Manuel Baptista
http://www.luta-social.org
Esta poalha colada à pele, já asfixia
Manuel Baptista
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A trapalhada (a coisa não tem outro nome) em que o Governo se meteu por causa da intenção da PT de adquirir 30% da Media Capital (dona da TVI) teve ontem o seu mais patético episódio: o primeiro-ministro vetou a operação, por não querer que, como os maldosos vinham dizendo, se pensasse remotamente na possibilidade de o Executivo estar a manobrar no sentido de alterar a linha editorial da estação televisiva, que lhe é agreste.
Não há como uma derrota eleitoral para que os políticos desçam à terra. A aterragem forçada tem efeitos psicológicos devastadores, estando na origem de comportamentos políticos imprevisíveis e, por isso mesmo, surpreendentes.
Na noite das Eleições Europeias, José Sócrates e o PS foram derrotados.
JOSÉ Sócrates recebeu, na noite eleitoral, um duche frio de insucesso partidário e um banho gelado de alternância democrática (evento político que pensava ter afastado do seu horizonte por muitos e bons anos). Não foram só as sondagens enviesadas a favor do voto socialista que iludiram o líder do PS.
A minha vida está a tornar-se uma seca. A nível pessoal estou sem motivações, sem desafios. Preguiçoso. Desanimado.
De repente o cartão laranja a Sócrates, dado pelos eleitores que se deslocaram no passado dia 7 de Junho às urnas a pretexto das eleições europeias, voltou a colocar na agenda política a questão da governabilidade do País.
Reza a história da navegação que, ao meter água, os primeiros que abandonam o barco são os ratos. Os dos porões. Embarcam sem pagar bilhete e comem as mercadorias que nunca chegam ao porto de destino, mas sobrevivem a qualquer naufrágio. Quando lhes cheira a esturro, bóiam como a cortiça e esperam ser indemnizados como vítimas de uma boleia que pagam as companhias de seguros.
Mas não são os únicos.
Há outros que viajam em primeira classe e têm direito a todas as mordomias, inclusive serem avisados pelas capitanias que convém desembarcar antes da tempestade para onde ruma a barcaça. Exemplos? Para quê? São mais do que conhecidos, assumidos e publicitados. Até por quem hoje se dedica a pregar sermões a quem não lhe seguiu o exemplo, aconselhando pastéis de nata de Belém para compensar amarguras e outros desesperos de quem confiou na lotaria garantida de bancos chefiados por delfins de chefes.
Mas há mais: as ratazanas que pertencem à tripulação e têm acesso à ponte de comando.
Essas, são sempre mais papistas do que o Papa. E quando reparam que o comandante já não distingue bombordo de estibordo, nem a proa da ré, prometem aos embarcadiços o paraíso no inferno com medidas que nem à palha do burro do Menino Jesus lembraram, conspiram, organizam-se, dão-lhe uma facada nas costas e atiram-no pela borda fora.
Por exemplo: aquela criatura chamada ministro da economia, levando a preceito as recomendações do primeiro magistrado da Nação que preside à República consumista, já preparou uma portaria proibindo a importação de bacalhau da Noruega. Com a frota pesqueira desmantelada, sem ter sobrado nenhum bacalhoeiro, lá se vai o fiel amigo.
Mas o pequenote já tem um trunfo na manga. Em compensação, aconselha-nos a pescarmos e secarmos o peixe, assim:
O Problema é que o peixe seco é muito salgado e provoca imensa sede. E para azar nosso, outra luminária que de vez em quando se intitula ministro do ambiente, já anunciou que a água esta muito barata e o preço tem de subir, pelo menos, quinze vezes. Este, como não chegou a saber aplicar uma regra de três simples, ainda faz cálculos aritméticos, demonstrando que ignora percentagens mas sabe multiplicar.
Segundo o correspondente da Rádio Pinguim, os habitantes da Sócralândia aguardam ansiosos que o comissário da agricultura e pescas anuncie o aumento de taxas para anzóis, canas de pesca, minhocas ou qualquer outro tipo de isco.

Cheguei finalmente à Patagónia sem qualquer percalço e com uma vantagem: posso ligar a televisão sem receio de me surgir imediatamente o Pinócrates a mandar bitaites e ameaçar jornalistas com processos judiciais por causa das cabalas e campanhas negras que o responsabilizam pelo que se passa na Sócralândia desde que é primeiro-ministro, o que ele nega com veemência, jurando a pés juntos que a culpa é da oposição e, em surdina, também da cooperação estratégica que já conta 10 vetos presidenciais.
Respirando de alívio, sempre vou acompanhando à distância e tranquilamente as últimas que o correspondente da Rádio Pinguim me vai fazendo chegar. Assim, tive a alegria de saber que o Pinócrates levou uma abada daquelas que só o Benfica costuma apanhar mas, ao contrário do clube do passaroco, não mudou de treinador e mais: afirmou que não vai alterar em nada o rumo da governação que seguiu até agora.
Como desde que se instalou em S. Bento mais não tem feito do que governar à direita com políticas neoliberais, os mais incautos podem supor que vai continuar a fazer o mesmo. Mas não. Lembrem-se que o Pinócrates é useiro e vezeiro em faltar à palavra dada e não cumprir promessas feitas solenemente, antes, durante e depois das campanhas eleitorais, ou no início, a meio ou no fim da legislatura.
Portanto é fácil prever o que se vai passar daqui até às eleições legislativas: o Pinócrates vai dar uma guinada de 180º ao leme e rumar à esquerda, tão à esquerda que vai atirar o BE e o PCP para a extrema direita. Acham estranho? Estranho é terem votado nele há quatro anos.
Quem escreveu isto é um génio !
ANTES DA POSSE
O nosso partido cumpre o que promete.
Só os tolos podem crer que
não lutaremos contra a corrupção.
Porque, se há algo certo para nós, é que
a honestidade e a transparência são fundamentais.
para alcançar nossos ideais
Mostraremos que é grande estupidez crer que
as máfias continuarão no governo, como sempre.
Asseguramos sem dúvida que
a justiça social será o alvo de nossa acção.
Apesar disso, há idiotas que imaginam que
se possa governar com as manchas da velha política.
Quando assumirmos o poder, faremos tudo para que
se termine com os marajás e as negociatas.
Não permitiremos de nenhum modo que
nossas crianças morram de fome.
Cumpriremos nossos propósitos mesmo que
os recursos económicos do país se esgotem.
Exerceremos o poder até que
Compreendam que
Somos a nova política.
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«Os políticos e as fraldas devem ser mudados frequentemente e pela mesma razão.»
Eça de Queiroz