segunda-feira, 28 de abril de 2008
10 coisas odiáveis nos portugueses
1-A bipolaridade portuguesa é das características nacionais mais irritantes. Num passado recente, vivíamos felizes e contentes num estado de depressão crónica à escala nacional, dando braçadas convictas numa grande piscina olímpica de miserabilismo. Com o passar dos anos e quando começou a ser óbvio que, em comparação com o resto do mundo, até nem estamos tão mal como isso, passámos a alternar este estado com o oposto. Tanto somos os maiores do mundo como a maior escória do planeta. E não há medicação que chegue para dez milhões de casos psiquiátricos.
2-Num país em que tão pouca gente lê, a autora nacional mais vendida (não se sabe se lida ou não) é Margarida Rebelo Pinto.
3-Os portugueses orgulham-se de terem dado novos mundos ao mundo durante a era dos descobrimentos. No entanto, tarda em atingir-se a noção revolucionária de que coisas como urinar na rua, cuspir para o chão ou adubar o passeio com dejectos canídeos são profundamente desagradáveis.
4-Somos um povo tão corrupto que inventámos um nome afectuoso para a corrupção: cunha.
5-Portugal faz parte da União Europeia desde 1986. Depois de duas décadas de subsídios dos estados ricos da Europa, estava no fundo de todas as tabelas estatísticas (menos as que diziam respeito à iliteracia, subdesenvolvimento, tamanho médio dos preservativos, toxicodependência e doenças graves) antes do último alargamento e corre sérios riscos de ser ultrapassado em breve por todos os estados do leste europeu recém-chegados. Se a União Europeia fosse uma escola, Portugal já teria sido reencaminhado para uma instituição de ensino especial há muito tempo e estaria agora a esculpir cocós de madeira para vendas de caridade.
6-O astrolábio náutico foi inventado pelos portugueses. A combinação de fato de treino com sapatos de verniz também.
7-Os portugueses são os principais importadores e consumidores mundiais de bacalhau seco e salgado. Graças a um apetite insaciável, o “fiel amigo” chegou ao ponto de estar ameaçado de extinção. Mas serve-lhe de consolação o facto de, entre as inúmeras espécies ameaçadas, nenhuma poder ser cozinhada de tantas maneiras diferentes.
8-Qualquer referência a Portugal feita pela comunicação social de um outro país, sobretudo se for um país mais rico do que Portugal, é passível de ser noticiada pela comunicação social nacional com grande destaque. Oscar Wilde disse que a única coisa pior do que ser falado é não ser falado. Mas, que se saiba, o autor irlandês nunca foi confundido com uma província espanhola ou localizado erroneamente algures na América Latina.
9-Portugal e Espanha têm uma longa história comum motivada pela proximidade geográfica decorrente da partilha da Península Ibérica. Depois de séculos de conflitos e relações problemáticas evoluíram para uma rivalidade muito peculiar por ser unilateral. Ou seja, enquanto a maioria dos portugueses considera existir uma rivalidade saudável com os vizinhos espanhóis, os espanhóis só muito raramente se lembram da existência de Portugal. Um estudo recente prova que 80% dos turistas que nos chegam do país vizinho pretendiam visitar a costa atlântica espanhola e ficaram surpresos por descobrir um país diferente antes de chegar à praia.
10-A riqueza do país está também nos seus emigrantes. Não apenas pelas receitas que enviam para o país de origem mas pela divulgação do nome de Portugal no estrangeiro e promoção dos seus costumes e cultura. Tretas. As coisas já não estavam boas sem ter a parte diminuta do mundo que sabe da nossa existência a ver-nos como merceeiros de bigodaça com a camisa desabotoada até ao umbigo a dançar o vira pela rua fora com uma sardinha assada numa mão, um garrafão de vinho tinto na outra e um galo de louça equilibrado sobre o boné do Benfica. Obrigadinho!
http://www.inepcia.com/10coisasodiaveis-portugal.html
SE MAIS RAZÃO NÃO HOUVERA
Pessoa colectiva de utilidade pública (Decl. n.º 104/2002, DR - II Série, n.º 91 de 18 de Abril) • Membro honorário da Ordem da Liberdade
MENSAGEM
Há 34 anos os Portugueses passaram a olhar para os seus militares com orgulho e gratidão.
Por isso lutamos! Convictos que muito da actual conjuntura passará e os cravos voltarão a florir!
MALHOA

José Vital Branco Malhoa (Caldas da Rainha, 28 de Abril de 1855 – Figueiró dos Vinhos, 26 de Outubro de 1933), pintor, desenhista e professor português, conhecido como José Malhoa.
Com apenas 12 anos Malhoa entrou para a escola de Belas Artes, onde todos os anos ganhou o primeiro prémio, devido às suas enormes faculdades e qualidade artísticas.
Realizou inúmeras exposições, tanto em Portugal como no estrangeiro, designadamente em Madrid, Paris e Rio de Janeiro. Foi pioneiro do Naturalismo em Portugal, tendo integrado o Grupo do Leão.
José Malhoa destacou-se também por ser um dos pintores portugueses que mais se aproximou da corrente artística Impressionista.
Foi o primeiro presidente da Sociedade Nacional de Belas Artes e foi condecorado com a Grã-Cruz da Ordem de Santiago. Em 1933, ano da sua morte, foi criado o Museu de José Malhoa nas Caldas da Rainha.
Museu de José Malhoa, foi edificado no parque D. Carlos I , nas Caldas da Rainha em 1940.
Trata-se do primeiro museu construído de raiz em Portugal, projectado pelos arquitectos Paulino Montês (1897-1962) e Eugénio Correia (1897-1985).
O Museu reúne colecções de pintura, escultura, medalhística, desenho e cerâmica dos séculos XIX e XX.
O Museu é um elo fundamental entre a história, os indivíduos e os grupos. A sua vocação é sempre a do encontro do homem consigo próprio, não só na dimensão da sua memória e dos comportamentos, mas numa perspectiva de futuro.
O Museu José Malhoa é esse lugar de encontro com a pintura de Malhoa e com uma época da nossa cultura, um museu do Naturalismo português permitindo suscitar esta memória duma forma dinâmica, enquanto motiva a reflexão da actualidade e equaciona a projecção no futuro.
À figura tutelar do patrono da instituição, outras se juntam na importância dos acervos que as representam, como Francisco Franco e Leopoldo de Almeida, testemunhos de uma “idade de ouro” da escultura portuguesa, ou Rafael Bordalo Pinheiro, com o conjunto ímpar e único das 60 esculturas em terracota da “Paixão de Cristo”.
Também o edifício que alberga a colecção se revela um exemplar único da história da nossa arquitectura de influência modernista, quer pela importância particular de que se reveste na concepção para museu, quer por se tratar do primeiro em Portugal projectado e construído de raiz para esse fim.
São estes pedaços de cultura e de história que o Museu José Malhoa convida a reconhecer neste sítio, que se espera seja um lugar de descoberta e de prazer e motivador também para a visita ao vivo, a qual, introduzida no belo jardim envolvente pela colecção de Escultura ao Ar Livre que aí se distribui, poderá culminar numa agradável participação nas actividades que o Museu oferece com regularidade.
O museu é um espaço de preservação e de estudo, de criação de cultura e de vocação transdisciplinar, mas também de interrogação de conceitos e de articulação com o tecido institucional e social envolvente, e, por isso, aberto a múltiplas propostas e leituras.
domingo, 27 de abril de 2008
MESTRE JOÃO
Abraão Zacuto foi o autor de um novo e melhorado Astrolábio, que ensinou os navegantes portugueses a utilizar, e também de melhoradas tábuas astronómicas que ajudaram a orientação das caravelas portuguesas no alto-mar, através de cálculos a partir de observações com o Astrolábio.
As suas contribuições salvaram sem dúvida a vida de muitos marinheiros portugueses e permitiriam as descobertas do Brasil e do caminho marítimo para a Índia.


João Faras ou João Emeneslau, mais conhecido como Mestre João, era um médico, astrônomo, astrólogo e físico espanhol presente na expedição comandada por Pedro Álvares Cabral que aportou no Brasil em Abril de 1500, e pisa terras brasileiras a 27 de Abril desse longínquo ano.
No dia 28 de Abril de 1500 ele teria enviado uma carta para o rei D. Manuel I em que, como a Carta de Pero Vaz de Caminha, fazia comentários sobre as novas descobertas. Em um dos trechos da carta, escrita na actual Baía Cabrália, onde realizou os primeiros estudos astronómicos no Brasil, ao identificar pela primeira vez a constelação do Cruzeiro do Sul, sugere ao rei que peça um mapa onde veria a localização das terras onde eles estavam, o que faria crer que os portugueses já conheciam o território brasileiro.
Carta do Mestre João
A Carta do Mestre João é o documento escrito pelo espanhol João Faras ou João Emeneslau, entre 28 de abril e 1 de Maio de 1500, durante a viagem de Cabral ao Brasil, em um misto de espanhol e português quinhentista, dando ciência ao rei de Portugal D. Manuel I acerca do "descobrimento". Nela o autor revela a existência de um antigo mapa-múndi pertencente a Pero Vaz Bisagudo, em que já constaria o sítio desta terra.
Descoberta pelo historiador Francisco Adolfo de Varnhagen, a carta foi publicada, pela primeira vez, na Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, Rio de Janeiro, 1843, tomo V nº 19.
Señor
O bacherel mestre Johan fisico e çirurgyano de Vosa Alteza beso vosas rreales manos. Señor porque de todo lo aca pasado largamente escriuieron a vosa alteza asy arias correa como todos los otros solamente escreuire dos puntos Señor ayer segunda feria que fueron 27 de abril desçendimos em terra yo e el, pyloto do capitan moor e el pyloto de Sancho de touar e tomamos el altura del sol al medio dia e fallamos 56 grrados e la sonbrra era septentrional por lo qual segund las reglas del estrolabio jusgamos ser afastados de la equinocial por 17 grrados, e por consyguiente tener el altura del polo antarctico en 17 grados, segund que es magnifiesto en el espera e esto es quanto alo uno, por lo qual sabra vosa alteza que todos los pylotos van adiante de mi en tanto que pero escolar va adiante 150 leguas e otros mas e otros menos: pero quien disse la verdad non se puede çertyficar fasta que en boa ora allegemos al cabo de boa esperança e ally sabremos quien va mas çierto ellos con la carta e con el estrolabio: quanto Señor al sytyo desta terra mande vosa alteza traer un napamundi que tyene pero vaaz bisagudo e por ay podrra ver vosa alteza el sytyo desta terra, en pero aquel napamundi non çertyfica esta terra ser habytada, o no: es napamundi antiguo e ally fallara vosa alteza escrita tan byen la mina: ayer casy entendimos per aseños que esta era ysla e que eran quatro e que de otra ysla vyenen aqui almadias a pelear con ellos e los lleuan catiuos: quanto Señor al otro puncto sabrra vosa alteza que çerca de las estrellas yo he trabajado algo de lo que he podido pero non mucho a cabsa de una pyerna que tengo mui mala que de una cosadura se me ha fecho una chaga mayor que la palma de la mano, e tan byen a cabsa de este navio ser mucho pequeno e mui cargado que non ay lugar pera cosa ninguna solamente mando a vosa alteza como estan situadas las estrellas del, pero en que grrado esta cada una non lo he podido saber, antes me paresçe ser inposible en la mar tomarse altura de ninguna estrella porque yo trabaje mucho en eso e por poco que el nauio enbalançe se yerran quatro, o çinco grrados, de guisa que se non puede fazer synon en terra, e otro tanto casy digo de las tablas de la India que se non pueden tomar con ellas sy non con mui mucho trabajo, que si vosa alteza supyese como desconçertauan todos en las pulgadas reyrya dello mas que del estrolabio porque desde lisboa ate as canarias unos de otros desconçertauan en muchas pulgadas que unos desian mas que otros tres e quatro pulgadas, e otro tanto desde las canarias ate as yslas de cabo verde, e esto rresguardando todos que el tomar fuese a una misma ora, de guisa que mas jusgauan quantas pulgadas eran por la quantydad del camino que les paresçia que avyan andado que non el camino por las pulgadas: tornando Señor al proposito estas guardas nunca se esconden antes syenpre andan en derredor sobre el orizonte, e aun esto dudoso que non se qual de aquellas dos mas baxas sea el polo antartyco, e estas estrellas principalmente las de la crus son grrandes casy como las del carro, e la estrella del polo antartyco, o sul es pequena como la del norte e muy clara, e la estrella qaue esta en rriba de toda la crus es mucho pequena: non quiero mas alargar por non ynportunar a vosa alteza, saluo que quedo rrogando a noso Señor ihesu christo la la vyda e estado de vosa alteza acresçiente como vosa alteza desea. Fecha en uera crus a primero de maio de 500. pera la mar mejor es regyrse por el altura del sol que non por ninguna estrella e mejor con estrolabio que non con quadrante nin con otro ningud estrumento. do criado de vosa alteza e voso leal servidor.
Johannes
artium el medicine bachalarius.
Sobrescrito: A elrey nosso sõr
Nota quinhentista: De mestre Johã q vay ha Callecut.
Senhor:
O bacharel mestre João, físico e cirurgião de Vossa Alteza, beijo vossas reais mãos. Senhor: porque, de tudo o cá passado, largamente escreveram a Vossa Alteza, assim Aires Correia como todos os outros, somente escreverei sobre dois pontos. Senhor: ontem, segunda-feira, que foram 27 de Abril, descemos em terra, eu e o piloto do capitão-mor e o piloto de Sancho de Tovar; tomamos a altura do sol ao meio-dia e achamos 56 graus, e a sombra era setentrional, pelo que, segundo as regras do astrolábio, julgamos estar afastados da equinocial por 17°, e ter por conseguinte a altura do pólo antárctico em 17°, segundo é manifesto na esfera. E isto é quanto a um dos pontos, pelo que saberá Vossa Alteza que todos os pilotos vão tanto adiante de mim, que Pero Escolar vai adiante 150 léguas, e outros mais, e outros menos, mas quem diz a verdade não se pode certificar até que em boa hora cheguemos ao cabo de Boa Esperança e ali saberemos quem vai mais certo, se eles com a carta, ou eu com a carta e o astrolábio. Quanto, Senhor, ao sítio desta terra, mande Vossa Alteza trazer um mapa-múndi que tem Pero Vaz Bisagudo e por aí poderá ver Vossa Alteza o sítio desta terra; mas aquele mapa-múndi não certifica se esta terra é habitada ou não; é mapa dos antigos e ali achará Vossa Alteza escrita também a Mina. Ontem quase entendemos por acenos que esta era ilha, e que eram quatro, e que doutra ilha vêm aqui almadias a pelejar com eles e os levam cativos. Quanto, Senhor, ao outro ponto, saberá Vossa Alteza que, acerca das estrelas, eu tenho trabalhado o que tenho podido, mas não muito, por causa de uma perna que tenho muito mal, que de uma coçadura se me fez uma chaga maior que a palma da mão; e também por causa de este navio ser muito pequeno e estar muito carregado, que não há lugar para coisa nenhuma. Somente mando a Vossa Alteza como estão situadas as estrelas do (sul), mas em que grau está cada uma não o pude saber, antes me parece ser impossível, no mar, tomar-se altura de nenhuma estrela, porque eu trabalhei muito nisso e, por pouco que o navio balance, se erram quatro ou cinco graus, de modo que se não pode fazer, senão em terra. E quase outro tanto digo das tábuas da Índia, que se não podem tomar com elas senão com muitíssimo trabalho, que, se Vossa Alteza soubesse como desconcertavam todos nas polegadas, riria disto mais que do astrolábio; porque desde Lisboa até às Canárias desconcertavam uns dos outros em muitas polegadas, que uns diziam, mais que outros, três e quatro polegadas, e outro tanto desde as Canárias até às ilhas de Cabo Verde, e isto, tendo todos cuidados que o tomar fosse a uma mesma hora; de modo que mais julgavam quantas polegadas eram, pela quantidade do caminho que lhes parecia terem andado, que não o caminho pelas polegadas. Tornando, Senhor, ao propósito, estas Guardas nunca se escondem, antes sempre andam ao derredor sobre o horizonte, e ainda estou em dúvida que não sei qual de aquelas duas mais baixas seja o pólo antárctico; e estas estrelas, principalmente as da Cruz, são grandes quase como as do Carro; e a estrela do pólo antárctico, ou Sul, é pequena como a da Norte e muito clara, e a estrela que está em cima de toda a Cruz é muito pequena. Não quero alargar mais, para não importunar a Vossa Alteza, salvo que fico rogando a Nosso Senhor Jesus Cristo que a vida e estado de Vossa Alteza acrescente como Vossa Alteza deseja. Feita em Vera Cruz no primeiro de maio de 1500. Para o mar, melhor é dirigir-se pela altura do sol, que não por nenhuma estrela; e melhor com astrolábio, que não com quadrante nem com outro nenhum instrumento. Do criado de Vossa Alteza e vosso leal servidor.
Johannes
artium et medicine bachalarius
sábado, 26 de abril de 2008
DECLARAÇÕES DE VASCO LOURENÇO

O presidente da Associação 25 de Abril, Vasco Lourenço, considerou positivo o apelo do Chefe do Estado para aproximar os jovens da política mas criticou o que considerou ser a "figura triste" de Cavaco Silva recentemente na Madeira.
"Foi demasiado triste o que se passou na Madeira. E o Presidente da República, enquanto figura principal, devia ter tomado uma atitude e não tomou. O 25 de Abril também é isso", afirmou o capitão de Abril, em declarações aos jornalistas, no final da sessão solene comemorativa do 34º aniversário do 25 de Abril, na Assembleia da República.
Comentando a preocupação do Presidente da República sobre a "insatisfação dos portugueses com o funcionamento da democracia", Vasco Lourenço disse que Cavaco Silva podia "ter tido outra postura" na visita oficial à Região Autónoma da Madeira.
A Assembleia Legislativa da Madeira, o órgão máximo de soberania regional, não recebeu Cavaco Silva em sessão solene como é habitual nas deslocações de um Chefe de Estado, enquanto o presidente do Governo regional, João Jardim considerou os partidos nela representados "um bando de loucos".
Quanto aos apelos para uma maior mobilização que aproxime os jovens da vida política e do conhecimento da História, Vasco Lourenço considerou "muito positivo" mas alertou que "é preciso passar das palavras aos actos".
"Acho que é muito positivo mas é preciso passar das palavras às obras. Porque o ano passado fez um apelo para que se alterasse o tipo de comemorações e ele próprio não fez nada", afirmou o tenente-coronel.
"Nós [Associação 25 de Abril] andamos há muito tempo a apelar aos jovens que participem, para que saibam o que era Portugal antes do 25 de Abril e para fazerem comparações com o que é hoje", afirmou.
Lusa
CARTA DE UMA PROFESSORA
“Sobre os Professores
É do conhecimento público que o senhor Miguel de Sousa Tavares considerou 'os professores os inúteis mais bem pagos deste país.' Espantar-me-ia uma afirmação tão generalista e imoral, não conhecesse já outras afirmações que não diferem muito desta, quer na forma, quer na índole. Não lhe parece que há inúteis, que fazem coisas inúteis e escrevem coisas inúteis, que são pagos a peso de ouro? Não lhe parece que deveria ter dirigido as suas aberrações a gente que, neste deprimente país, tem mais do que uma sinecura e assim enche os bolsos? Não será esse o seu caso? O que escreveu é um atentado à cultura portuguesa, à educação e aos seus intervenientes, alunos e professores. Alunos e professores de ontem e de hoje, porque eu já fui aluna, logo de 'inúteis', como o senhor também terá sido. Ou pensa hoje de forma diferente para estar de acordo com o sistema?
Sei que, num jornal desportivo, escreve, de vez em quando, umas crónicas e que defende muito bem o seu clube. Alguma vez lhe ocorreu, quando o seu clube perde, com clubes da terceira divisão, escrever que 'os jogadores de futebol são os inúteis mais bem pagos do país.'? Alguma vez lhe ocorreu escrever que há dirigentes desportivos que 'são os inúteis' mais protegidos do país? Presumo que não, e não tenho qualquer dúvida de que deve entender mais de futebol do que de Educação. Alguma vez lhe ocorreu escrever que os advogados 'são os inúteis mais bem pagos do país'? Ou os políticos? Não, acredito que não, embora também não tenha dúvidas de que deve estar mais familiarizado com essas áreas. Não tenho nada contra os jogadores de futebol, nada contra os dirigentes desportivos, nada contra os advogados. Porque não são eles que me impedem de exercer, com dignidade, a minha profissão. Tenho sim contra os políticos arrogantes, prepotentes, desumanos e inúteis, que querem fazer da educação o caixote do (falso) sucesso para posterior envio para a Europa e para o mundo. Tenho contra pseudo-jornalistas, como o senhor, que são, juntamente com os políticos, 'os inúteis mais bem pagos do país', que se arvoram em salvadores da pátria, quando o que lhes interessa é o seu próprio umbigo.
Ana Maria Gomes
Neste blogue praticam-se a Liberdade e o Direito de Expressão próprios das Sociedades Avançadas
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OS JOVENS E A POLÍTICA
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O Presidente da República participou, na Assembleia da República, na Sessão Solene Comemorativa do 34º Aniversário do 25 de Abril, tendo proferido um discurso alusivo à data, no qual abordou a temática da atitude dos jovens face à vida política no país.
Veja aqui o discurso do Presidente da República
Faça aqui o download do estudo "Os Jovens e a Política", referênciado pelo Presidente da República no seu discurso (PDF com 252KB)
OS ANARQUISTAS NO 25 DE ABRIL
Manifestação anarquista desfila sem incidentes pela Baixa
Barulhentos mas pacíficos, apesar de alguns parecerem vestidos para um motim, cerca de duzentos manifestantes marcharam ontem entre a Praça da Figueira e o Terreiro do Paço, em Lisboa, em protesto contra o autoritarismo e a repressão policial.
Num dia em que a Baixa foi dominada pelo desfile do 25 de Abril, a manifestação convocada através do blogue «Contra o Capital» decorreu sob vigilância policial discreta, com cerca de dez agentes, alguns dos quais vestidos à civil, que tiraram fotografias aos manifestantes.
A concentração saiu da Praça da Figueira, passou pelo Largo de São Domingos e fez-se notar ao entrar no Rossio, com os tambores, buzinas e coros a inquietarem os membros da Associação 25 de Abril, que fazia naquela altura as suas intervenções num palco montado frente ao Teatro Nacional Dona Maria II.
«Vieram provocar uma manifestação organizada e a polícia sem fazer nada. Eu já fiz um 25 de Abril, agora tenho que fazer outro?», queixou-se um dos elementos da associação, que preferiu não se identificar.
«O Povo unido não precisa de partido» foi uma das palavras de ordem dos manifestantes, a maioria vestidos de negro, botas, com lenços e máscaras a tapar a cara, com afinidades anarquistas, como demonstravam as bandeiras negras, algumas com caveiras e ossos, e o «A» em grafia anarquista que decorava mochilas, camisolas e uma das faixas na frente da manifestação.
A passagem pelo Rossio fez-se sem novidade e os manifestantes anti-repressão saíam da praça rumo à rua Augusta quando soava «Grândola, Vila Morena» no sistema de som da Associação 25 de Abril.
Mas a música da manifestação era outra, pontuada por tambores, megafones e até sirenes policiais e várias palavras de ordem, algumas mais incendiárias - «Hoje és polícia, antes eras homem» - na passagem pela Rua Augusta, interrompida a espaços para evitar as esplanadas e o «homem-estátua» que actuava no meio da via, e que se desviou diligentemente, recebendo aplausos.
Recados à extrema-direita - «Nazis, fascistas, chegou a vossa hora! Os imigrantes ficam e vocês vão embora!» - e contra o capitalismo, o Estado pontuaram também no percurso dos manifestantes.
Entre os manifestantes, ninguém se manifestou disponível para declarações e até os leitores de dois «comunicados» - um no início, outro no fim - foram escudados por vários manifestantes para evitar que fossem abordados, gravados ou fotografados.
«Chibos infames» e «Sangue nas ruas» foram algumas das expressões que se perceberam por entre o discurso abafado, que prometia: «continuamos e continuaremos nas ruas».
No corpo da manifestação, algumas pessoas distribuíam panfletos, um da federação anarco-sindicalista Associação Internacional dos Trabalhadores, lamentando a «repressão sobre as lutas sociais», e outro com «dicas para lidar com a repressão policial», cuja regra número um é «utilizar sempre o bom senso e não entrar em pânico».
A manifestação de hoje decorreu precisamente um ano depois de conflitos entre polícia e manifestantes junto à antiga sede da PIDE, no Chiado.
Lusa/SOL
A GERAÇÃO D'ORPHEU

Mário de Sá-Carneiro (Lisboa, 19 de Maio de 1890 — Paris, 26 de Abril de 1916), foi um poeta, contista e ficcionista português, um dos grandes expoentes do Modernismo em Portugal e um dos mais reputados membros da Geração d’Orpheu.
Nasceu, no seio de uma abastada família da alta burguesia, sendo filho e neto de militares. Órfão de mãe com apenas dois anos (1892), ficou entregue ao cuidado dos avós, indo viver para a Quinta da Vitória, na freguesia de Camarate, às portas de Lisboa, aí passando grande parte da infância.
Inicia-se na poesia com doze anos, sendo que aos quinze já traduzia Victor Hugo, e com dezasseis, Goethe e Schiller. No liceu teve ainda algumas experiências episódicas como actor, e começa a escrever.
Em 1911, com dezanove anos, vai para Coimbra, onde se matricula na Faculdade de Direito, mas não conclui sequer o ano. Aí, contudo, viria a conhecer aquele que foi, sem dúvida, o seu melhor e mais compreensivo amigo – Fernando Pessoa –, o qual, em 1912, o introduziu no ciclo dos modernistas.
Desiludido com a «cidade dos estudantes», segue para Paris a fim de prosseguir os estudos superiores, com o auxílio financeiro do pai. Cedo, porém, deixou de frequentar as aulas na Sorbonne, dedicando-se a uma vida boémia, deambulando pelos cafés e salas de espectáculo, chegando a passar fome e debatendo-se com os seus desesperos, situação que culminou na ligação emocional a uma prostituta, a fim de combater as suas frustrações e desesperos.
Na capital francesa viria a conhecer Guilherme de Santa-Rita (Santa-Rita Pintor). Inadaptado socialmente e psicologicamente instável, foi neste ambiente que compôs grande parte da sua obra poética e a correspondência com o seu confidente Pessoa; é, pois, entre 1912 e 1916 (o ano da sua morte), que se inscreve a sua fugaz – e no entanto assaz profícua – carreira literária.
Entre 1913 e 1914 vem a Lisboa com certa regularidade, regressando à capital devido à deflagração do conflito entre a Sérvia e a Áustria-Hungria, o qual a breve trecho se tornou uma conflagração à escala europeia – a I Guerra Mundial. Com Pessoa e ainda Almada Negreiros integrou o primeiro grupo modernista português (o qual, influenciado pelo cosmopolitismo e pelas vanguardas culturais europeias, pretendia escandalizar a sociedade burguesa e urbana da época), sendo responsável pela edição da revista literária Orpheu (e que por isso mesmo ficou sendo conhecido como a Geração d’Orpheu ou Grupo d’Orpheu), um verdadeiro escândalo literário à época, motivo pelo qual apenas saíram dois números (Março e Junho de 1915; o terceiro, embora impresso, não foi publicado, tendo os seus autores sido alvo da chacota social) – ainda que hoje seja, reconhecidamente, um dos marcos da história da literatura portuguesa, responsável pela agitação do meio cultural português, bem como pela introdução do modernismo em Portugal.
Em Julho de 1915 regressa a Paris, escrevendo a Pessoa cartas de uma crescente angústia, das quais ressalta não apenas a imagem lancinante de um homem perdido no «labirinto de si próprio», mas também a evolução e maturidade do processo de escrita de Sá-Carneiro.
Uma vez que a vida que trazia não lhe agradava, e aquela que idealizava tardava em se concretizar, Sá-Carneiro entrou numa cada vez maior angústia, que viria a conduzi-lo ao seu suicídio prematuro, perpetrado no Hôtel de Nice, no bairro de Montmartre em Paris, com o recurso a cinco frascos de arseniato de estricnina.
Contava tão-só vinte e seis anos. Extravagante tanto na morte como em vida (de que o poema Fim é um dos mais belos exemplos), convidou para presenciar a sua agonia o seu amigo José de Araújo. E apesar de o grupo modernista português ter perdido um dos seus mais significativos colaboradores, nem por isso o entusiasmo dos restantes membros esmoreceu – no segundo número da revista Athena, Pessoa dedicou-lhe um belo texto, apelidando-o de «génio não só da arte como da inovação dela», e dizendo dele, retomando um aforismo das Báquides (IV, 7, 18), de Plauto, que «Morre jovem o que os Deuses amam» (tradução literal de Quem di diligunt adulescens moritur).
Verdadeiro insatisfeito e inconformista (nunca se conseguiu entender com a maior parte dos que o rodeavam, nem tão pouco ajustar-se à vida prática, devido às suas dificuldades emocionais), mas também incompreendido (pelo modo com os contemporâneos olhavam o seu jeito poético), profetizou acertadamente que no futuro se faria jus à sua obra, no que não falhou.
Com efeito, reconhecido no seu tempo apenas por uma fina élite, à medida que a sua obra e correspondência foi publicada, ao longo dos anos, tornou-se acessível ao grande público, sendo actualmente considerado um dos maiores expoentes da literatura moderna em língua portuguesa. Embora não tenha a mesma repercussão de Fernando Pessoa, a sua genialidade é tão grande (senão mesmo maior) que a de Pessoa, mas porém muito mais próxima da loucura que a do seu amigo.
A terra que o acolheu na infância – Camarate –, e a quem ele dedicou também algumas das suas poesias, homenageou-o, conferindo o seu nome a uma escola local. O seu poema Fim foi musicado por um grupo português no final dos anos 80, os Trovante. Mais tarde, o seu poema O Outro foi também musicado pela cantora brasileira Adriana Calcanhotto.
As suas influências literárias são de Edgar Allan Poe, Oscar Wilde, Charles Baudelaire, Stéphane Mallarmé, Fiódor Dostoievski, Cesário Verde e António Nobre. Este escritor influenciou vários escritores, entre eles Eugénio de Andrade.
Sua obra, reflexo de um espírito conturbado
Na fase inicial da sua obra, Mário de Sá-Carneiro revela influências de várias correntes literárias, como o decadentismo, o simbolismo, o ou saudosismo, então em franco declínio; posteriormente, por influência de Pessoa, viria a aderir a correntes de vanguarda, como o interseccionismo, o paulismo ou o futurismo.
Nessas pode exprimir com à-vontade a sua personalidade, sendo notórios a confusão dos sentidos, o delírio, quase a raiar a alucinação; ao mesmo tempo, revela um certo narcisismo e egolatria, ao procurar exprimir o seu inconsciente e a dispersão que sentia do seu «eu» no mundo – revelando a mais profunda incapacidade de se assumir como adulto consistente.
O narcisismo, motivado certamente pelas carências emocionais (era órfão de mãe desde a mais terna puerícia), levou-o ao sentimento da solidão, do abandono e da frustração, traduzível numa poesia onde surge o retrato de um inútil e inapto. A crise de personalidade levá-lo-ia, mais tarde, a abraçar uma poesia onde se nota o frenesi de experiências sensórias, pervertendo e subvertendo a ordem lógica das coisas, demonstrando a sua incapacidade de viver aquilo que sonhava – sonhando por isso cada vez mais com a aniquilação do eu, o que acabaria por o conduzir, em última análise, ao seu suicídio.
Embora não se afaste da metrificação tradicional (redondilhas, decassílabos, alexandrinos), torna-se singular a sua escrita pelos seus ataques à gramática, e pelos jogos de palavras. Se numa primeira fase se nota ainda esse estilo clássico, numa segunda, claramente niilista, a sua poesia fica impregnada de uma humanidade autêntica, triste e trágica.
Por fim, as cartas que trocou com Pessoa, entre 1912 e o seu suicídio, são como que um autêntico diário onde se nota paralelamente o crescendo das suas frustrações interiores.
Fim
Quando eu morrer batam em latas,
Rompam aos saltos e aos pinotes,
Façam estalar no ar chicotes,
Chamem palhaços e acrobatas!
Que o meu caixão vá sobre um burro
Ajaezado à andaluza:
A um morto nada se recusa,
E eu quero por força ir de burro!...
Mário de Sá-Carneiro
sexta-feira, 25 de abril de 2008
O Jogo do Bicho...
O PAPAGAIO DE PAPEL
Camponeses, marçanos ou estudantes mal ajustados ao uniforme de campanha, inconformados com a espartana rotina que levavam, emprestavam cada vez mais imaginação à vida. Era a idade de viver o sonho, experimentando realidades de modo a marcá-las de forma singular. Mesmo ali, naquele lugar para onde os tinham atirado sem consulta, continuavam tão inconformistas quanto os jovens o são. Empenhavam-se em personalizar as condições de sobrevivência, com tanto ou mais afinco e sucesso do que na luta contra o inimigo que os espreitava na floresta.
Nas tendas de lona não existia qualquer mobiliário e só os graduados dormiam em camas de ferro. Aos soldados estavam distribuídos colchões pneumáticos e ninguém tinha sequer uma cadeira onde repousar com um mínimo de conforto nos intervalos das operações.
Para guardarem as fardas e o calçado militar, dispunham de dois sacos de transporte de bagagem, servindo um de inseparável mochila onde se misturavam as caixas de munições de reserva com uma manta, um poncho impermeável e cinco rações de combate para matar a fome no mato. O outro substituía, dentro do possível, cómoda e guarda-fato.
Isto a princípio, que o espírito de improvisação dos soldados, a necessidade de preservarem a sua individualidade, diferenciando-se dos outros, depressa começou a transformar aduelas de barris de vinho - que constituíam tara perdida - em mesas, bancos, estantes e armários, conforme a necessidade e o gosto de cada um. Passados seis meses até já havia quem dispusesse de cadeira de baloiço, estilo império arqueado, como ironicamente foi catalogado tal tipo de mobiliário artesanal.
Dos fundos privativos, a companhia limitava-se a fornecer pregos e dobradiças. Os mais requintados pagavam as fechaduras que o sargento Castanheira lhes trazia do armazém de ferragens quando, no fim do mês, ia à cidade com o capitão buscar artigos de expediente e dinheiro para pagar o soldo. A lista das encomendas era sempre enorme mas pouco variada.
Daí André estranhar que, dessa vez, o sargento lhe perguntasse se sabia onde comprar papel de seda.
- Ó nosso primeiro, para que raio quer você isso? Vai oferecer prendas a alguém?
- Sei lá, meu capitão, isso gostava eu de saber. Foi o pessoal que pediu cinquenta folhas e só disseram que era surpresa.
- Bom, se não houver na intendência, procure na papelaria civil - disse André resmungando: - Ora esta?! Papel de seda na mata quer dizer que cacimbaram completamente.
No regresso à companhia, o Castanheira lá trouxe um volumoso embrulho e tentou deslindar o mistério:
- Olhem que o nosso capitão não achou piada à encomenda... Mas, afinal, qual é a vossa ideia?
- Não se meta nisso, meu primeiro, que amanhã logo vêem - respondeu o Zig, com os olhos reluzentes. - Diga só quanto custou que a gente paga já.
E assim foi, embora o intrigado sargento ainda insistisse em informarem o comandante da companhia “do que andam para aí a arquitectar, não vá ser asneira e dar para o torto. Depois queixem-se e digam que não vos avisei! Tenham cuidado que ele também já anda farto desta merda e não está para aturar números de circo.”
Nessa noite houve quem não se deitasse e, ao nascer do dia, os mais dorminhocos acordaram com gritos de “vamos lançá-lo, vamos lançá-lo!” Estremunhados, alguns graduados esfregavam os olhos sem acreditarem no que viam, e miravam de relance o capitão atónito, à espera de uma reacção que tardava.
Sobre a companhia pairava no ar um enorme papagaio de papel, ondulando em cabriolas caprichosas, como se hesitasse em ganhar altura.
- Cuidado! Não o deixem cair que se rasga - gritou André, correndo finalmente em direcção aos que, à frente, puxavam pelo cordel contra o vento.
Após várias correrias e alguns sustos, a enorme joeira colorida elevou-se devagarinho, soprada pela brisa ligeira da manhã. Era lindo de se ver. E os homens, para melhor a olharem, sentaram-se no chão com os braços esticados para trás, a servir de encosto, pasmados.
Dir-se-ia que até as suas vidas ancoravam no tempo, com o pensamento suspenso na guita que sustinha o papagaio de papel. À deriva, vasculharam o casco submerso das recordações esquecidas que, de muito fundo, emergiam.
Pensariam na infância feliz que a dureza da guerra tão depressa apagara? Alguns, com certeza. Mas quase todos se limitavam a gozar o desconcertante espectáculo que ofereciam a si próprios, comungando o prazer da representação colectiva em que eram espectadores intervenientes, como se de uma liturgia se tratasse. Deleitados, não pensavam em nada. A não ser mergulhar naquele jogo infantil, em liberdade. Para sempre.
O dia escorreu por dentro deles, fora daquela guerra que não queriam, numa viagem fantástica e ingenuamente encantada.
Ao entardecer, o papagaio ainda pairava sobre a companhia, dando a sensação de protecção absoluta que só o útero materno transmite. Até que sobreveio o crepúsculo, a hora em que a natureza perde transparência e se prepara para outro ciclo.
O encanto quebrou-se com a primeira detonação, logo seguida de outras. Ouviram-se disparos sucessivos, como num arraial de fogo de artifício, com as balas tracejantes aferindo o tiro ao alvo em que, cumprida a sua missão, a joeira se transformou.
Esfrangalhada, rasgada pelo impacte dos projécteis, desfez-se em tiras de papel sopradas pelo vento, descendo suavemente sobre a mata. Talvez fosse uma tentativa inútil de apaziguar os atiradores zangados, desiludidos. É que os brinquedos das crianças têm destas coisas: uma maneira própria de serem objectos transfigurados em sujeito do jogo iniciático da vida. Afinal o papagaio abatido não passava de papel rasgado. Mas seria somente isso? Talvez não...
Nessa noite quase não trocaram palavra, tardando em adormecer nos seus leitos de solidão, aconchegando a criança que neles redescobriram, sem encontrarem explicação para a sanha destruidora que a avassalara. Demoraram a levantar-se, tristonhos.
Álvaro Fernandes in "Kianda o rio da sede", Dinossauro, Lisboa 1996
Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão.
Porque os outros têm medo mas tu não.
Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.
Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.
Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.
Sophia de Mello Breyner
Este ano não comemoro o 25 de Abril.
Trinta e quatro anos depois de nele ter participado, não encontro nada que justifique a minha presença, salvo recordar-vos [nos postais a seguir] o que então aconteceu.
Os ideais que defendi , e defendo, foram de tal modo adulterados e vilipendiados que receio cruzar-me com alguma “personalidade” ou personagem responsável pelo “estado a que isto chegou” como exemplarmente disse Salgueiro Maia, referindo-me agora eu aos responsáveis ressuscitados ou arrivistas que por aí pululam.
Sob pena de rapar da bengala que já caiu em desuso e poderia acarretar-me incómoda passagem pelo governo civil, fico por aqui convosco.
De qualquer forma, e para que não haja equívocos:













