanto que mesmo na altura se achou um exagero. Na Regeneração e no “Rotativismo” toda a gente roubava disciplinadamente com método e com ordem. Durante a República, a rapidez com que mudavam os governos não permitiu que se roubasse muito (excepto um pequeno prédio ou um ou outro bocadinho de terra). E Salazar, se não roubou ele próprio (uma virtude por que incessantemente o louvaram), deixou roubar e eito a vassalagem do regime. Portugal nunca brilhou por uma grande honestidade cívica.
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Pior do que isso, antes do “25 de Abril”, o povo nunca se importou: gostava imenso de Saldanha, o maior tratante, e recebia uma espórtula em espécie ou em favores pelo voto que ia dar a quem lhe mandavam. O “25 de Abril” só aparentemente mudou esta vida. A cidadania elege e reelege criaturas de que a polícia suspeita e que os tribunais puniram, como quem os recompensa por trabalhos de mérito. E, a começar por Sá Carneiro, nenhum chefe nacional ou local alguma vez se prejudicou por o acusarem de pecados veniais como corrupção ou ladroeira. O português parte do princípio que os políticos se “enchem” (os que são espertos, pelo menos). Não acredita na honestidade do Estado ou na eficácia da lei. Acredita no que recebe e no que lhe tiram; e não se importava de arranjar um lugar à mesa.
Vasco Pulido Valente, Público.
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Curiosa opinião de VPV que nos diz que a corrupção tem sido praticada há tanto tempo e tão sistematicamente que já entrou na "cultura portuguesa". Os português está resignado: "sempre foi assim, portanto não se pode combatê-la".
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O melhor será juntar-se a ela, pois talvez haja alguma coisa a ganhar.

1 comentário:

zigoto disse...

Pois é. Já agora ainda se lembram de um ilustre e respeitado governante - que foi deputado, primeiro-ministro e Presidente da República - que, quando se começou a falar de corrupção em Portugal - disse pragmaticamente o seguinte:
"A corrupção é o óleo da democracia".
Não se lembram? Pensem um pouco que logo descobrem quem foi esse ilustre "senador" da República.