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terça-feira, 23 de junho de 2009

A revolta iraniana ...

O Irão vive o maior momento de agitação desde a revolução islâmica de 1979. Com milhões de pessoas nas ruas contestando o resultado das eleições presidenciais, supostamente ganhas pelo actual presidente Ahmadinejad, os protestos já dividiram o regime e os resultados são imprevisíveis.
Neste dossier, coordenado por Luis Leiria, o Esquerda.net procura analisar e contextualizar a revolta.
Dossier em constante actualização.
A abrir, Lee Sustar, do Socialist Worker, analisa a dinâmica dos protestos populares e da repressão no artigo O Irão em ebulição.
O famoso jornalista Robert Fisk mostra que apesar da intimidação, a vontade de derrubar Ahmadinejad continua forte, seis dias depois: Choram-se os mortos do Irão - mas a luta continua.
Um Quem é quem na política iraniana oferece um pequeno guia para compreender melhor os actuais acontecimentos.
Trinta anos depois da Revolução islâmica, o país reduziu as disparidades entre cidades e campos, mas mantém enormes contradições. É o que mostra o artigo
Irão: As desigualdades fragilizam a República islâmica.
Evocamos em seguida o debate mais aceso da campanha eleitoral e apresentamos um resumo do programa de Moussavi.
in Esquerda.Net
Tehran 20 June 2009 Iranians protest against election results

segunda-feira, 22 de junho de 2009

O país dos ayatollas...

Se quisermos estabelecer um paralelo de relativa proximidade poder-se-á dizer que em Teerão cheira a Tianamen.
No país dos ayatollas, não saíram tanques para as ruas a reprimir as manifestações pela liberdade, mas saíram os guardiães da revolução islâmica a matar e a prender todas as bocas que gritam por mudança no fechado regime iraniano.
Os acontecimentos dos últimos dias em Teerão são, no entanto, a expressão de uma dinâmica de mudança que parece imparável e que vai muito para lá daquilo que é Moussavi, o líder da oposição.
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No Irão, emerge sobretudo uma classe média urbana instruída, aberta ao mundo, que rompe com o cânone de um país submisso ao poder dos líderes religiosos fundamentalistas.
Essa é uma classe média que mostra enorme porosidade com o mundo, utilizando todo o potencial das novas tecnologias de comunicação e o suporte das comunidades de emigrantes espalhadas pelo mundo.
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Ali, mais do que um daqueles confrontos ideológicos clássicos do tempo da Guerra Fria, ocorre um claro conflito de estilos e modos de vida.
Um poder antidemocrático e claustrofóbico esmaga uma parte da sociedade apegada à liberdade de expressão, ao voto livre e a valores laicos.
O problema é que, desta vez, o grito da revolta ecoa mais longe e não dá sinais de querer parar. Ainda bem!
Eduardo Dâmaso
in CM

quinta-feira, 30 de abril de 2009

AS ELEIÇÕES NO IRÃO #2

Discutivelmente, o que evitou uma convergência de opiniões nas matérias expostas acima não foi a perseguição de interesses nacionais pelo Irão ou os seus adversários, mas uma atitude de mútua desconfiança, que por vezes chega à paranóia. Ambos, Ahmadinejad e o seu mentor Ayatolah Khamenei, partilham esta atitude “às toneladas”. O mesmo acontece à maioria dos iranianos, se nos basearmos na leitura da História recente que retrata o Irão como a vítima sistemática das maquinações estrangeiras. Existe, de facto, farta evidência de passadas maldades, desde os envolvimentos americano e britânico no golpe contra Muhamad Mossadegh em 1953 que acabou uma breve experiência de democracia, passando pelo apoio ocidental ao Iraque durante a sua guerra contra o Irão no período de 1980-88 quando cerca de 1 milhão de pessoas foram mortas, até ao recente alargamento da presença militar americana numa série de países que cercam o Irão.

Os iranianos com melhor nível de educação escolar, incluindo alguns conservadores, pensam que adoptar um tom ameaçador com o Ocidente, ou castigar Israel interminavelmente, faz muito pouco pelos interesses do Irão. “Não há razão para considerarmos que o resto do mundo é nosso inimigo,” diz Muhamad al-Abtahi, um antigo vice-presidente do governo de Khatami. Abtahi culpa severamente os iranianos que, como ele diz, preferem permanecer hostis à América apenas porque assim eles podem aparentar ser líderes da oposição global ao “Grande Satanás”. O Irão tem muito mais a ganhar do que perder pelo diálogo. “Sobre o assunto da energia nuclear, nós acreditamos que através do diálogo nós podemos garantir o nosso direito à tecnologia nuclear ganhando ao mesmo tempo a confiança do mundo. Não haverá nada de útil em ter três resoluções do Conselho de Segurança das Nações Unidas contra nós.”

Abtahi e os seus aliados sabem que os conservadores não hesitariam em frustrar os objectivos dos reformistas se eles estivessem à beira de chegar de novo à presidência. Na melhor hipótese, os reformistas esperariam desfazer algumas das políticas mais destrutivas de Ahmadinejad, por exemplo, tornando as contas públicas mais transparentes e trazendo para o governo pessoas com melhores qualificações. Mais importante, segundo eles acreditam, uma convincente maioria dada aos reformistas construída sobre mais larga afluência às urnas poderia a ajudar a retirar algum poder aos órgãos teocráticos eleitos para certas instituições do estado. “Para mim, um dos mais importantes objectivos seria remover a atmosfera pessimista na sociedade civil para a fazer sentir que [a sua vontade] pode ter efeito sobre o seu destino,” diz Issa Saharkhiz, um proeminente editor que, como muitos jornalistas, foi saneado do seu trabalho pelo encerramento em séria de publicações reformistas.

Se as regras de jogo fossem iguais, os reformistas teriam a possibilidade de regressar ao governo. Antes do seu afastamento, sondagens de opinião não oficiais sugeriam que Khatami era mais popular do que Ahmadinejad. Mas os reformistas enfrentam numerosos e pérfidos obstáculos. Sondagens mais finas demonstraram que, entre os iranianos que declararam a sua intenção de voto, os votados ganhariam facilmente a eleição. Isto explica a desilusão crónica entre o eleitorado natural da ala reformista, a enorme classe média instruída e urbana do Irão. Na capital, Teerão, a afluência nas mais recentes eleições raramente excedeu 30%, cerca de metade da afluência registada nas regiões rurais onde Ahmadinejad é muito popular.

Porque o Irão não tem partidos políticos coerentes nem eleições primárias, os reformistas enfrentam outro grande problema. Muitos lembram o seu clamoroso fracasso nas eleições de 2005, quando múltiplos candidatos reformistas repartiram os votos na primeira volta, permitindo que o então largamente escarnecido Ahmadinejad saltasse directamente para a segunda volta, que venceu.

Mehdi Karroubi, um antigo deputado e presidente do parlamento e clérigo veterano muito conhecido entre as minorias étnicas, diz que está determinado a permanecer na corrida até ao resultado final qualquer que ele seja. Ele fez uma respeitável carreira nas eleições de 2005, ganhando notoriedade com a promessa de distribuir dinheiro dos lucros da venda do petróleo a cada cidadão.

O seu rival reformista, Hussein Mousavi, um popular primeiro-ministro durante a guerra contra o Iraque, pode levantar um forte desafio. A sua reputação de dureza e de probidade podia ser apelativa tanto para conservadores como para reformistas. Alem disso, precisamente porque eles são vistos como mais próximos do establishment revolucionário do Irão do que Khatami, nenhum dos dois rivais terá a possibilidade de inspirar o eleitorado dos cépticos e dos neutros a votar.

Um outro desafio confronta os reformistas. A máquina administrativa do estado iraniano, progressivamente “engordada” durante a presidência de Ahmadinejad, tem feito poucos esforços para disfarçar a sua determinação para impedir o regresso dos reformistas ao poder. O supremo líder, um habilidoso atirador de aguçadas insinuações embora dissimulando distância da algazarra político-partidária, tem tacitamente dado sinais de apoio à equipa do poder. Mais inequivocamente, os poderosos chefes do exército e dos Guardas Revolucionários têm revelado a sua preferência pelo poder nas mãos de conservadores, lançando frequentes advertências sobre o perigo da “revolução de veludo” com a aparência de reformismo. A rádio e televisão, ambas do estado e dependentes do controlo de Khamenei, dão cobertura a Ahmadinejad enquanto ignoram os seus oponentes. Nem os candidatos reformistas correm o risco de aparecerem nos canais internacionais de informação, sejam eles Al-Jazira, BBC World, CNN, ou FRANCE 24, mesmo aqueles canais que elogiaram generosamente o serviço noticioso de satélite da Televisão Persa, dado que os responsáveis da Segurança do estado declararam que qualquer pessoa que colabore “com tal propaganda inimiga” seria sujeita a processo criminal.

Os iranianos sentem-se desconfortáveis com o conhecimento de que o Ansar-e-Hizbulah, um grupo semi-oficial de vigilância popular, foi acusado no passado de assassinar reformistas. Estes grupos sombrios, em conjugação com organizações mais abertamente leais ao supremo líder como os Guardas Revolucionários, o Clube de Veteranos e o Basij, uma força auxiliar de jovens zelotas com ramificações por todas as mesquitas, escolas e universidades, que são utilizados pelo regime em trabalhos pacíficos de índole política. Em muitos casos, são estes grupos que gerem as secções de voto em momentos de eleições. Não surpreendentemente, a sua mobilização para este serviço é consensualmente creditada com a inesperada vitória de Ahmadinejad em 2005, que trouxe créditos de fraude eleitoral em alguns distritos.

Não é inteiramente claro se esta utilização de meios humanos terá os mesmos usos. Enquanto que muitos iranianos desvalorizam que o regresso de Ahmadinejad é uma conclusão precipitada, outros apontam as severas críticas que ele suportou de parceiros conservadores. Ahmadinejad tem, de facto, de se declarar formalmente como candidato.

Uma alternativa possível à candidatura de Ahmadinejad, reputada de ser próxima do supremo líder, é o eficiente e pragmático presidente da Câmara Municipal de Teerão, Muhamad Qalibaf. Um distinto veterano da guerra várias vezes elogiado pelo seu desempenho como chefe da polícia, Qalibaf teve a coragem de afirmar uma vez, embora contra a corrente, que aceitaria estabelecer diálogo com os EUA por acreditar que o Irão pode defender os seus interesses com custos menores do que os que actualmente paga.

Muitos conservadores, alarmados com a linguagem e a política aplicadas pelo presidente em exercício, teriam preferido ver no lugar um administrador mais educado (ou seja, com melhores maneiras) e com mais experiência política. Alguns sugerem que seria útil para o Irão apresentar uma nova cara ao mundo, mesmo que se mantivesse a mesma política externa descomprometida que tem sido exercida sob Ahmadinejad. E alguns reformistas acreditam que, enquanto qualquer um poderia desempenhar melhor função do que o presidente em exercício, poderia ser mais sensato apoiar um conservador que pudesse cumprir as suas promessas eleitorais em vez de ter na presidência um reformista que, muito provavelmente, não as poderia honrar dado o ambiente hostil da estrutura do estado tal como ela existe neste momento.
The Economist (excertos)

terça-feira, 28 de abril de 2009

AS ELEIÇÕES NO IRÃO #1

De acordo com a imagem dos seus líderes, o Irão galga etapas de poder em poder. A Revolução Islâmica que derrubou o Shah há 30 anos continua a desafiar os adversários do país, a inspirar o seu povo e a defender os seus princípios. Não tem sido apenas na tecnologia nuclear que o Irão tem dado grandes passos. No último mês o país confundiu, mais uma vez, os que dizem não (ao desenvolvimento tecnológico do Irão) ao lançar um sofisticado foguetão que transportou o seu próprio satélite, Safir Omid, ou Embaixador da Esperança, que entrou em órbita. O Irão deve agora, segundo declarou o seu exuberante presidente, Mahmoud Ahmadinejad, ser classificado como uma superpotência.

Uma mensagem de texto que apareceu subitamente nos telefones móveis iranianos, imediatamente depois do lançamento, sugeria uma diferente interpretação. “Primeira descoberta de Omid: a Terra é redonda!” dizia o alegre sarcasmo perante o que muitos iranianos teimosamente chamam a “provinciana timidez” dos seus governantes. A revolução islâmica pode ter produzido progressos na saúde pública, na educação e na electrificação rural, entre outras coisas. A sobrevivência desses progressos contra circunstâncias difíceis, somada a estes feitos simbólicos de magia tecnológica, reforça o orgulho nacional apesar das críticas e má vontade dos sectores secularistas. Mas, para um grande número de iranianos, todos estes feitos “maravilhosos” tiveram um preço doloroso.

Esse preço é facilmente mensurável em termos de oportunidades económicas perdidas, perda de relações exteriores e corte de liberdades colectivas e individuais. Mais difícil de medir é o custo pela perda de motivação causada por maior cansaço com as regras religiosas impostas. Não só essa condição levou tanto como 2 milhões de iranianos para a dependência de drogas baratas que inundam o mercado iraniano a partir do vizinho Afeganistão, como acelerou a castrante fuga de talentos através da emigração. Essa circunstância também molda o difuso véu de melancolia sobre a vida em geral. Aquela brincalhona mensagem de texto, por exemplo, provocou que os circunspectos responsáveis da segurança publicassem avisos dizendo que, no futuro, os remetentes dessas mensagens subversivas seriam identificados e julgados em tribunal.

A divergência entre estes modos de ver o Mundo tornou-se mais evidente à medida que o Irão se aproximava das eleições presidenciais que terão lugar em Junho. A controvérsia adivinha-se dura. A despeito da repentina retirada da corrida de um dos líderes da ala reformista, o anterior presidente Muhammad Khatami, os candidatos que permaneceram na disputa representam uma surpreendente variedade de interesses e de classes sociais. Com a retórica política a subir de tom, os próximos 100 dias prometem ser invulgarmente ruidosos pelos padrões educados, moderados e contidos da política iraniana.

É verdade que os actores que habitam o palco do peculiar sistema político iraniano, que procura representar ambos, Deus e os homens, estão constrangidos. Os candidatos devem ser aprovados, ou vetados, pelo Conselho de Guardiães, composto por clérigos em idade avançada, de quem, por consequência, não se deve esperar apoio em questões fracturantes ou inovadoras, e muito menos sobre os princípios ideológicos da revolução islâmica, porque no Conselho há unanimidade de que estes princípios são intocáveis. Um desses princípios é velayet el-faqih, uma controversa doutrina, que existe apenas no Irão, que exalta o poder do líder supremo, ou rahbar, um clérigo de reconhecida autoridade teológica que prevalece sobre os representantes eleitos pelo povo. Esta dependência de uma autoridade “parda” faz com que os presidentes sejam subservientes, particularmente em matérias de política externa e energética (nuclear incluída), ao desejo do líder em exercício, o Ayatolah Ali Khamenei, que ocupa o lugar desde o falecimento do seu predecessor, Ayatolah Tuholah Khomeini, em 1989. Esta limitação não é a única que reduz o poder executivo do próximo presidente. Uma crise económica potencialmente severa já se vislumbra no horizonte em resultado dos baixos preços da principal exportação iraniana, o crude, que tem sido agravada por dois factores internos: (1) quatro anos de política catastroficamente perdulária de Ahmadinejad e (2) sanções da ONU que estrangularam as trocas comerciais e afugentaram os investimentos estrangeiros.

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Com o défice das contas públicas a crescer constantemente, o próximo presidente será forçado a tomar medidas impopulares, como reduzir ou revogar subsídios ruinosos ou pouco produtivos. Entre outros efeitos, estes subsídios têm mantido o preço do crude iraniano abaixo do ridículo preço de dez cêntimos americanos por litro. Acresce a isso, que o Irão, porque nunca investiu em refinarias, importa a maior parte dos combustíveis que consome.

Mesmo os observadores mais cínicos concordam que esta eleição será da mais alta importância, e não apenas para o Irão. Será o equivalente iraniano da eleição presidencial americana de Novembro. A forma como os eleitores votarem será a expressão das suas aspirações e protestos. Dependendo da lisura do processo e, principalmente, da percentagem de votantes jovens (aqueles que mais aspiram a viver numa sociedade mais moderna) e do nível de abstencionismo, o que pode estar em jogo é o futuro mais aberto ou mais fechado da sociedade iraniana. Estes dois possíveis resultados terão implicações fora das fronteiras desta grande e antiga nação, que é uma das poucas que proclamaram a sua oposição à ordem política imposta ao mundo pela América. A eleição no Irão afectará a região adjacente, cheia da instabilidade, do Iraque, Afeganistão, da Palestina e Israel. A liderança do Irão já demonstrou ser capaz de exacerbar a instabilidade em todos estes países. O caminho tomado pelo Irão pode também influenciar o mundo muçulmano mais amplo. A experiência original do país tem potencial para se estabelecer como um paradigma de transição pacífica e reforma das sociedades da região. Mas se os extremistas insistirem em exportar a sua revolução, a tensão poderá piorar entre a maioria sunita do mundo muçulmano e a minoria chiita, muitos dos quais vêem o Irão, predominantemente chiita, como o exemplo a seguir.

Mais um mandato de Ahmadinejad será útil, dizem os seus críticos, para consagrar a “revolução dentro da revolução” que ele tem tentado concretizar desde que foi eleito de surpresa em 2005. Mais conhecido por pessoas fora do aparelho administrativo e político pelas suas belicosas posições, o presidente em exercício é mais familiar aos iranianos como um radical e hiperactivo populista que utilizou o suporte tácito do seu amigo conservador Ayatolah Khamenei para expandir os poderes da presidência.

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Determinado a reacender o fervor revolucionário, Ahmadinejad expurgou numerosos liberais das universidades, dos serviços diplomáticos e de posições superiores do estado, substituindo-os por pessoas com a mesma cor ideológica. O seu empenho em restringir as liberdades cívicas enviou numerosos desobedientes para as prisões, incluindo estudantes, sindicalistas e feministas reivindicadoras de iguais direitos, juntamente com representantes de grupos minoritários como os seguidores da fé Bahai. E, como se não fosse suficiente, enviou de novo para as ruas das cidades iranianas o detestados espectro da polícia da Religião e Costumes para perseguir e humilhar as mulheres com vestuário “indecoroso e contrário às regras islâmicas”.

A política económica de mãos largas do presidente, baseada num rendimento de 250 mil milhões de dólares durante os 4 anos do seu mandato destinados a redistribuição pelos carenciados, ganhou amigos entre os pobres. Ahmadinejad percorreu incansavelmente as províncias mais empobrecidas e remotas a cortar fitas, a lançar primeiras pedras de obras sociais e a responder a petições de lamuriantes multidões, com câmaras as de televisão perpetuamente a persegui-lo.

Mas o alegre esvaziamento dos cofres do estado fez disparar a inflação, que atingiu um pico anual de 30%, embora tenha caído nos últimos três meses para 26%. Os iranianos, particularmente os jovens urbanos produzidos pelo baby-boom da década de 80, ficaram chocados quando despertaram para a triste realidade dos preços das casas terem triplicado desde 2005. Recentemente, os Guardas Revolucionários, instituição que não é reconhecida exactamente pela sua competência em matéria de gestão financeira, decidiram iniciativas controversas como obrigar os bancos a reduzir as taxas de juros e a democratizar os contratos de financiamento por razões de ortodoxia ideológica, o que, por sua vez, provocou gritos de alarme dos economistas.

Como os eleitores de qualquer país do mundo, os iranianos tendem a colocar os assuntos domésticos à frente da política externa. Mesmo assim, o estilo de Ahmadinejad desperta larga discussão. Os críticos afirmam que o contínuo isolamento diplomático do Irão é produzido pelas suas desnecessárias agressividade e abrasividade. Mas os seus admiradores dizem que o seu estilo provocador e teatral tem, de facto, elevado o prestígio internacional do país, forçando os seus adversários a respeitar os interesses próprios do Irão. Como prova da ascendência do Irão, eles apontam o atolamento dos americanos no pantanal do Iraque, o insucesso de Israel em esmagar o Hizbulah e o Hamas, a fidelidade ideológica de aliados no Líbano e na Palestina que muito têm beneficiado da sua paternal generosidade. Segundo esta corrente de opinião, a hipotética vitória eleitoral de Ahmadinejad serviria para apoiara postura do Irão como grande defensor dos países oprimidos do mundo, embora isto não exclua o regresso do Irão ao pragmatismo. Responsáveis iranianos têm assinalado de forma recorrente que, dado o gesto amigável da nova administração americana, não deve o Irão rejeitar a possibilidade de cooperar com Obama. Mas a continuação da posição hostil do Irão sob orientação de Ahmadinejad multiplicaria as armadilhas diplomáticas potenciais e quase certamente abrandaria os esforços para levar o Irão a comportar-se de forma mais responsável enquanto país integrado num universo globalizado.
(Continua no Nº 2)

segunda-feira, 23 de junho de 2008

O grande ludibriador


A Cultura do Ludíbrio

O ex-secretário de imprensa do Presidente Bush, Scott McClellan, acaba de publicar um livro intitulado "O que Aconteceu: Dentro da Casa Branca de Bush e a Cultura do Ludíbrio em Washington". O furor político e mediático que causou decorre de duas revelações: quando ordenou a invasão do Iraque, a Administração Bush sabia que o Iraque não tinha armas de destruição maciça (ADM) e montou uma poderosa "campanha de propaganda" para levar a opinião pública norte-americana e mundial a aceitar uma "guerra desnecessária"; os grandes meios de comunicação foram "cúmplices activos" dessa campanha, não só porque não questionaram as fontes governamentais como porque incendiaram o fervor patriótico e censuraram as posições cépticas contrárias à guerra.
Estas revelações e as reacções que causaram têm implicações que as transcendem. Antes de tudo, é surpreendente todo este escândalo, pois as revelações não trazem nada de novo. As informações em que assentam eram conhecidas na altura da invasão a partir de fontes independentes. Nelas me baseei para justificar nesta coluna a minha total oposição à guerra que, além de "desnecessária", era injusta e ilegal. Isto significa que as vozes independentes foram estigmatizadas como sendo ideológicas e anti-patrióticas, tal como hoje criticar Israel equivale a ser considerado anti-semita. Em 2001, no Egipto, e antes da máquina de propaganda ter começado a devorar a verdade, o próprio Secretário de Estado Colin Powell dissera que não havia nenhuma informação sólida de que o Iraque tivesse ADM. Isto me conduz à segunda implicação destas revelações: o futuro do jornalismo. A máquina de propaganda do Departamento de Defesa assentou em três tácticas: impor a presença de generais na reserva em todos os noticiários televisivos com o objectivo de demonstrar a existência das ADMs; ter todos os média sob observação e telefonar aos seus directores ou proprietários ao mínimo sinal de cepticismo ou oposição à guerra; convidar jornalistas de confiança de todo o mundo (também de Portugal) para serem convencidos da existência das ADMs e regressarem aos seus países possuídos da mesma convicção belicista. Vimos isso trágica e grotescamente no nosso país. A verdade é que em Washington e em todo o país circulavam nos média independentes informações que contradiziam o "brainwashing", muitas delas provindas de generais e de antigos altos funcionários da Casa Branca. Porque não ocorreu a esses jornalistas amigos fazer uma verificação cruzada das fontes como lhes exigia o código deontológico?Para o bem do jornalismo, alguns deles procuraram resistir à pressão e sofreram as consequências. Jessica Yellin, hoje na CNN, e na altura no canal ABC, confessou publicamente que os directores e donos do canal a pressionaram para escrever histórias a favor da guerra e censuraram todas as que eram mais críticas. Um produtor foi despedido por propor um programa com metade de posições a favor da guerra e metade de posições contra. Quem resistiu foi considerado anti-patriótico e amigo dos terroristas. Isto mesmo aconteceu no nosso país. Quantos jornalistas não foram sujeitos à mesma intimidação? Quantos artigos de opinião contrários à guerra foram rejeitados? E os que escreveram propaganda e intimidaram subordinados alguma vez se retrataram, pediram desculpa, foram demitidos? É que eles colaboraram para que um milhão de iraquianos fossem mortos, dezenas de milhares de soldados norte-americanos fossem feridos e mortos e um país fosse totalmente destruído. Tudo isto terá sido preço, não da democracia – ridículo conceber como democrático este estado colonial e mais fracturado que a Somália – mas sim do controle das reservas do petróleo do Golfo e da promoção dos interesses do petróleo, da indústria militar e de reconstrução em que os donos dos média têm fortes investimentos.
Para disfarçar o problema moral dos cúmplices da guerra e da destruição, um comentador de direita do nosso país socorreu-se recentemente da mais desconcertante e desesperada justificação da guerra: se não havia ADMs, havia pelo menos a convicção de que elas existiam. Ora o livro de McClellan acaba de lhe retirar este argumento. De qual se socorrerá agora? O trágico é que a "máquina" de propaganda continua montada e está agora dirigida ao Irão. O seu funcionamento será mais difícil e sê-lo-á tanto mais quanto melhores condições tiverem os jornalistas para cumprir o seu código deontológico.

Boaventura de Sousa Santos
In Visão