
O presidente da República tem de ser uma referência de seriedade para toda a população, e as nossas indicações recolhidas na Presidência da República eram muito, muito claras", acrescentou o chefe de Estado.
O caso é, portanto, bastante sério: na opinião do chefe de Estado, estava (está?) em curso uma espécie de campanha que, através de insinuações malévolas e mentiras várias, o visa atingir e à sua família. Cavaco Silva não explicou de onde vêm umas e outras, mas o facto de, na referida nota, ter, por exemplo, descido ao pormenor de nos dizer quantas contas tem e em que bancos as tem é revelador do grau de transparência que decidiu usar antes que os salpicos do "caso BPN" o possam eventualmente atingir.
A verdade é que, desde que o "caso BPN" estourou, foi dito e redito em todos os órgãos de comunicação social que alguns dos responsáveis do banco estiveram em governos liderados por Cavaco Silva. Isso é um facto indesmentível. Mas daí não pode deduzir-se nada mais.
Acontece que Cavaco nos diz outra coisa: diz-nos que à Presidência chegaram "indicações muito, muito claras" de que, por causa disso, o chefe de Estado estaria a ser envolvido numa espécie de "cabala" que a alguém terá que aproveitar.
Junte-se a delicada situação política do conselheiro de Estado Dias Loureiro e temos o caldo quase entornado. Por isso o presidente decidiu antecipar-se, para se defender. E para mostrar que está atento a todos os movimentos.
O ponto está em saber a quem aproveita a eventual "cabala". Há dias, Marco António Costa, presidente da distrital do PSD do Porto, e Pedro Passos Coelho deram a entender que o "caso BPN" estaria prestes a ser usado, supostamente pelo PS, como uma forma de questionar os anos dourados e a memória do "cavaquismo".
É uma tese. Só não se percebe muito bem o que ganhariam, nesta altura, o PS e mesmo o Governo com a criação de um sério conflito com o presidente da República.
A comissão de inquérito que aí vem - e que os socialistas começaram, convenientemente, por recusar - pode ajudar a lançar alguma luz sobre este caso, que ameaça tornar-se politicamente bicudo.
Uma coisa é certa: se as dúvidas começarem a crescer, Cavaco Silva tem a obrigação de nos dizer quais são as "indicações claras" de que dispõe. Para ficarmos a saber quem é que anda a tentar tramar quem.
Paulo Ferreira
in JN
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