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domingo, 29 de março de 2009

Conservação das memórias da guerra colonial

Corpos de militares em 101 locais da Guiné

por Manuel Carlos Freire

A Liga dos Combatentes (LC) identificou, na Guiné-Bissau, 101 locais e localidades onde estão enterrados 623 militares, portugueses ou de origem guineense, mortos durante a guerra colonial.

A informação foi recolhida no âmbito do projecto “Conservação das Memórias”, criado e desenvolvido pela LC com o objectivo de localizar, identificar, recolher e transferir os restos mortais dos militares portugueses mortos durante a guerra nos antigos territórios ultramarinos de Angola, Moçambique e Guiné.

O processo da Guiné é o mais avançado, iniciando-se hoje, no cemitério de Gabu, os trabalhos de campo para recolha das ossadas de 17 soldados (ver caixa) oriundos da então Metrópole que ali foram enterrados e vão ser transferidos – depois de se saber, através de amostras de ADN, que nomes correspondem a que ossadas – para o cemitério de Bissau.

A equipa portuguesa é formada por oito elementos, divididos em duas componentes: uma militar, chefiada pelo coronel Sebastião Goulão, e uma científica, coordenada pela antropóloga Eugénia Cunha.

Recorde-se que as duas missões anteriores se realizaram em Guidaje (Março de 2008) e Farim (Dezembro do mesmo ano), ambas coordenadas também por Eugénia Cunha.

In DN

O grande impulsionador e primeiro responsável pela coordenação deste projecto nos antigos teatros de operações da Guiné, Angola e Moçambique foi o Major-General Carlos Manuel Costa Lopes Camilo, recentemente falecido.

segunda-feira, 2 de março de 2009

Os Anos da Guerra Colonial...

A partir de 4 de Março começará a ser distribuída com o Correio da Manhã uma obra intitulada "Os Anos da Guerra Colonial", que constará de 16 pequenos livros (média de 128 páginas), sendo um por cada ano da guerra (1961 a 1974-75) acrescido de um volume de "Antecedentes" e outro de "Índices".
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A obra tem como autores os coronéis Carlos de Matos Gomes e Aniceto Afonso e como colaboradores David Martelo, Josep Sánchez Cervelló, João Moreira Tavares e Nuno Santa Clara Gomes.
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O coronel Matos Gomes declarou:
Esperamos que esta obra contribua para o melhor conhecimento desses anos tão importantes para a História do nosso país, quer para os que participaram directamente na guerra quer para aqueles cuja vida foi por ela influenciada. Desejamos em especial que as novas gerações possam dispor de mais um elemento de interpretação da nossa História recente.

terça-feira, 29 de julho de 2008



Na base, Temudo disparava sucessivas granadas de roquete, fazendo-as bater à frente da tropa para atingi-la com os estilhaços, enquanto incitava os guerrilheiros a manterem as posições: “Ninguém retira! Fogo neles”.
Por entre aquele ruído ensurdecedor mal se ouviu a voz do Zig, “maqueiro à esquerda, maqueiro à esquerda”, logo seguida pela do alferes Dinis que insistia: “maqueiro à direita, maqueiro à direita, há dois feridos graves à direita”. Os furriéis pediam, aos gritos, ordem para as armas pesadas abrirem fogo, mas André ainda hesitou uns segundos. Mantinha a esperança que houvesse um milagre, Temudo se apercebesse que tentar resistir equivalia a um suicídio colectivo e se rendesse.
Mas, assim que se ouviu, pela terceira vez, alguém a gritar pelo maqueiro, ordenou com um brado: “Armas pesadas, fogo!”. A seguir entrou em contacto rádio com o alferes Araújo, mandando disparar os morteiros sobre a base.
Durante cinco minutos, a sucessão de explosões fez tremer a terra, arremessando corpos e árvores pelo ar, entre chamas e colunas de fumo negro.
Quando a cadência de tiro inimigo começou a diminuir, o capitão mandou suspender o fogo de armas pesadas e ordenou o assalto, correndo para os destroços do abrigo à sua frente. Mas não chegou lá.
Nessa altura já Temudo tinha ordenado a retirada, encarregando Chifuta da protecção à retaguarda, como garantia que os oito guerrilheiros e a mulher que tinham sobrevivido ilesos ao ataque conseguiriam fugir da base.
Com o dorso crivado de estilhaços, Chifuta introduziu o carregador que lhe restava e mudou a patilha da kalashe para a posição de rajada. Apontou ao primeiro vulto que lhe surgiu e só largou o gatilho quando as munições se esgotaram.
Atingido num ombro e numa perna, André arrastou-se para trás dum montículo de terra entregando o comando ao alferes Dinis.
Recuperou a consciência a bordo de um helicóptero e, quando olhou para baixo, viu um rio que não conhecia. Negro como chumbo, o Kianda rugia em ondas colossais, numa fúria telúrica, qual animal ferido que se agarra à vida e ameaça a própria morte.
Seria delírio, ou o mar?

Álvaro Fernandes, in “Kianda o rio da sede”

sábado, 21 de junho de 2008

Doutoramentos...

Tribunal absolve coronel Vasco Lourenço em caso polémico

Em causa, críticas a autor de tese que acusa oficiais de fugir à Guerra Colonial
A tese de doutoramento aprovada com distinção (2005) na Universidade de Évora, acusando a generalidade dos oficiais dos quadros permanentes (QP) do Exército de fugir à Guerra Colonial (1961-1974), está a gerar uma onda de indignação em diversos círculos castrenses.Dois factos ocorridos este mês tiraram a polémica tese da penumbra: no passado dia 4, o Tribunal de Évora absolveu o presidente da Associação 25 de Abril num processo movido pelo autor da tese, Manuel Godinho Rebocho (sargento-mor pára-quedista, na reforma), por causa das críticas feitas pelo coronel Vasco Lourenço. A 10 de Junho, o coronel Morais da Silva terminou a análise da tese - concluindo que, pelos "erros e conclusões sem fundamento bastante, não dignifica a Universidade de Évora".Na origem da polémica está a tese de doutoramento sobre "A Formação das Elites Militares em Portugal de 1900 a 1975". O autor sustenta que os oficiais dos quadros permanentes fugiram da guerra, a qual se aguentou devido aos oficiais milicianos e aos sargentos dos QP. Entre outras afirmações polémicas, diz: "Porque os oficiais dos anos 60 fugiram da guerra, não reuniram as características de elites (...). Em função disso, o Exército desmoronou-se; a cadeia de comando partiu-se; o Exército venceu-se a si próprio; a Academia Militar falhou na selecção e na formação psicológica das futuras elites militares, as quais não desempenharam as suas funções em obediência aos valores próprios e exigíveis a um Exército" (página 488). Vasco Lourenço, referido directamente na tese, insurgiu-se quando Manuel Rebocho o convida para assistir à defesa da tese (19 de Setembro de 2005). "Não me ouviu, deturpa o que se passou [na Guiné, com o então general Spínola] e convida-me?", contou ontem ao DN o presidente da Associação 25 de Abril. Além de escrever ao autor, Vasco Lourenço transmitiu também o seu protesto à Universidade de Évora e ao júri, observando que "talvez não tivesse sido ouvido previamente por o [doutorando] ter noção da malévola deturpação do que se passou na Guiné".Manuel Rebocho, que o DN não conseguiu contactar, considerou-se ofendido e apresentou queixa em tribunal contra Vasco Lourenço, que foi absolvido. O presidente da Associação 25 de Abril vai agora pedir uma tomada de posição ao Exército e à Academia Militar, que "conden[a] por permitir que uma tese destas, sem suporte científico, seja aprovada".Este ponto surge como pilar central da crítica do coronel Morais da Silva, cujo passado militar o fez sentir-se "enlameado" com a tese - que leu para "desmontar" os argumentos do autor. "Caracterizar um universo de centenas de capitães QP (...) a partir do desempenho de dois elementos desse universo mostra que o autor nada conhece sobre Teoria da Amostragem e, portanto, as conclusões a que chegou não têm a menor validade científica", escreveu aquele oficial.Lembrando que Vasco Lourenço foi "comandante das forças que anularam a sublevação de 25 de Novembro de 1975, iniciada pelas tropas pára-quedistas e em que [Manuel Rebocho] participou", Morais da Silva adiantou: "O que o autor faz nesta tese relativamente a este oficial é (...) insuportável num doutoramento!"
In DN

segunda-feira, 2 de junho de 2008

A arte de bem plantar morteirete


De como a arte de bem cavalgar toda a sela, na nossa companhia de cavalaria apeada, foi transformada na arte de bem plantar todo o morteirete

O simples facto de a CCAV 2720 ser uma companhia independente, era prenúncio de borrasca.

Com efeito, não só ficaria entregue a si própria, sem o “manto protector” de um batalhão e o apoio da respectiva companhia de comando e serviços, como iria, com certeza, parar a “um buraco”.

O que, na gíria castrense da época, significava ser colocada no mato, bem afastada das mordomias da ZMAC – leia-se Zona Militar do Ar Condicionado...

Mas isso era o menos.

Com a idade que tínhamos na altura, pouco nos custava suportar a incomodidade. Aliás, éramos preparados e treinados para isso mesmo.

O que nos preocupava era o facto de prevermos – muito avisadamente – que o teatro de operações onde iríamos actuar não seria dos mais fáceis.

Por isso mesmo - e no intuito de nos prepararmos tacticamente o melhor possível - solicitamos e fomos autorizados a ministrar, em tudo o que pudéssemos, instrução reservada à especialidade de operações especiais.

Daí, por exemplo, o facto de optarmos por grupos de combate articulados em 6 equipas de 5 homens – incluindo a equipa de comando – em detrimento dos pelotões convencionais formados por 3 secções.

Quase uma década após o início da guerra, já tínhamos percebido que, em contra-guerrilha, tal orgânica, mais leve e melhor enquadrada - visto cada equipa de apenas 5 membros obedecer ao comando de um chefe - oferecia vantagens apreciáveis em relação aos pelotões de atiradores.

Além disso, facilitava o melhor conhecimento dos homens entre si e reforçava o espírito de corpo, que tão importante é para as tropas combatentes.

Já Napoleão Bonaparte dizia que, em combate, preferia comandar quatro amigos do que quarenta conhecidos!

Também por isso, permitiu-se que as equipas escolhessem livremente os seus elementos e mais: se articulassem em grupos de combate e escolhessem os furriéis e alferes para os comandar. Somente não puderam escolher o comandante de companhia, porque só havia um capitão...

Não surpreende, portanto, que tivesse-mos prestado atenção especial ao tiro instintivo, por forma a habilitar o pessoal para se defender com rapidez e eficácia sempre que fosse atacado. Recordo, a propósito, o que me aconteceu um dia na carreira de tiro de Santa Margarida:

Com alvos numerados, e colocados a 50 metros de distância, cada atirador seguia à minha frente, deslocando-se em paralelo à linha dos alvos. De repente, eu indicava um número e, o atirador tinha de disparar, imediatamente, dois tiros consecutivos para o alvo indicado.

Com armas automáticas, como é o caso da G-3, o segundo tiro só é possível após largar o gatilho e voltar a premi-lo.

Acontece que, o soldado a quem estava a dar instrução, carregou no gatilho a primeira vez e, sem o largar, continuou a premi-lo, esperando que a arma disparasse segunda vez. O que, obviamente, não aconteceu.

Como eu o censurasse por só ter disparado um tiro, virou-se para mim exclamando:

- A arma encravou!

E, para que não restassem dúvidas, soltou finalmente o gatilho e voltou a premi-lo, com a boca do cano a dois palmos da minha cara. O estrondo foi de se lhe tirar o chapéu!

Claro que, se me tivesse atingido, não estaria aqui a recordar este episódio. Mas não me safei de ficar com as pestanas do olho esquerdo chamuscadas, e o olho mais vermelhinho do que os dos coelhos.

Poder-se-á dizer que o referido atirador era especialista na arte de bem assustar toda a tropa! Ou não fosse a 2720 uma companhia de cavalaria e ele desconhecesse a obra a que D. Duarte deu o título: “A arte de bem cavalgar toda a sela”!

Quem também demonstrou que havia estudado afincadamente tão insigne tratado de cavalaria foi o Alferes Maia. Se não, vejamos.

Numa emboscada que montamos nas margens do rio Cassai, ao tentarmos capturar um elemento em fuga, fomos alvejados da outra margem, quando nos encontrava-mos na chana e já muito próximo do rio.

Sem perder tempo, o Ranger Zé Maia, especialista em tiro instintivo de morteirete, não deixou os seus créditos por mãos alheias.

Sentou-se no chão, apontou o tubo do morteiro para o sítio de onde provinham os disparos, deu-lhe a inclinação conveniente para atingir a zona pretendida, e disse-me:

- Meta a granada agora!

Sem me fazer rogado, introduzi a granada na boca do tubo, ouvimo-la escorregar pelo tubo abaixo e, PUM!

Lá vai ela!

Só que, como o terreno era pantanoso, não suportou o recuo do tubo provocado pela saída da granada.

E o Zé Maia ficou a olhar para as mãos vazias, de onde, num passe de mágica, tinha feito desaparecer o morteirete!

Mas o pior foi vermos a granada, rodopiando devido à vibração do tubo, a elevar-se na vertical. E aí desatamos a correr aos berros “morteiro, fujam que a granada vai cair aqui”, acompanhando a trajectória da descida, até nos lançarmos para o chão pouco antes do rebentamento.

Quando tudo acabou, não foi pequena a trabalheira para recuperarmos o morteirete.

O Zé Maia tinha-o plantado a preceito, a uma profundidade que a natureza pantanosa do terreno permite imaginar.


quinta-feira, 22 de maio de 2008

MEMÓRIAS ÚTEIS NOS TEMPOS QUE CORREM

A falta de energia pode provocar relâmpagos

Ao chegarmos ao Luma-Cassai, uma das primeiras decepções que tivemos foi a de constatarmos a inexistência de energia eléctrica no estacionamento.

O que me levou, é claro, a enviar a primeira requisição ao Agrupamento de Engenharia de Angola, solicitando o reforço imediato de candeeiros petromax, e o fornecimento urgente de um gerador de energia eléctrica, respectivo quadro de distribuição, cabos de ligação, interruptores, tomadas de corrente, lâmpadas, enfim todo o material necessário para “darmos à luz”...

Confesso que os candeeiros de pressão a petróleo (vulgus petromax), com meia dúzia de bicos ejectores e “camisas” iluminantes de reserva, não tardaram muito a aparecer, no bojo do sempre desejado e bem vindo Mike Vítor Lima.

Este importante colaborador das tropas em campanha, afectuosamente tratado pelo “petit nom” MVL era a coluna periódica de reabastecimento designada por Movimento de Viaturas Logísticas.

Cada vez que cruzava o cavalo de frisa, vindo da picada de Dala, o amigo Mike Vítor Lima era recebido em alvoroço, acarinhado, revistado dos pés à cabeça e interrogado sobre as novidades do mundo civilizado... tão perto mas cada vez mais distante de nós, à medida que o tempo ia passando.

Mas se não houve dificuldade de maior em obtermos alguns candeeiros, de qualquer forma insuficientes, já com o gerador e respectiva palamenta a coisa fiou mais fino.

Passadas algumas semanas, recebi uma airosa nota do Agrupamento de Engenharia, sediado em Luanda, daquelas bonitinhas, em papel timbrado e ainda com um leve cheirinho a ar condicionado.

Nela me pediam, “para se efectuarem os necessários cálculos técnicos, indispensáveis à satisfação do vosso pedido”, o seguinte:

uma planta geral da área, na escala 1/100, e plantas pormenorizadas do “interior do quartel” na escala 1/10 (sic)!

Claro que, após alguns impropérios contra “os meninos burocratas da ZMAC” (Zona Militar do Ar Condicionado), lhes enviei um esboço do nosso acampamento, explicando que o único “quartel” que tínhamos era aquele.

E, passados uns quatro meses, não é que o sempre amigo Mike Vítor Lima nos entrega, em mão, um reluzente gerador Perkins, novinho em folha?

E mais: a acompanhá-lo, vinham 2-sacos de cimento-2, e 4-grampos com amortecedores-4, (OLÉ!) para a respectiva fixação ao solo.

Maravilha das maravilhas: restava-nos esperar que os sapadores abrissem os alicerces, construíssem rapidamente a placa de cimento armado, e nela instalassem, a preceito, o Perkins, assente nos luxuosos amortecedores - não fosse alguma vibração indevida provocar-lhe rupturas de ligamentos nas válvulas, fracturas de meniscos nas bielas ou, pior ainda, brechas irreparáveis no bloco.

Mas, dessa vez, os sapadores não tiveram necessidade de provar a sua competência.

É que, o imponente Perkins, vinha sozinho!

E, sem quadro de distribuição, fios, lâmpadas, etc., não servia para nada. Acresce que, ao conferirmos a respectiva guia de entrega, verificou-se que o número do motor estava errado.

- Aqui há gato! - alertou o primeiro sargento.

E havia mesmo.

A resposta que recebemos à mensagem que dava conta do erro e da falta de palamenta, rezava assim:

“De: Agrupamento de Engenharia de Angola

Para: Companhia de Cavalaria 2720

Assunto: gerador de energia

Texto: em resposta à sua mensagem, informa-se que o gerador Perkins enviado a essa Companhia, se destinava a substituir outro, de uma Companhia de Caçadores, sediada em Cabinda, que se encontra avariado.

Como as trocas e destrocas entre o Leste de Angola e o enclave de Cabinda são susceptíveis de extravio, aumente à carga da sua Companhia, o gerador que recebeu.. Oportunamente será fornecido o restante material requisitado.”

Esperançado em ver o erro corrigido a breve trecho, limitei-me a responder, laconicamente, que cumpriria a ordem, e a pedir que não demorassem o prometido envio do restante material.

Mas qual material em falta qual carapuça!

O tempo foi passando e o Mike Vítor Lima chegando, mas sempre de mãos a abanar.

Por seu lado, os desgastados petromax, que não chegavam para as encomendas, foram avariando sem hipótese de reparação. E, à medida que os candeeiros iam ficando incapazes, lá seguia o angustiado pedido de substituição.

Até à noite em que, à luz do último candeeiro ainda a funcionar, se redigiu e transmitiu a seguinte mensagem rádio:

“Grau de prioridade: RELÂMPAGO

De: Companhia de Cavalaria 2720

Para: Agrupamento de Engenharia de Angola

C/conhecimento a: Comando da ZML; Comando da RMA; Comando-Chefe de Angola

Texto: solicito satisfação imediata das minhas requisições números tais e tais, de tantos de tal, enviadas a esse Agrupamento de Engenharia sem qualquer resultado”.

É claro que, a enumeração de todas as requisições por satisfazer, tornava a mensagem suficientemente extensa para provocar uma transmissão demorada.

Imagine-se a bronca!

Durante o tempo necessário para ir transmitindo, em cadeia, a nossa mensagem emitida do Luma-Cassai, até à Fortaleza de S. Miguel, onde se encontrava instalado o Comando-Chefe, em Luanda, a cerca de 2 mil quilómetros, todas as redes rádio militares ficaram por nossa conta.

O grau RELÂMPAGO obriga a interromper todas as comunicações em curso, até a mensagem com essa prioridade ser transmitida.

E, o certo é que, uma escassa semana depois do “RELÂMPAGO” provocado pela falta de luz, aterrou na nossa improvisada pista de aviação uma avioneta DO-27 que transportava unicamente.... uma remessa de petromax!

Quanto ao garboso mas inútil Perkins, lá continuou sorumbaticamente coberto por um pano de tenda.

Às escuras.

sexta-feira, 25 de abril de 2008

O PAPAGAIO DE PAPEL

Camponeses, marçanos ou estudantes mal ajustados ao uniforme de campanha, inconformados com a espartana rotina que levavam, emprestavam cada vez mais imaginação à vida. Era a idade de viver o sonho, experimentando realidades de modo a marcá-las de forma singular. Mesmo ali, naquele lugar para onde os tinham atirado sem consulta, continuavam tão inconformistas quanto os jovens o são. Empenhavam-se em personalizar as condições de sobrevivência, com tanto ou mais afinco e sucesso do que na luta contra o inimigo que os espreitava na floresta.

Nas tendas de lona não existia qualquer mobiliário e só os graduados dormiam em camas de ferro. Aos soldados estavam distribuídos colchões pneumáticos e ninguém tinha sequer uma cadeira onde repousar com um mínimo de conforto nos intervalos das operações.

Para guardarem as fardas e o calçado militar, dispunham de dois sacos de transporte de bagagem, servindo um de inseparável mochila onde se misturavam as caixas de munições de reserva com uma manta, um poncho impermeável e cinco rações de combate para matar a fome no mato. O outro substituía, dentro do possível, cómoda e guarda-fato.

Isto a princípio, que o espírito de improvisação dos soldados, a necessidade de preservarem a sua individualidade, diferenciando-se dos outros, depressa começou a transformar aduelas de barris de vinho - que constituíam tara perdida - em mesas, bancos, estantes e armários, conforme a necessidade e o gosto de cada um. Passados seis meses até já havia quem dispusesse de cadeira de baloiço, estilo império arqueado, como ironicamente foi catalogado tal tipo de mobiliário artesanal.

Dos fundos privativos, a companhia limitava-se a fornecer pregos e dobradiças. Os mais requintados pagavam as fechaduras que o sargento Castanheira lhes trazia do armazém de ferragens quando, no fim do mês, ia à cidade com o capitão buscar artigos de expediente e dinheiro para pagar o soldo. A lista das encomendas era sempre enorme mas pouco variada.

Daí André estranhar que, dessa vez, o sargento lhe perguntasse se sabia onde comprar papel de seda.

- Ó nosso primeiro, para que raio quer você isso? Vai oferecer prendas a alguém?

- Sei lá, meu capitão, isso gostava eu de saber. Foi o pessoal que pediu cinquenta folhas e só disseram que era surpresa.

- Bom, se não houver na intendência, procure na papelaria civil - disse André resmungando: - Ora esta?! Papel de seda na mata quer dizer que cacimbaram completamente.

No regresso à companhia, o Castanheira lá trouxe um volumoso embrulho e tentou deslindar o mistério:

- Olhem que o nosso capitão não achou piada à encomenda... Mas, afinal, qual é a vossa ideia?

- Não se meta nisso, meu primeiro, que amanhã logo vêem - respondeu o Zig, com os olhos reluzentes. - Diga só quanto custou que a gente paga já.

E assim foi, embora o intrigado sargento ainda insistisse em informarem o comandante da companhia “do que andam para aí a arquitectar, não vá ser asneira e dar para o torto. Depois queixem-se e digam que não vos avisei! Tenham cuidado que ele também já anda farto desta merda e não está para aturar números de circo.”

Nessa noite houve quem não se deitasse e, ao nascer do dia, os mais dorminhocos acordaram com gritos de “vamos lançá-lo, vamos lançá-lo!” Estremunhados, alguns graduados esfregavam os olhos sem acreditarem no que viam, e miravam de relance o capitão atónito, à espera de uma reacção que tardava.

Sobre a companhia pairava no ar um enorme papagaio de papel, ondulando em cabriolas caprichosas, como se hesitasse em ganhar altura.

- Cuidado! Não o deixem cair que se rasga - gritou André, correndo finalmente em direcção aos que, à frente, puxavam pelo cordel contra o vento.

Após várias correrias e alguns sustos, a enorme joeira colorida elevou-se devagarinho, soprada pela brisa ligeira da manhã. Era lindo de se ver. E os homens, para melhor a olharem, sentaram-se no chão com os braços esticados para trás, a servir de encosto, pasmados.

Dir-se-ia que até as suas vidas ancoravam no tempo, com o pensamento suspenso na guita que sustinha o papagaio de papel. À deriva, vasculharam o casco submerso das recordações esquecidas que, de muito fundo, emergiam.

Pensariam na infância feliz que a dureza da guerra tão depressa apagara? Alguns, com certeza. Mas quase todos se limitavam a gozar o desconcertante espectáculo que ofereciam a si próprios, comungando o prazer da representação colectiva em que eram espectadores intervenientes, como se de uma liturgia se tratasse. Deleitados, não pensavam em nada. A não ser mergulhar naquele jogo infantil, em liberdade. Para sempre.

O dia escorreu por dentro deles, fora daquela guerra que não queriam, numa viagem fantástica e ingenuamente encantada.

Ao entardecer, o papagaio ainda pairava sobre a companhia, dando a sensação de protecção absoluta que só o útero materno transmite. Até que sobreveio o crepúsculo, a hora em que a natureza perde transparência e se prepara para outro ciclo.

O encanto quebrou-se com a primeira detonação, logo seguida de outras. Ouviram-se disparos sucessivos, como num arraial de fogo de artifício, com as balas tracejantes aferindo o tiro ao alvo em que, cumprida a sua missão, a joeira se transformou.

Esfrangalhada, rasgada pelo impacte dos projécteis, desfez-se em tiras de papel sopradas pelo vento, descendo suavemente sobre a mata. Talvez fosse uma tentativa inútil de apaziguar os atiradores zangados, desiludidos. É que os brinquedos das crianças têm destas coisas: uma maneira própria de serem objectos transfigurados em sujeito do jogo iniciático da vida. Afinal o papagaio abatido não passava de papel rasgado. Mas seria somente isso? Talvez não...

Nessa noite quase não trocaram palavra, tardando em adormecer nos seus leitos de solidão, aconchegando a criança que neles redescobriram, sem encontrarem explicação para a sanha destruidora que a avassalara. Demoraram a levantar-se, tristonhos.

Álvaro Fernandes in "Kianda o rio da sede", Dinossauro, Lisboa 1996

segunda-feira, 14 de abril de 2008

RECONCILIAÇÃO DA MEMÓRIA HISTÓRICA


Entrevista com Carlos Schwarz, líder da ONG Acção para o Desenvolvimento

In DN de 13 Abril 2008

Em que quadro resolveu realizar o simpósio de Guiledje?

É importante sublinhar, antes, que os povos guineense e português têm, agora, a oportunidade de estabelecer um novo processo de cumplicidade. Algo que transforme os desencontros de ontem em memórias e iniciativas conjuntas e que ultrapassem os actos meramente oficiais, fixando-se e aprofundando-se em organizações associativas, escolas, câmaras e ONG.

O simpósio foi já algo desse tipo?

Sem dúvida e representa um primeiro marco no reencontro daqueles que, um dia, se combateram, guineenses, cabo-verdianos, cubanos e portugueses.

Não foi difícil acertar este primeiro reencontro?

Não. Tenho muitas dificuldades em imaginar um encontro assim, noutros espaços do mundo, juntando antigos colonizados e colonizadores e realizado num espírito de profunda amizade e de completa tranquilidade na procura da verdade histórica. Não estou a ver a Argélia e a França, ou o Quénia e a Inglaterra, ou mesmo o Vietname e os Estados Unidos a promoverem um encontro deste tipo. E não conheço um museu histórico de guerra como o que está a ser criado em Guiledje, que não pertencerá a país nenhum mas apenas aos que por lá passaram e combateram. Procuramos fazer desse pedaço da história luso-guineense um património comum, mesmo quando vista com olhares diferentes e eventualmente discordantes. Tenho a certeza de que o comandante guineense Buota Na Batcha, o comandante cabo-verdiano Julinho de Carvalho e o comandante português Alexandre Coutinho e Lima, reconhecerão que é o seu museu quando nele entrarem.

A acção coincidiu com os trabalhos de levantamento de ossadas portuguesas em Guidaje. De que forma olham os guineenses para a recuperação de restos de militares portugueses mortos em combate?

É um direito das famílias conseguir o regresso dos restos mortais de entes que lhes são queridos e nada pode justificar que isso lhes seja impedido, como alguns parecem fazer crer, transmitindo uma certa ideia de que estamos perante "despojos de guerra" ou uma espécie de património histórico nacional.

Esse seu olhar é abrangente? Isto é, centra-se nos portugueses e nos guineenses?

Claro. Nestes últimos 35 anos, como já acontecia na época colonial, continuou a haver portugueses de primeira e de segunda. Os naturais da Guiné que lutaram pela bandeira portuguesa e que sobreviveram, muitos mutilados, continuam esquecidos na valeta da História, abandonados, empurrados. Sentem-se, naturalmente, injustiçados.

E quanto aos guineenses caídos na luta pela independência?

Também nós, aqui, nos fomos esquecendo dos nossos mortos mas, sobretudo, dos nossos vivos. Gente que permaneceu anónima na epopeia em que participou e que foi mais do que uma luta armada, porque o objectivo era o da criação de um Estado moderno, cujos primeiros sinais irromperam com a própria luta - educação, os hospitais de tabanca, o comércio, a agricultura. Mesmo que esse projecto de sociedade se tenha escondido ou perdido nos recantos de Bissau. - S.B.


domingo, 6 de abril de 2008

RECUPERAR A MEMÓRIA

CARTA DE UMA MÃE

LOCALIZAÇÃO DOS MORTOS

TRABALHOS DE EXUMAÇÃO DOS CORPOS

Na terça-feira, 19, foi concluída com sucesso uma operação sem precedentes que permitiu localizar e levantar os restos mortais de 11 militares, que há 35 anos foram enterrados em Guidage, na Guiné-Bissau, após uma batalha muito dura para as tropas portuguesas. Esta iniciativa, que resultou da cooperação entre a Liga dos Combatentes, o Ministério da Defesa, a Universidade de Coimbra e o Instituto Nacional de Medicina Legal (INML), colocou no terreno um geofísico, uma arqueóloga – irmã de um dos soldados exumado - e quatro antropólogos.

A equipa foi coordenada por Eugénia Cunha, a conceituada antropóloga forense da Faculdade de Ciências e Tecnologia, da Universidade de Coimbra, que em 2006 pediu para levantar o túmulo do Rei D. Afonso Henriques para fins científicos. O grupo de trabalho levou para o terreno informação detalhada sobre cada um dos militares, como a altura, constituição dentária e até descrições sobre fracturas ósseas adquiridas antes da guerra. Estes dados, juntamente com as análises genéticas que serão feitas no INML, vão permitir identificar cada um dos soldados exumado, para que depois os restos mortais possam ser devolvidos às famílias.

O sucesso desta missão emocionou particularmente Conceição Vitoriano - a arqueóloga alentejana prometera à mãe só regressar a Portugal depois de encontrar o irmão, e também dois antigos comandantes que voltaram ao campo de batalha para, finalmente, honrar um princípio dos Pára-quedistas: «Ninguém fica para trás».

A SIC e a revista VISÃO acompanharam, ao minuto, e em exclusivo esta operação inédita. A reportagem sobre o resgate de militares na Guiné Bissau será emitida e publicada em breve.

Fonte: site da Liga dos Combatentes



HONRAR OS MORTOS

OPERAÇÃO "PENEDO 2" LESTE DE ANGOLA 1970

O Dia do Combatente, celebrado ontem, na Batalha, é este ano marcado, se não directa, pelo menos indirectamente, pela questão da exumação, em Guidaje, na Guiné-Bissau, dos restos de onze militares portugueses, mortos em combate, em 1973, e sepultados na zona onde se situava um pequeno aquartelamento, já muito perto da fronteira com o Senegal.

A operação de levantamento das ossadas, de acordo com o major-general Lopes Camilo, vice--presidente da Liga dos Combatentes, foi desencadeada no quadro de um plano geral de intervenção que pretende concentrar os restos de militares caídos em combate em determinados cemitérios locais, que serão cuidados e eventualmente transformados em espaços de memória, que podem ser até de memória partilhada com os países onde os cemitérios se localizem e dar origem ao chamado "turismo de memória".

No caso da Guiné-Bissau, a Liga dos Combatentes tem um protocolo já firmado com o Instituto de Defesa Nacional guineense, prevendo-se a concentração das ossadas, depois da sua rigorosa identificação, em cemitérios de Bissau, Babadinca, Bafatá e Gabú.

No caso das onze exumações agora feitas, depois da identificação, que ainda não foi feita, sendo, por isso, os restos considerados como de "soldados desconhecidos", serão as ossadas depositadas no cemitério de Bissau, a menos que os familiares decidam fazer a sua transladação para Portugal, cujas despesas terão de ser suportadas pelas próprias famílias, já que a Liga apenas actuará, nesses casos, na identificação dos militares e no apoio à remoção de barreiras burocráticas que simplifique os procedimentos legais necessários à transladação.

Por localizar estão ainda os restos de 20 outros militares, de incorporação sobretudo guineense, e sepultados na mesma região de Guidaje, que era, em 1973, uma das mais aquecidas zonas de guerra.

Ninguém fica para trás?

Das onze sepulturas referenciadas, com levantamento de ossadas, três dizem respeito a páraquedistas, alvos da atenção da respectiva associação, que permanece unida e aparentemente fiel à ideia de que "ninguém fica para trás", e do grande impulso emocional resultante de imagens recentes, e traumáticas, de cemitérios ao abandono em África, com campas depredadas de antigos combatentes.

Nasceu aí um movimento cívico de antigos combatentes, visando "não esquecer os companheiros de armas que em terra do então ultramar tombaram para sempre, dando a vida pelo país" e firmando-se naquilo que é sublinhado como "sentido da honra e dever de lealdade para com os que morreram por Portugal".

O major-general Lopes Camilo situa, porém, a operação no âmbito restrito de uma acção envolvendo a Liga dos Combatentes, o Ministério da Defesa, a Universidade de Coimbra e o Instituto de Medicina Legal. O sucesso da localização e levantamento das ossadas, e uma eventual transladação dos "páras" para Portugal, pode, no entanto, iniciar, pela mediatização e choque emocional da operação em Guidaje, um delicado processo, chocando-se teses que defendem o regresso a casa de todos os que morreram em África ou sustentam que devem os mortos ficar na dignidade dos campos de batalha onde tombaram.

Augusto de Freitas, hoje um neuropsicólogo, sargento em meados dos anos setenta, com missões cumpridas em Moçambique, de 1973 a 1975, nas zonas operacionais de Tete e Nangade e que lidera, agora, a Associação Portuguesa de Veteranos de Guerra, não esconde uma crítica dura: "É uma vergonha a falta de respeito pelos que lutaram pela Pátria e os governos de Portugal têm esquecido os que morreram e ficaram enterrados em cemitérios que estão hoje ao abandono e que têm sido, em alguns casos, depredados!"

Augusto de Freitas, admitindo que o assunto é complexo, continua à espera de que o País enfrente a necessária tarefa de fazer regressar os restos dos que perderam a vida na guerra colonial, algo que tem de ser feito, mesmo sabendo que essa operação "vai mexer com as emoções do País e dos familiares dos que tombaram em combate".

Há, porém, quem considere que "os mortos são uma marca do império", pessoas que "estão onde, se calhar, devem estar", em locais "onde combateram e morreram", não havendo "sepultura mais digna do que a que foi cavada no próprio campo de batalha".

Defensores desta tese convidam a uma profunda e sensata reflexão que evite a abertura de uma "caixa de Pandora". O regresso dos restos de apenas alguns antigos combatentes poderá levar muitas famílias a reivindicar o regresso também dos seus mortos. "E se não houver esses mortos?", perguntam. É que não poucos combatentes morreram em circunstâncias que não permitiram sequer a recuperação de fragmentos e o antigo "comando", agora escritor, Matos Gomes, combatente na zona de Guidaje, limita-se a contar que numa operação de resgate de vítimas do rebentamento de uma mina, apenas conseguiu identificar, entre inúmeros minúsculos fragmentos, "a roda dentada da caixa de velocidades do veículo"…

Paula Borges in DN de 6 Abril 2008


sábado, 5 de abril de 2008

O DEFEITO ERA DA FARINHA...

O FORNO DO PÃO

No Luma-Cassai, era tão fácil como necessário reinventar tudo.

Contar com as próprias forças e sobreviver pelos próprios meios foi, desde início, o lema da companhia.
Chamavam a isso fazer omeletas sem ovos.
Ainda em Santa Margarida, notei que o quadro orgânico não contemplava dois elementos imprescindíveis: padeiro e barbeiro. Só eram atribuídos aos batalhões. As companhias independentes não os tinham.
Para preencher a lacuna, inquirira se havia entre os atiradores alguém com essas profissões civis e o problema ficou resolvido.

De facto, abundava quem soubesse cortar o cabelo. E um dos soldados revelou que “trabalhava numa padaria lá da terra há dois anos”. Era mais do que suficiente.
Não se voltou a pensar no assunto até que, uma semana depois da companhia se instalar no Luma-Cassai, o forno do pão, construído à pressa pelos sapadores com tijolo refractário e cimento branco, ficou pronto.
Estavam todos saturados de acompanhar as refeições com bolachas. Portanto, ainda o sol não tinha nascido, já mais de cinquenta homens formavam bicha para receber, finalmente, a tão desejada ração de pão.
Mas, qual quê? A decepção não podia ser maior! Duro como uma pedra, nem com a faca de mato se conseguia cortar, quanto mais meter-lhe o dente. O padeiro desculpou-se com a má qualidade da farinha e arregaçou as mangas, amassando toda a manhã, preparando nova fornada. Dessa vez era mole e tão intragável como o primeiro. Parecia borracha e ninguém conseguiu mastigá-lo.
- É pá, és o rei do matacão!
- Não digam isso que não tenho culpa nenhuma, a farinha é que não presta.
- Digo, digo: é matacão e que grande matacão! – contrapunha o pessoal.

Só então resolvi perguntar ao soldado quais as funções concretas que ele desempenhara na tal padaria. A resposta não podia ser mais elucidativa:
- Distribuía o pão aos fregueses, de porta em porta.
- Ó homem, só agora é que me dizes isso?
- O meu capitão só perguntou se havia algum padeiro. Olhe que era isso que a freguesia me chamava - respondeu o soldado, para gáudio dos circunstantes.

Sob pena de ficarmos condenados a comer eternamente bolachas em vez de pão, restava uma hipótese: enviar o esforçado candidato a padeiro para o Luso, e pô-lo a fazer um estágio na Companhia de Intendência de Apoio Directo.

Quando, um mês depois, regressou da padaria da intendência, fez questão de presentear o pessoal com um saboroso e fofo pão-de-ló. Mas nunca mais se livrou de ficar conhecido pelo Matacão.

sábado, 15 de março de 2008

MALHAS QUE O IMPÉRIO TECE

FOI HÁ 47 ANOS

A 15 de Março de 1961 eclodiu no norte de Angola uma vaga de terrorismo desencadeado pela UPA – União dos Povos de Angola – em que foram massacradas centenas de colonos portugueses incluindo mulheres e crianças.

O que parece ter apanhado de surpresa a opinião pública era, afinal, há muito previsível. Contudo nada foi feito para evacuar ou proteger esses colonos indefesos. Atente-se nesta breve cronologia da contagem decrescente para o início das hostilidades e respectivas reacções:

1961

Janeiro/Fevereiro - Revolta de cultivadores de algodão, na Baixa do Cassange, em Angola. As forças armadas portuguesas esmagam a revolta, provocando entre os camponeses um número muito elevado de mortos.

Janeiro, 20 - John Kennedy toma posse do cargo de presidente dos Estados Unidos.

Janeiro, 22 - O capitão Henrique Galvão, em dissidência com Salazar, apodera-se do navio Santa Maria.

Fevereiro, 4 - Ataque às prisões de Luanda com o objectivo, que falharia, de libertar os presos políticos. Esta data marca geralmente o início da luta armada do MPLA em Angola, embora a relação desses acontecimentos com a actividade deste movimento seja por vezes questionada, considerando-se ter sido dirigido por Neves Bendinha, da UPA, e pelo cónego Manuel das Neves.

Fevereiro, 6 - Expedições punitivas nos muceques de Luanda.

Março, 10 - Angola debatida no Conselho de Segurança da ONU. Rejeitada moção para o estabelecimento de uma subcomissão para elaborar um relatório sobre a situação no território.

Março, 15 - Início, por parte da UPA, da rebelião no Norte de Angola, da qual resulta o massacre de mais de 800 europeus e a destruição e rapina de numerosos bens. As represálias, nas quais desempenhará importante papel a Força Aérea, causarão milhares de vítimas.

Março, 22 - Lançada ao mar a viatura do cônsul norte-americano em Luanda, por colonos que se manifestavam contra os EUA.

Março, 27 - Manifestação anti-americana em Lisboa.

Abril, 4 - A Assembleia Geral da ONU aprova uma moção a favor da autodeterminação de Angola.

Abril, 4 - O primeiro contingente a ser enviado para Angola por via marítima embarca no cais de Santa Apolónia.

Abril, 13 - Tentativa de golpe de Estado chefiada por Botelho Moniz. Salazar assume a pasta da Defesa e fala na televisão: «Andar rapidamente e em força.» Adriano Moreira é indigitado como novo ministro do Ultramar.

Abril,18 - Fundação, em Casablanca, da CONCP (Conferência das Organizações Nacionalistas das Colónias Portuguesas).

Maio, 1 - Desfile em Luanda do primeiro contingente de soldados expedicionários portugueses, desembarcados neste dia.

Após os massacres, Salazar decidiu não negociar nem sequer cumprir as resoluções das Nações Unidas e escolheu a guerra.

Começava a guerra colonial que se prolongou por treze penosos anos.

Os documentos reproduzidos a seguir demonstram que há muito se esperava o início da luta armada com vista à independência das colónias que o Estado Novo, contra os ventos da história, se recusava a aceitar.

Documento já desclassificado no Arquivo Histórico Militar

Clique nestes anexos para ampliá-los










O trágico balanço de uma guerra que podia e devia ter sido evitada

Documentos publicados pela CECA, Comissão de Estudo das Campanhas de África, do Estado Maior do Exército


Resta sublinhar que não foram contabilizados os mortos civis - de ambos os lados da barricada - nem os feridos, e os mutilados física e psicologicamente.
Também é incalculável o prejuízo material e a sangria de jovens refractários e desertores que preferiram emigrar "a salto" do que ir defender o mito da "pátria una e indivisível" que o autismo da ditadura alimentou até à madrugada libertadora de 25 de Abril.

Clique na fotografia e anexos para ampliá-los.