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sexta-feira, 19 de setembro de 2008

Ganância...

A fórmula misteriosa
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Não sei se alguém ainda leva a sério o ministro Manuel Pinho. Pelo menos as petrolíferas não levam.
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Algumas, como a BP, fazem até questão de mostrar publicamente a importância que lhe atribuem: quando o ministro apela à descida do preço dos combustíveis respondem… subindo a gasolina.
Para já não falar da AdC, que não consegue ver qualquer cartelização nos aumentos simultâneos e em ordem unida adoptados por todas as companhias. Ou do vice-presidente da Galp (empresa onde o Estado tem uma golden-share), que, há uns meses, justificava os aumentos dos combustíveis com o aumento do crude e, agora que o crude está em queda livre, explica que não descem (desde Julho, o preço do crude caiu 38%, mas o da gasolina só desceu 4%; em Portugal, pois nos mercados internacionais desceu 23%...) porque tem uma "fórmula" para calcular os preços onde não entra só o preço do crude.
Poderia querer referir-se a factores como a refinação e os impostos. Mas esses mantêm-se inalterados e, ainda por cima, a Galp tem o monopólio da refinação.
Na "fórmula" deve entrar, pois, outro factor.
Eu aposto na ganância.
Manuel António Pina
in JN

sexta-feira, 6 de junho de 2008

A Febre do Lucro...

Ganância
Há uns batoteiros que fazem fortunas todos os dias a especular com bens essenciais nas bolsas de valores. O preço desta ganância vai subindo em cadeia até ao elo mais fraco: o consumidor pobre e desventurado.
Um pavão qualquer, a banhos de sol no seu iate, dá umas ordens de compra e venda entre duas passas num charuto e o arroz desaparece das escudelas das crianças africanas em agonia de fome.
O capitalismo exprime-se nos nossos dias como uma sociopatia à escala global. O regime económico que fez crescer o Ocidente, temperado na maior parte do seu percurso por sistemas políticos democráticos, estendeu-se a novos territórios - China, Índia... - que estimulam a sua natureza ávida, amoral e feroz.
A febre do lucro campeia à rédea solta, violenta e sem remorso, e o mundo assusta-se.
Por que é que a China e a Índia crescem a mil à hora sob a sineta capitalista? Porque, além de possuírem mercados internos gigantescos e vorazes, os seus trabalhadores têm poucos direitos e os seus patrões poucos deveres. Eis a velha fórmula de sucesso do capital: operário dócil e miserável, amo rico e todo-poderoso.
O Ocidente, esmagado por esta avalancha perversa e avassaladora, pressente a ameaça aos seus privilégios. Mas, incapaz de ser recriar a partir da virtude, torna-se bulímico, guloso. Gula: um dos pecados capitais.
O problema é que uma democracia não pode decretar o feudalismo laboral. Pode chegar lá, mas tem que adocicar o processo. Entra em cena o eufemismo. Meus amigos, diz o empresário, vamos tornar a nossa empresa mais competitiva. Quer dizer: vai haver despedimentos. Meus amigos, diz o Governo, os trabalhadores têm que ser mais flexíveis. Quer dizer: uma mão cheia de direitos vai de uma assentada por água abaixo.
Menos direitos, mais medo. Mais medo, menos protestos. Menos protestos, mais docilidade. A fórmula mágica. Lá no alto mar, a banhos de sol no seu iate, o pavão aplaude as democracias que se submetem à voz do dono: o capital.
Mais umas quantas ordens de compra e venda, entre duas passas no charuto, e tem o dia ganho.
Fernando Marques
in JN