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quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

E ainda têm a lata de dizer que a crise foi inesperada



Curioso, não é? 142 Anos depois... E logo vindo de quem vem...!

"Os donos do capital vão estimular a classe trabalhadora a comprar
Bens caros, casas e tecnologia, fazendo-os dever cada vez mais, até
que se torne insuportável. O débito não pago levará os bancos à
Falência, que terão que ser nacionalizados pelo Estado"

Karl Marx, in Das Kapital, 1867


terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

DURÁVEL, ESTÁVEL, MAS NÃO FIÁVEL

O euro comemorou 10 anos de vida no dia 1 de Janeiro de 2009. Para celebrar a efeméride, a revista The Economist recordou recentemente a entrevista publicada em 1999 no Financial Times a Paul Volcker onde este notava pontos de semelhança entre o mercado global de capitais e um vasto mar que sofre de ocasionais tempestades. Volcker, um ex-presidente da Federal Reserve e agora um dos conselheiros de Barack Obama, recomendava que quando as águas se tornam agitadas era muito mais seguro embarcar num navio grande. Um majestoso paquete pode navegar serenamente através da tempestade que poderia virar de quilha para o ar um pequeno barco por muito estável que este fosse.
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Realmente, é oportuno recordar esta entrevista, porque Volcker falava poucos meses depois do colapso do banco tailandês Thai baht dar início à grande crise financeira asiática, e alguns meses antes do lançamento do euro, ao qual o entrevistado se referiu com algumas reservas. Uma década depois, o euro demonstrou a vantagem do tamanho para navegar em águas revoltas. Enquanto as pequenas economias são sacudidas pelas tempestades financeiras que se seguiram ao colapso do banco Lehman Brothers em Setembro (Islândia, Irlanda, Dinamarca, por exemplo), as moedas com dimensão global, como o euro e o dólar, eram as mais estáveis.
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O que se pode dizer, após esta primeira década de vida, é que o euro atravessou vários testes de resistência. As previsões de que a zona euro não sobreviveria mais do que dois ou três anos mostraram-se infundadas. Nem o euro é uma moeda fraca, como alguns temeram, principalmente os eurocépticos ingleses. A gestão monetária exercida pelo Banco Central Europeu (BCE), embora decalcada da política monetária do Banco Federal Alemão, tem dado melhores resultados do que a versão original em termos de baixa inflação.
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Do ponto de vista da estabilidade económica, o euro tem sido um evidente sucesso. Se alguma causa de desapontamento existe é apenas a de que, embora seja estável e fiável, não tem proporcionado crescimento económico rápido da zona euro. A esperança, quando do lançamento do euro, era que os países, sem moeda própria que pudessem desvalorizar livremente, teriam de competir entre si e que essa competição criaria mercados mais flexíveis e maior produtividade. Porém, como se viu, houve pouco crescimento das economias da zona euro nestes dez anos. As remunerações dos europeus da zona euro têm-se mantido em cerca de 70% das equivalentes americanas.
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A pergunta que eu avanço é a seguinte: A que se deve tal marasmo? Talvez o euro tenha criado um paraíso demasiado seguro e demasiado estável. Parcialmente abrigada dos turbilhões do capital estrangeiro instável, os estados membros têm permanecido sob menos pressão para se dinamizarem e inovarem. Se esta opinião for verdadeira, a causa desse marasmo não recai inteiramente sobre a moeda única. A sua criação e a maior parte da primeira década coincidiram com a “Grande Moderação”, como sugere The Economist, um período relativamente longo de estabilidade e de baixa inflação – e portanto de baixos custos financeiros – nos países desenvolvidos europeus. Mas os investidores e os bancos, que antes subvalorizaram os riscos, estão agora a cobrar pesadamente por eles (spreads, juros), o que afectará as empresas e os governos da zona euro, com reflexos condicionados no exterior.
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A crise financeira tem outra consequência. A despeito da fraqueza do dólar nos últimos meses, o euro terá de lutar para disputar ao dólar a sua posição de principal divisa de reserva mundial. Embora o euro tenha ganho em valor relativamente ao dólar, até agora, em parte porque o BCE tem sido muito relutante em seguir a Reserva Federal a caminho do juro zero. Mas o dólar saiu-se bem no ponto mais alto da tempestade financeira, em Outubro, quando o pânico entre os investidores estava no ponto mais alto. A divisa americana ainda tem vantagens importantes frente ao euro, tais como resiliência, confiança dos mercados, aceitação dos investidores.
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Portanto, o euro demonstrou ser seguro para quem está na zona euro em tempos de crise. Mas quão atraente é o euro para outsiders? O euro aguentou melhor a pressão dos mercados do que divisas ligadas a economias mais pequenas e menos diversificadas. O euro é apelativo por causa do tamanho da zona euro, da estabilidade política e da política monetária estável e segura. Mas sob a tempestade financeira que teve origem nos EUA, o dólar recuperou parte do seu valor cambial contra o euro precisamente em Outubro, quando a crise financeira estava ao rubro. Como se poderá compreender tal facto? Encontrei a resposta, por mero acaso, num artigo dedicado ao tema no Financial Times. O que se segue é um resumo, ou pelo menos é o que me pareceu relevante.
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A atracção do dólar como divisa de reserva é, em parte, um benefício da sua incumbência, ou seja, da sua utilização como moeda de referência. A nota verde é responsável por cerca de dois terços das reservas em divisas a nível global, comparadas com um quarto para o euro. Fora da União Europeia, o grosso das vendas através das suas fronteiras são facturadas e negociadas em dólares. Um terço exactamente da zona euro ainda negoceia com o mercado exterior em dólares. O dólar ainda domina as transacções globais de divisas – o que constitui um bom guia para avaliar o seu uso como “divisa de referência” em actividades comerciais entre economias, grandes ou pequenas.
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Segundo alguns comentadores, o euro não pode desafiar a posição hegemónica do dólar enquanto permanecer como uma moeda sem um estado. O euro não pode rivalizar com a liquidez oferecida aos mercados pelo American Treasury, que tem um único emissor. O euro tem 16 governos emissores de obrigações de mercados. As obrigações só serão úteis se poderem ser convertidas rápida e economicamente em moeda. No que se refere ao euro, só o mercado das obrigações alemãs satisfaz este requisito de liquidez mas os outros congéneres europeus não têm dimensão suficiente.
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Este problema da liquidez é produzido pelo receio de incumprimento de algumas das obrigações da zona euro, diz Stephen Jen, um analista de moeda do Banco Morgan Stanley, citado pelo Financial Times.
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A discriminação que agora, depois da crise financeira global, os mercados fazem entre os diversos créditos da zona euro é muito bom. Mas também demonstra que os investidores vêem o mercado financeiro do euro como fragmentado, o que desvaloriza a moeda como divisa de reserva. As dúvidas sobre os méritos de manter reservas em euros foram levantadas pela [alegada] fraca coordenação europeia de políticas financeiras – desde garantias de depósito até garantias bancárias e critérios fiscais – em resposta à crise de crédito.
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A lição que os bancos centrais asiáticos tiraram da actual crise financeira é que, quando as respectivas moedas estavam sob pressão, eles necessitaram de liquidez imediata para pagamentos ao exterior. É nesse momento crítico que o vigor duma divisa de reserva é testada e o dólar satisfez esse teste melhor do que o euro.
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O euro pode ainda conquistar algum terreno como segunda moeda de reserva, sem contudo disputar o primeiro lugar do dólar, mas à custa de divisas mais pequenas que hoje já funcionam como moedas para pequenas reservas como a libra e o franco suíço. O mais importante legado do euro para a história da economia está na área euro em si. O seu estatuto, demonstrado com a crise actual, de um paraíso abrigado da tempestade financeira tranquilizou muitas vozes que habitualmente culpam o euro e o BCE por todas as doenças das economias europeias. Se esta estabilidade se mantiver e o euro atravessar a crise actual incólume, então a confiança no euro será definitivamente consolidada. Em consequência disso, os políticos de todo o mundo poderão olhar com mais atenção para dentro dos respectivos países para criar novas soluções para os problemas que afectam as suas economias. Por isso, a discriminação actual do euro pelos mercados financeiros pode sugerir novos caminhos aos políticos europeus.
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Tudo o que se diz acima leva-nos a uma conclusão: o euro não poderá ascender a uma divisa de reserva no actual quadro político, embora esteja hoje colocado num lugar honroso no conjunto das divisas mais presentes nas trocas comerciais globais, que colocadas por ordem são: dólar, euro, yen, esterlino, iuan.
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O euro só poderá rivalizar com o dólar quando tiver um só emissor e um só gestor, portanto entidades equivalentes às americanas Bank of América e Federal Reserve. Então, se a minha conclusão está correcta, a dificuldade não é financeira. É política. Assim sendo, a melhor solução, em eficácia e rapidez, seria transformar a União Europeia em Federação de Estados Europeus.

A realidade, esse problema...

Em "Being There", de Hal Ashby, Peter Sellers enfrenta a realidade com um comando à distância com que procura "mudar de canal" quando o "programa" não lhe agrada.
Em Outubro, o mundo estava a desmoronar-se e o Juízo Universal do sistema financeiro internacional em curso.
Mas, em estado de negação, o Governo elaborou o Orçamento de 2009 (375 páginas de céu alto e primaveril, aves a chilrear) apenas vendo à sua frente, como os namorados de "Il Giudizio Universale", de De Sica, o baile eleitoral. Só quando a água já lhes dava pela barba é que Governo e BdP começaram a falar em recessão.
Tinha o Orçamento meia dúzia de dias e o Governo teve que preparar outro, "suplementar", de novo desesperadamente fazendo "zapping" e tentando exorcizar a realidade. Mais meia dúzia de dias e as previsões de défice, crescimento e desemprego eram outra vez desautorizadas pela realidade (e pela UE).
E ontem, o perplexo governador do BdP já admitia previsões "mais negativas" do que as de… há duas semanas.
A realidade tem esta desconcertante característica: não desliga por mais que se carregue no botão cor-de-rosa.
Manuel António Pina
in JN

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Nada os salvará

De forma brutal, a crise do capitalismo aí está a abanar o sistema financeiro mundial, pondo a nu toda a fragilidade do sistema social que lhe está inerente, baseado na exploração do homem pelo homem.
Trinta anos bastaram para fazer ruir todo edifício teórico e prático neoliberal. Poucas vezes na história da humanidade uma ideologia terá entrado em falência num espaço temporal tão reduzido e com tanto estrondo – os activos evaporam-se, os bancos e seguradoras não param de falir e a indústria estagna, podendo lançar no desemprego mais de 20 milhões de trabalhadores só no próximo ano.
A crise, que hoje todos reconhecem, já começou a abater-se implacavelmente sobre a classe operária, a mais exposta ao desemprego e aos baixos salários. Mas todas as outras classes trabalhadoras também vão ser duramente atingidas com o fecho de empresas, redução do investimento, baixa salarial, altas taxas de juro e maior dificuldade no acesso ao crédito, desemprego em massa, precariedade. Um enorme vazio se desenha para a vida de milhões de jovens pela ausência de um futuro de trabalho realizador.
Os sinais da crise do sistema capitalista tornaram-se visíveis desde que, no ano passado nos EUA, rebentou a “bolha imobiliária” e a banca deixou de ter liquidez pelo simples facto de as pessoas, endividadas até ao pescoço e acossadas pela subida especulativa das taxas de juro e a degradação das condições de vida, terem deixado de poder pagar as prestações relativas aos empréstimos contraídos.
Mas o regabofe de banqueiros, gestores e outros ladrões continuou como se vivessem no melhor dos mundos. Sabe-se agora que muitos milhões foram directos para as suas fortunas pessoais.
Esta é uma crise de excessos – excesso de produção, excesso de liquidez, de capital fictício, excesso de dívida. Uma crise também provocada pelas guerras de rapina das matérias-primas, em particular o petróleo do Médio Oriente, conduzidas pelos EUA com o apoio da União Europeia. Não lhes importa os milhões de mortos e miseráveis que a sua ganância furiosa vai deixando pelo caminho! Guerras baseadas no embuste e na mentira, como foi o caso do Iraque.

O CAPITALISMO ESTÁ A MAIS

A crise em Portugal é evidente nos 600 mil desempregados (reais), nos dois milhões de pobres, nos cerca de dois terços de famílias com quatrocentos euros mensais, no milhão de trabalhadores precários, nos 400 mil trabalhadores que sobrevivem acumulando dois e três empregos para se alimentarem e poderem pagar as suas hipotecas, nos que têm de emigrar para alimentar os filhos, nas pensões e reformas de miséria. Enquanto as grandes famílias exploradoras, os Belmiro, os Amorim, os Berardo, os Jerónimo Martins, os Teixeira Duarte, a Somague, etc. somam lucros fabulosos com a especulação financeira e o empobrecimento de todos nós, assistimos à cumplicidade do governo com a Galp, ofere¬cendo-lhe lucros especulativos. Ou ainda o escândalo dos ordenados e reformas milionárias dos gestores públicos e privados, de que são exemplo Constâncio, no Banco de Portugal, os ex-ministros e secretários de Estado colocados na Caixa Geral de Depósitos, Teixeira Pinto no BCP, etc.
Nem mesmo a gravidade da crise financeira, que tem engolido como um buraco negro as sucessivas injecções às centenas de milhões nos sistemas económicos e financeiros, atrapalha a devota e cúmplice solidariedade do governo com o grande capital e os especuladores, de que é exemplo a corrida de Sócrates em socorro dos vigaristas do BPN com 4 mil milhões na mão. Em vez de os responsabilizar e de os fazer pagar a crise que provocaram com a sua ganância e trapaças, Sócrates prefere fazer-nos a nós, os de baixo, pagar a crise, socializando os prejuízos mas sem tocar nas fortunas e mantendo os lucros privados.
Este estado de coisas revelou de forma crua aquilo que há muito os comunistas dizem: o sistema capitalista não pode deixar de produzir crises cíclicas, porque o mercado não pode ser outra coisa senão uma selva reprodutora de ricos cada vez mais escandalosamente ricos à custa da suprema miséria da população mundial. É hora de dizer abertamente aos operários e a todos os trabalhadores: o capitalismo está a mais, precisamos de criar uma sociedade avançada em que o trabalho e as necessidades sociais de cada um sejam os únicos factores a considerar na distribuição da riqueza produzida. Basta de crises! Basta de parasitas!
A luta firme e sacrificada tem de ter como objectivo pôr fim ao capitalismo, o que requer a maior unidade possível entre todos os operários e restantes trabalhadores, sendo que cabe aos operários dirigir a luta e não ir a reboque da inconsequência da pequena burguesia. Uma unidade feita por baixo, na e para a acção, e não por cima, entre direcções sindicais, partidárias…
A crise do sistema capitalista é internacional e, por esse motivo, a luta a travar deve ser solidária com a luta dos trabalhadores de todo o mundo.
A alternativa nunca poderá vir da direita (PS/PSD/CDS). Juntos ou separados, são os mais fiéis representantes do grande capital.
Há sectores da esquerda moderada e os eternos reformistas do PCP que ambicionam participar num governo de esquerda em substituição do governo de direita do PS. Sem dúvida que derrubar o governo do PS é um imperativo, porque a sua política tem comprovado ser contra os trabalhadores e pró-imperialista. Estamos de acordo em derrotá-lo como um passo fundamental, para que a luta dos trabalhadores ganhe ânimo e força, mas alertamos para que um rearranjo de forças políticas no poder significa apenas a mudança de moscas e a defesa de soluções que servem os interesses do pequeno e médio capital. O nosso esforço deve levar-nos a lutas de carácter superior visando o fim do capitalismo e nessa perspectiva lutaremos juntos com quem se puser do lado do proletariado.
Nenhuma ilusão numa qualquer regeneração da União Europeia, ou que se possa ultrapassar a crise mantendo-se o capitalismo como sistema económico. Golpear o inimigo e avançar para novas batalhas. Apoiaremos todos os que se situarem nesta perspectiva.

É POSSÍVEL DERROTÁ-LOS

As economias de grande porte: EUA, Alemanha, França, etc., estão em recessão. Vão tentar salvar-se descarregando todo o peso da crise sobre as costas dos trabalhadores, mas nada os salvará se a oposição operária compreender que é possível derrotá-los, tal como a história do movimento operário nos indica em períodos de crise dos exploradores.
É preciso continuar a luta contra o Código Laboral, a precariedade, pelo pleno emprego. Fazer a banca, as seguradoras e os ricos pagar a crise!
Lutar por juros baixos à habitação. Não às hipotecas compulsivas e aos vergonhosos leilões de casas!
Pela semana de horário máximo de 40 horas e pelo pagamento integral das horas extraordinárias!
Pelo salário mínimo de 500 euros. Salário máximo igual ao de primeiro-ministro.
Pelo aumento das pensões e das baixas reformas.
Contra o encerramento das empresas, expropriação dos capitais dos patrões. Nacionalização sem indemnização imediata da Galp.
Pelo derrube do governo do Sócrates!
Portugal fora da Nato! Não à utilização da Base das Lajes pelos EUA como plataforma de agressão aos povos e anulação do acordo!
Abaixo o capital e o imperialismo!

Política Operária
Novembro de 2008

Recebido por email

sexta-feira, 31 de outubro de 2008

AS MUDANÇAS ESTRUTURAIS NA ECONOMIA MUNDIAL

Vários especialistas independentes (exteriores ao sistema financeiro institucionalizado) afirmaram que a actual crise se deve à “actividade financeira criativa”, eufemismo que se refere à mais moderna actividade financeira que os seus criadores julgavam sustentável. Mas não era sustentável porque era apenas virtual. Só existia dentro dos computadores.
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É a esta invenção moderna, perto dos jogos de computador que diverte os jovens de hoje, que João Caraça, professor universitário e director do Serviço de Ciência da Fundação Gulbenkian, se refere neste extracto do artigo publicado no diário Público.
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Mas a actual crise financeira tem o seu reverso: abre uma janela de oportunidade que é necessário aproveitar.
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A maior parte das pessoas parece esquecida de que a crise financeira e económica de 1930 teve um papel fundamental na preparação de uma nova infra-estrutura técnico-económica baseada na produção industrial em massa e no consumo de petróleo barato. E de que passámos por uma situação semelhante a essa há pouco mais de duas décadas (a crise dos anos de 1980, que se seguiu às chamadas “crises do petróleo” de 1973 e 1979) em que se criaram as bases da actual sociedade da informação.
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A crise de agora é do mesmo tipo e anuncia já uma nova alteração estrutural da economia global. Por outras palavras, a crise é, mais uma vez, de passagem, preparação e selecção dos vencedores da próxima grande mudança estrutural da economia mundial que virá dentro de 10 a 20 anos. Esta crise financeira resultou em grande medida do desprezo pelos manuais de economia, que afirmam claramente que as finanças são a actividade económica que medeia entre a poupança e o investimento. E que não se podem dissociar as finanças da economia “real”, que é a actividade complementar daquela: a transformação de investimento em poupança. Se desvalorizarmos este facto podemos até julgar que as finanças são autónomas e que estas orientam toda a actividade económica. Daí a considerar que a força de trabalho deve servir totalmente os interesses hegemónicos das finanças vai apenas um pequeno passo, que gera por sua vez o desprezo pelo trabalho humano.
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E, como alguns “grandes especialistas” que agora se lamentam (mas não devolvem as mais que chorudas reformas e benesses que auferiram) pode-se, à sombra do poder geopolítico das esquadras navais e aéreas norte-americanas, seduzir meio mundo e confiar-lhes as suas poupanças para desenvolver negócios “sofisticados” de alto rendimento. Só que muitas dessas aplicações financeiras eram uma versão de “Wall Street” do negócio da D. Branca. Eram puras abstracções. Não eram sustentáveis. Mas como foi possível que ninguém desconfiasse?
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Por este motivo a palavra “confiança” voltou com tanta força à ribalta. As instituições americanas de gestão do risco financeiro foram abaladas. Aguentarão? Ou haverá noutras regiões do mundo instituições e redes que saibam tirar partido desta crise e se perfilem para convencer o mundo de que conduzirão melhor os riscos e as oportunidades que surgirão na próxima grande transformação estrutural? Infelizmente não é o futuro que o dirá. É a visão estratégica e a capacidade de o anteciparmos, hoje. De que estamos à espera? Não há tempo a perder.

sábado, 18 de outubro de 2008

SARKOZY QUER REFORMA GLOBAL DO SISTEMA FINANCEIRO

Nicholas Sarkozy com o Primeiro Mministro Canadiano Stephen Harper.

Uma melhor regulação do capitalismo para prevenir futuras crises financeiras. Esse é o ponto essencial de uma cimeira internacional que a União Europeia quer organizar até ao fim do ano.
Nicolas Sarkozy e Durão Barroso estiveram no Canadá onde a ideia recebeu o apoio do Governo local, a poucas horas de se encontrarem com George W. Bush em Washington.

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Sarkozy quer que pelo menos a China e a Índia estejam presentes na cimeira. “Penso que é muito importante que o Canadá e a Europa defendam as mesmas convicções, que tenham os mesmos valores na cimeira que deverá redefinir o capitalismo, que deverá reorganizar um sistema financeiro mundial”, disse o chefe de Estado francês e prsidente em exercício da UE.

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Por seu lado o presidente da Comissão Europeia Durão Barroso esteve em sintonia ao afirmar que “essa reforma global é a melhor forma de resistir às tendências proteccionistas que o primeiro-ministro Harper e o presidente Sarkozy apresentaram como uma ameaça que nós devemos combater”.

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Os esforços da presidência francesa da UE em conjunto com a Comissão Europeia para dar início ao debate de uma reformulação do sistema financeiro mundial surgem depois de mais uma semana atribulada nos mercados bolsistas.No entanto, a maioria das bolsas europeias fechou esta sexta-feira com tendências mais positivas depois de terem sido tomadas uma série de medidas para devolver confiança aos mercados.
EuroNews

Comentário meu: Depois de casa roubada, trancas à porta. Mas mais vale tarde do que nunca (diabo, hoje sinto-me uma antologia de aforismos populares!). É necessário aprender com as más experiências e modificar o sistema se este evidenciar fraquezas estruturais. Um regulamento com quase cem anos poderá não ter aptidão para funcionar no Século XXI.

SE O CAPITALISMO MORRESSE

Antevisão do que aconteceria se o capitalismo morresse devido à crise económica: uma loja de souvenirs para saudosistas. Um nicho de mercado a explorar segundo o proprietário da loja, o que demonstra uma opinião interesseira, tipicamente capitalista, e isenta de ideologia.
The Economist

quinta-feira, 29 de maio de 2008

SÓ SE SAFA O PAPAGAIO

Daqui a 10 anos

Um menino regressa da escola cansado e faminto e pergunta à mãe:
'Mamã, que há de comer?'
'Nada, meu filho.'
O menino olha para o papagaio, que têm na gaiola, e pergunta:
'Mamã, porque não há papagaio com arroz?'
'Porque não há arroz.'
'E papagaio no forno?'
'Não há gás.'
'E papagaio no grelhador eléctrico?'
'Não há electricidade.'
'E papagaio frito?'
'Não há azeite.'
E o papagaio contentíssimo gritava:

- VIVA SÓCRATES !!! VIVA SÓCRATES

posted by Francisco Trindade @ 08:42

sexta-feira, 16 de maio de 2008

A CRISE

A crise americana (explicação útil, fácil, simples e curta)

Paul comprou um apartamento, no começo dos anos 90, por 300.000 dólares, financiado em 30 anos. Em 2006 o apartamento do Paul passou a valer 1,1 milhão de dólares. Aí, um banco perguntou pr’ó Paul se ele não queria uma grana emprestada, algo como 800.000 dólares, dando seu apartamento como garantia. Ele aceitou o empréstimo, fez uma nova hipoteca e pegou os 800.000 dólares.

Com os 800.000 dólares Paul, vendo que imóveis não paravam de valorizar, comprou 3 casas em construção dando como entrada algo como 400.000 dólares. A diferença, 400.000 dólares que Paul recebeu do banco, ele comprometeu: comprou carro novo (alemão) pr’a ele, deu um carro (japonês) para cada filho e com o resto do dinheiro comprou TV de plasma de 636 polegadas, 43 notebooks, 1634 cuecas. Tudo financiado, tudo a crédito. A esposa do Paul, sentindo-se rica, sentou o dedo no cartão de crédito.

Em Agosto de 2007 começaram a correr boatos que os preços dos imóveis estavam caindo. As casas que o Paul tinha dado entrada e estavam em construção caíram vertiginosamente de preço e não tinham liquidez.

O negócio era refinanciar a própria casa, usar o dinheiro para comprar outras casas e revender com lucro. Fácil....parecia fácil. Só que todo mundo teve a mesma ideia ao mesmo tempo. As taxas que o Paul pagava começaram a subir (as taxas eram pós-fixadas) e o Paul percebeu que seu investimento em imóveis se transformara num desastre. Milhões tiveram a mesma ideia do Paul. Tinha casa pr’a vender como nunca.

Paul foi aguentando as prestações da sua casa refinanciada, mais as das 3 casas que ele comprou, como milhões de compatriotas, para revender, mais as prestações dos carros, as das cuecas, dos notebooks, da tv de plasma e do cartão de crédito.

Aí as casas que o Paul comprou para revender ficaram prontas e ele tinha que pagar uma grande parcela. Só que neste momento Paul achava que já teria revendido as 3 casas mas, ou não havia compradores ou os que havia só pagariam um preço muito menor que o Paul havia pago. Paul se danou. Começou a não pagar aos bancos as hipotecas da casa que ele morava e das 3 casas que ele havia comprado como investimento. Os bancos ficaram sem receber de milhões de especuladores iguais a Paul.

Paul optou pela sobrevivência da família e tentou renegociar com os bancos que não quiseram acordo. Paul entregou aos bancos as 3 casas que comprou como investimento perdendo tudo que tinha investido. Paul quebrou. Ele e sua família pararam de consumir.

Milhões de Pauls deixaram de pagar aos bancos os empréstimos que haviam feito baseado nos preços dos imóveis. Os bancos haviam transformado os empréstimos de milhões de Pauls em títulos negociáveis. Esses títulos passaram a ser negociados com valor de face. Com a insolvência dos Pauls esses títulos começaram a valer pó.

Biliões e biliões em títulos passaram a nada valer e esses títulos estavam disseminados por todo o mercado, principalmente nos bancos americanos, mas também em bancos europeus e asiáticos.

Os imóveis eram as garantias dos empréstimos mas esses empréstimos foram feitos baseados num preço de mercado desse imóvel, preço que despencou. Um empréstimo foi feito baseado num imóvel avaliado em 500.000 dólares e de repente passou a valer 300.000 dólares e mesmo pelos 300.000 não havia compradores.

Os preços dos imóveis eram uma bolha, um ciclo que não se sustentava, como os esquemas de pirâmide, especulação pura. A insolvência dos milhões de Pauls atingiu fortemente os bancos americanos que perderam centenas de biliões de dólares. A farra do crédito fácil um dia acaba. Acabou.

Com a insolvência dos milhões de Pauls, os bancos pararam de emprestar por medo de não receber. Os Pauls pararam de consumir porque não tinham crédito. Mesmo quem não devia dinheiro não conseguia crédito nos bancos e quem tinha crédito não queria dinheiro emprestado.

O medo de perder o emprego fez a economia travar. Recessão é sentimento, é medo. Mesmo quem pode, pára de consumir.

O FED (Banco Central Americano) começou a trabalhar de forma árdua, reduzindo fortemente as taxas de juros e as taxas de empréstimo interbancários. O FED também começou a injectar biliões de dólares no mercado, provendo liquidez. O governo Bush lançou um plano de ajuda à economia sob forma de devolução de parte do imposto de renda pago, visando incrementar o consumo porém essas acções levam meses para surtir efeitos práticos. Essas acções foram correctas e, até agora não é possível afirmar que os EUA estão tecnicamente em recessão. O FED trabalhava. O mercado ficava atento e as famílias esperançosas.

Até que, recentemente, o impensável aconteceu. O pior pesadelo para uma economia aconteceu: a crise bancária, bolsistas correndo para sacar suas economias, boataria geral, pânico. Um dos grandes bancos da América, o Bear Stearns, amanheceu, na segunda-feira última, quebrado, insolvente.

No domingo o FED, de forma inédita, fez um empréstimo ao Bear, apoiado pelo JP Morgan Chase, para que o banco não quebrasse. Depois disso o Bear foi vendido para o JP Morgan por 2 dólares por acção. Há um ano elas valiam 160 dólares. Durante esta semana dezenas de boatos voltaram a acontecer sobre quebra de bancos. A bola da vez seria o Lehman Brothers, um bancão. O mercado e as pessoas seguem sem saber o que nos espera na próxima segunda-feira.

O que começou com o Paul hoje afecta o mundo inteiro. A coisa pode estar apenas começando... Só o tempo dirá!

Recebido por email

segunda-feira, 17 de março de 2008

ALAN GREENSPAN E A CRISE FINANCEIRA ACTUAL

A crise financeira actual poderá ser considerada como a mais grave desde a Segunda Guerra Mundial, afirma o ex-governador do banco central norte-americano (a Reserva Federal, conhecida por Fed) num artigo publicado hoje no “Financial Times”.
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“A actual crise financeira nos Estados Unidos vai ser verdadeiramente considerada como a mais grave desde o fim da Segunda Guerra Mundial”, considera Alan Greenspan, que presidiu à Reserva Federal de 1987 a 2006.
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“Ela chegará ao fim quando o preço dos bens imobiliários estabilizar e, por inerência, os preços dos produtos financeiros ligados aos empréstimos hipotecários”, estima.
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Segundo Greenspan, “esta crise fará numerosas vítimas, e o sistema de avaliação de riscos actualmente no terreno será particularmente afectado”.
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“Mas espero que uma das vítimas não seja o sistema de supervisão mútua (através dos actores e intervenientes do sector financeiro) e a auto-regulação financeira como mecanismo fundamental de equilíbrio para o sector financeiro mundial”, disse também.
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O ex-governador da Fed – que já foi acusado de estar na origem da bolha imobiliária devido à sua política de taxa monetária muito baixa, seguida pela Fed entre 2001 e 2004 – estima igualmente que nunca haverá um sistema perfeito para avaliação de riscos.
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“A gestão de risco nunca atingirá a perfeição e chegará sempre o momento onde fracassará e uma verdade incomodativa será posta a nú, provocando uma resposta inesperada e brutal”, escreve Greenspan.
The Economist, em edição inglesa.
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Comentário meu:
Parece-me que a globalização e a mobilidade incontrolada [e irresponsável] de capitais só convém aos muito ricos e às empresas, americanas e europeias, que controlam grandes massas de capital provenientes dos seguros de saúde e de fundos de aposentação. Esses fundos constituem volumes financeiros astronómicos, estão parados e estão imediatamente disponíveis para qualquer aplicação momentânea.
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Ao aprovar a globalização, os amigos dessas empresas instalados no poder político, entre os quais o actual presidente americano, estão na origem da actual interdependência das economias. Mas a globalização, embora muito sedutora pela promessa de elevados lucros em época de vacas gordas, tem um preço: Se o ambiente financeiro for contaminado, em época de vacas magras, pelo vírus chamado “Crise Financeira” haverá um inevitável processo de contágio e todas as economias se enterrarão na inflação, ou na estagnação, ou ambos simultaneamente. Os grandes senhores da globalização e seus lacaios políticos almejavam os grandes lucros para capitais estáticos que pedem aplicações mas aparentemente não se lembraram que a globalização é uma faca de dois gumes: um é o dos lucros, o outro é o da inflação e da estagnação.
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Neste momento, que é o momento da verdade, todos eles deitam as mãos à cabeça e gritam em pânico que o vírus da “Crise” devorará grandes volumes de capital. Para eles esta situação é comparável ao momento do juízo final em que serão condenados ao fogo do inferno pelos pecados cometidos em vez do paraíso capitalista que tantos desejavam alcançar. Muitos deles serão condenados a perder o dinheiro que manejavam como mágicos em operações de especulação, enquanto que muitos bancos e seguradoras serão condenados à falência.

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Mas os grandes senhores do dinheiro não merecem a nossa simpatia. Todos eles têm alternativas e nenhum deles se transformará em "sem-abrigo". As verdadeiras vítimas serão os que viviam de um salário magro e contado, os que serão despojados do emprego e da casa que pagavam e que serão atirados para a rua sem contemplações pelos mesmos bancos e seguradoras que antes se dedicavam à volúpia da especulação.
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Este modelo de economia capitalista está a esgotar-se e o planeta não a suportará por muito tempo. É necessário um novo modelo de economia menos oportunista, menos predadora de recursos naturais e, principalmente, com ética, porque este não tem ética alguma. Este objectivo só será alcançado quando a economia se reger por critérios humanos e se destinar à satisfação de necessidades básicas humanas. Por outras palavras, é necessário que a economia deixe de ter como objectivo o lucro em abstracto.