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sábado, 23 de agosto de 2008

A arte de ver

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Foto de Camiller

Passamos pelas coisas sem as ver,
gastos, como animais envelhecidos:
se alguém chama por nós não respondemos,
se alguém nos pede amor não estremecemos,
como frutos de sombra sem sabor,
vamos caindo ao chão, apodrecidos.

Eugénio de Andrade

Lá longe

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Foto de Graça Brites

Música, levai-me:

Onde estão as barcas?
Onde são as ilhas?


Eugénio de Andrade

segunda-feira, 23 de junho de 2008


A POESIA NÃO VAI

A poesia não vai à missa,
não obedece ao sino da paróquia,
prefere atiçar os seus cães
às pernas de deus e dos cobradores de impostos.

Língua de fogo do não,
caminho estreito
e surdo da abdicação, a poesia
é uma espécie de animal
no escuro recusando a mão que o chama.

Animal solitário, às vezes
irónico, às vezes amável,
quase sempre paciente e sem piedade.

A poesia adora
andar descalça nas areias do verão.

Eugénio de Andrade, O Sal da Língua, 1995.